28/03/2022 às 13h29min - Atualizada em 28/03/2022 às 13h29min

​O mendigo é daltônico? E nós?

PALAVRA DE MULHER

PALAVRA DE MULHER

Isa Oliveira é formada em Letras pela USP e autora dos livros “Elogio à loucura” e “O chapéu de Alberto”.

     Nos últimos dias, as cenas de bombardeios e filas de refugiados deixando a Ucrânia foram divididas com os vídeos, memes e notícias sobre o personal trainer que espancou um mendigo depois de encontrá-lo em situação de intimidade com a sua esposa. A cena foi filmada por câmeras de segurança, caiu na rede e o assunto bombou.
     Ouvimos que a mulher do personal defendeu o mendigo e disse que não houve agressão, que o que aconteceu entre eles foi consensual. O personal, deu entrevistas, se mostrando abalado e dizendo que a esposa teve um surto psicótico. Em um momento ele diz que ela tinha problemas psicológicos, em outro, diz que ela nunca teve qualquer problema nessa área... O que se sabe é que a moça está internada numa clínica.
     Para completar o assunto e levar os milhões de internautas que acompanham o caso ao delírio, o jornal Metrópoles conseguiu uma entrevista com o mendigo (parece que o correto é dizer “homem em situação de rua”...). Eu só tinha visto as manchetes sobre o caso, muito an passant, porque a coisa viralizou de tal maneira, que é impossível não ver, mas, a entrevista com o mendigo, fiz questão de assistir. E foram 42 minutos de uma fala bastante correta, muito rebuscada, na qual o homem retrata a experiência vivida com a esposa do personal trainer de uma forma quixotesca, poética, apesar de ter dado detalhes bem carnais, sendo necessário ao canal recorrer várias vezes ao pim característico para encobrir o que não convém  ser ouvido.
     Não pensem que eu vá dizer o que acho dessa situação, porque não tenho que achar nada. Talvez tenha ficado meio indignada com o peso do humor e das piadas que se criaram em torno, porque a situação, conquanto inusitada, está longe de ser engraçada. No entanto, há um ponto que me chamou a atenção.
     O rapaz espancado, que garante ter ficado mais de uma hora em idílio com a jovem senhora dentro do carro, garante que o carro dela é vermelho. Todos os vídeos mostram um carro branco. E a dúvida foi tirada com um vídeo colorido, que já saiu do ar, por ser mais explícito, pelo fato mesmo de mostrar as cenas em cores. Mas, ainda ali, não havia carro vermelho, e sim, carro branco. Será que ninguém vai falar sobre esse ponto falho? Não é possível que ninguém tenha percebido isso. Está certo que dizem que, de noite, todos os gatos são pardos, mas, entre a cor vermelha e a cor branca, mesmo de noite, há uma enorme diferença!
     Refletindo sobre esse aspecto, pensei que o rapaz pode ser daltônico, muito embora, considerando o funcionamento da visão de uma pessoa com daltonismo, o contrário é que seria o normal, ele ver um carro vermelho como cinza, azul claro ou mesmo branco. Não foi isso que aconteceu... Logo, pode ser exatamente esse o ponto que virá a desbancar toda a retórica do romântico Dom Quixote de Planaltina. Sabe-se lá, né? Afinal, ele é um mendigo, ou um cidadão temporariamente em situação de rua, trocando em miúdos, ainda que muito letrado, um zé ninguém. Aguardemos o desfecho do caso, se é que ele chegará ao nosso conhecimento, afinal, tem tanta história que começa, bomba e depois cai no buraco negro e nunca mais se fala sobre o que aconteceu... Precisamos considerar que há tantas coisas chamando a atenção ultimamente que, logo, essa história pode cansar e ficar por isso mesmo.
    Mas, repetindo a pergunta “Será que o mendigo é daltônico?”, eu vou um pouquinho além: e nós, seremos daltônicos também? Quantas vezes já tivemos certeza de uma coisa e depois descobrimos que não era bem aquilo ou até que não era nada daquilo? Quantas vezes nos deixamos levar pelas aparências, confundimos as cores e não vemos exatamente o que está acontecendo?
    Parece que quase ninguém está questionando, por exemplo, por que empresas como a Coca-Cola, o McDonald’s, a Starbucks, a Shell, a Samsung e outras gigantes saíram tão rapidamente da Rússia, logo nos primeiros dias do conflito. Não pareceu rápido demais, orquestrado demais, talvez algo já ensaiado?
Acho essa guerra terrível, o Putin um genocida e não posso deixar de simpatizar com o heroísmo do Zelensky que, depois de tantos papéis desempenhados como comediante e ator, nem de longe deve ter sonhado com o protagonismo num enredo dessa dimensão. Me solidarizo totalmente com as pessoas que estão sofrendo, morrendo, perdendo parentes, perdendo suas casas, tendo de fugir para o desconhecido. Me comovo com os bebês de barriga de aluguel que estão no limbo de um porão no subúrbio de Kiev e sabe Deus que destino terão, porque não será fácil aos pais contratantes entrarem na Ucrânia para resgatá-los. Posso me entristecer, posso chorar, mas não posso agir como se fosse daltônica ou míope e não enxergar que há duas guerras em curso: uma com os tanques, os mísseis e os bombardeios, nas principais cidades da Ucrânia, e outra nos gabinetes políticos.
     Existe uma indústria da guerra e ela nunca se mostrou de forma tão escancarada como agora. Em muitas partes do mundo há pessoas doentes, muito abaixo da linha da pobreza, crianças morrendo de desnutrição, pessoas bebendo água tão suja que nós não usaríamos nem para lavar a roupa ou o quintal, isso quando não morrem de sede. Há milhares de pessoas desabrigadas por causa de enchentes e outras catástrofes, mas, nunca se ouviu dizer que bilhões de dólares e de euros estivessem sendo destinados para sanar essas questões humanitária de primeira grandeza. E, fora o dinheiro que está sendo injetado nessa guerra, vocês já pararam para pensar no escandaloso valor dos armamentos que estão sendo enviados para a Ucrânia? Tudo pode estar desmoronando, menos, a indústria bélica.
Eu não vou entrar numa discussão política do assunto, porque ele é mais complexo do que se imagina e eu estou longe de ser uma expert nisso. Mas, esses dias, me lembrei de um livro que li quando era adolescente e que me impactou muito. O nome do livro é “O morto vivo”. Ele conta a história de dois pequenos países em guerra há muitos anos. Os presidentes desses países resolveram fazer um cessar fogo e uma negociação de paz. Representantes de vários países grandes fizeram parte da mesa de negociação.
O presidente de um dos países em guerra diz que não quer mais guerrear porque não tem mais soldados. O mediador, de uma nação grandiosa, diz: “Não se preocupe, nós forneceremos soldados.”. O presidente do outro país diz que também não quer mais guerrear porque, embora tenha soldados, não tem mais armas. O representante da nação poderosa diz: “Não se preocupe, nós forneceremos as armas.”. Enfim, depois de apresentarem várias dificuldades, todas solucionadas pelos mediadores, os dois se levantam e dizem: “Nós queremos acabar essa guerra porque não temos motivos para guerrear.”. O negociador, então, muda o tom de voz e encerra o caso dizendo: “Não se preocupem, nós forneceremos os motivos!”
Se o carro da esposa do personal trainer era branco ou vermelho pode ou não se tornar uma questão crucial nessa história, mas, o que vai impactar diretamente a nossa vida é o que está acontecendo na Ucrânia e em seus entornos. Um bom colírio pode nos ajudar a enxergar melhor.
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