09/02/2025 às 20h33min - Atualizada em 09/02/2025 às 20h19min

​O PRIMEIRO VENDEDOR DE LARANJA

Paul Law

Paul Law


O homem observou com orgulho o seu pé de laranja carregado, já
antevendo dias de regozijo e, por que não, de sobras por causa do alimento
garantido. Nosso sujeito ainda inominável, pois esta história se passa antes da
invenção dos nomes, sorriu satisfeito. A segurança já naqueles remotos
tempos era boa situação. Era, basicamente, constituída de um local seguro
para passar a noite, domínio sobre o fogo e proteção do corpo.
Com as sobras vinha-lhe o problema de o que fazer com elas. Outros ali
também necessitavam de se alimentarem e não dispunham da sorte do nosso
personagem, motivo pelo qual a ideia de compartilhar as sobras lhe pareceu
óbvia e sensata. A ideia saindo do mundo de Platão e tornando-se prática
surgiu nova situação: eram muitos os desejosos e os frutos sobressalentes não
tantos assim. Então, coube ao nosso personagem escolher aqueles que
receberiam suas laranjas, o que fez usando critérios meramente pessoais. Os
mais próximos ganhariam; os menos conhecidos, desculpas ou nem isso, pois
não se pensava, naqueles dias, em desculpas pois não se entendia culpa.
Os que ficam sem, no entanto, revoltam-se e pensam num modo de
mudar a situação. Eles oferecem benefícios ou vantagens ao dono das
laranjas em troca do direito de receber a fruta.
— Dê-me suas laranjas e te dou um pedaço de carne — assim soou aos
ouvidos do nosso personagem os gestos e grunhidos de seu conterrâneo que
era habilidoso caçador.
— Dê-me laranjas e te dou limões — outra proposta de um
desconhecido cultivador de limão, talvez o primeiro especialista dessa ordem.
O nosso antepassado, então, sem qualquer cerimônia, começou a trocar
suas laranjas por outras coisas que desejava.
Os primeiros vizinhos que recebiam laranjas apenas pela benevolência
do dono e sem dar nada em troca ficaram em desvantagem. Para “voltar ao
jogo” entenderam que também precisam oferecer algo em troca das laranjas.
Com o tempo, esta troca de laranjas por outros produtos trona-se habitual, mas
confusa. Um pedaço de carne vale quantas laranjas? E limões? Para resolver o
problema o nosso personagem tem a ideia de escrever em um papel esta
informação: cinco dúzias de laranja vale um pernil. O dono da carne, por sua

vez, faz o seu título de crédito: um pernil vale pelo menos cinco dúzias de
laranja.
A ideia ganhando a realidade um novo problema se apresenta: não se
pode usar laranjas ou pedaços de carne, nem limões para medir o valor das
coisas. É necessária uma medida padrão, idônea, algo que se aplique a
qualquer coisa. Os envolvidos resolvem criar tal papel e convencionam chamá-
lo de dinheiro.
Desde então, o nosso homem é conhecido pelos seus pares como
vendedor de laranja e cobra certa quantia de dinheiro por dúzias do fruto que
produz. Mais que isso, deixou de produzir principalmente para si, antevendo a
possibilidade de sobras tornarem-se dinheiro. Com este dinheiro ele pode
comprar certa quantidade de pernil ou limões e tudo parece bem, além da
segurança que entendia suficiente até então.
Entretanto, o astuto primeiro vendedor de laranja logo percebe que há
um custo para colher suas frutas. O tempo de espera para que amadureçam, o
preparo da terra, a colheita no momento certo e a chuva. Estes fatores devem
ser levados em consideração na hora de estipular o valor do seu produto.
Assim, ele aumenta o preço da dúzia com base nesta justificativa. O fornecedor
de carne entende o raciocínio, o produtor de limão também. Eles fazem o
mesmo.

Paul Law é escritor, professor de Língua Portuguesa e membro da Academia
Guaçuana de Letras.
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