14/05/2022 às 14h20min - Atualizada em 14/05/2022 às 14h18min

​Para quem será bom aquele que é mau para si mesmo?

PALAVRA DE MULHER

PALAVRA DE MULHER

Isa Oliveira é formada em Letras pela USP e autora dos livros “Elogio à loucura” e “O chapéu de Alberto”.

            Recentemente, dei um presente para alguém. Nada espetacular, apenas um creme e uma caixa de sabonetes, mas, de uma marca relativamente famosa, que não vou dizer aqui para não fazer propaganda, mas, todo mundo conhece, porque eles têm lojas até dentro de supermercados.
            Comprei o presente porque sei que, diferente de mim, a pessoa que eu presenteei adora cremes hidratantes, e aquele me pareceu muito bom, com um perfume suave e agradável, tanto que até me deixei convencer pela vendedora e comprei os sabonetes também. Bem, somos humanos e, quando damos um presente, embora não devêssemos, esperamos um agradecimento...
A pessoa presenteada gostou, dava para ver isso em seu semblante, na sua reação ao passar um pouco do creme no braço e cheirar.  Minha missão estava cumprida e, se a ação fosse fechada com um “obrigada”, estaria perfeito. Mas, não. A pessoa se esmerou em dizer que o presente era muito caro, por que eu fui comprar naquela loja, já que fui ao supermercado, poderia ter comprado lá mesmo, uma marca mais simples, mais barata. Aquilo me causou muito incômodo, porque a pessoa não estava desmerecendo a mim ou ao meu o presente, mas, a si mesma. Se eu dei aquele produto, daquela marca, é porque achei que ela merecesse, e ela deveria achar isso também.
Quantas vezes na vida fazemos isso? Quantas vezes nos sabotamos, nos depreciamos, aceitamos menos do que merecemos e, pior, aceitamos o ruim, o abuso, o descaso, a violência, o engano, a traição, porque não conseguimos ser bons para nós mesmos e, quem não é bom para si mesmo, vai ser bom para quem?
Muitas vezes, a autodepreciação é confundida com humildade, mas, uma coisa não tem nada a ver com a outra. As pessoas humildes não se vangloriam, não exaltam as próprias qualidades, não querem parecer melhor do que as outras, mas, elas sabem reconhecer o próprio valor e se posicionar adequadamente. Os que se autodepreciam fazem as pessoas se sentirem mal, terem pena delas ou evitá-las pelo desagradável de seu convívio. Nada nunca está bom, elas são sempre menos, injustiçadas, infelizes, perseguidas.
Talvez, no fundo, sejam apenas egoístas e vivam um orgulho reverso, porque esforçar-se por se convencer e convencer aos outros de que é a pior criatura do mundo equivale à postura contrária, de quem se acha melhor e superior a todos. Os extremos são perigosos, não devemos estar no pico e nem no fundo do vale das sombras, afinal, entre o 8 e o 80, existem 72 possibilidades.
Pessoas que não gostam de si mesmas costumam ser invejosas, porque gostariam de ser o que não são e de ter o que não têm. E acabam se tornando tóxicas, porque alimentam raiva pelos que são diferentes, pelos que ela finge que admira, mas, no fundo, não suporta.
Quem não gosta de si mesmo, se alimenta mal, não cuida do corpo, da saúde, da higiene física e, sobretudo, mental; guarda lixo psicológico contaminado e com ele, com o que traz dentro de si, contamina tudo ao seu redor. E o mundo está cheio de pessoas assim. Um exemplo é o número de pessoas armadas, dando tiros por aí, a torto e direito, matando trabalhadores, motoristas em brigas de trânsito. São pessoas que não se aceitam, mas que querem que o mundo as aceite e que todos se comportem de forma a não ofendê-las e satisfazerem os seus caprichos. Por isso, Jesus disse que o mal não é o que entra no homem, mas o que sai dele, porque vem direto do seu coração.
No caso do presente, a dor da pessoa certamente foi a de ter ganho algo que não teria coragem de dar a si mesma, por não se achar merecedora, então, não pode admitir que outra pessoa lhe dê. Murcham o buquê de flores com o olhar por se sentirem humilhadas e indignas de merecê-las.
E, quando falo dos outros, falo também de mim, porque todos nós podemos já ter agido dessa forma, sendo cruéis com nós mesmos, nos agredindo de variadas formas, de um jeito que só nós sabemos, porque acontece em nossa intimidade. Precisamos ter cuidado, olharmos para nós, para nossos corpos e nossas capacidades com respeito, mesmo que não sejamos tão altos ou tão baixos como gostaríamos, tão gordos ou tão magros, com cabelos, olhos e pele diferente do que preferiríamos ter.
Precisamos agir assim também com os nossos dons, se sou um bom pedreiro, não posso invejar o médico, certamente ele jamais conseguiria assentar dois tijolos em uma parede. Cada um é o que é, dotado das habilidades que tem. Precisamos nos amar e, quando isso estiver difícil, precisamos ao menos nos respeitar, sermos bons conosco: nos presentearmos, aceitarmos de bom grado o que recebemos, descansarmos bem, nos alimentarmos bem, nos divertirmos, cuidarmos de nossa mente e de nosso espírito. Aí, sim, poderemos sair de nós mesmos e interagir com as outras pessoas, com bondade e respeito.
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