12/03/2022 às 08h12min - Atualizada em 12/03/2022 às 08h07min

​O rendoso negócio pet

PALAVRA DE MULHER

PALAVRA DE MULHER

Isa Oliveira é formada em Letras pela USP e autora dos livros “Elogio à loucura” e “O chapéu de Alberto”.

Jericó – Foto Henrique Campos
    Cães. Eu amo. Você ama. Muitos amam. Há quem não goste, mas é uma ínfima minoria. Coloquei “cães”, porque são os companheiros que tenho, e não gosto da palavra pet. Mas, entra nesse consenso de amor também a palavra gatos. Há outros bichinhos de estimação, inclusive alguns bem exóticos, mas, de um modo geral, esse universo é composto por cães e gatos. Esta belezura da foto é o Jericó, um cãozinho abandonado que me adotou no início de 2016.
     Não, você não leu errado, é isso mesmo. Ele me adotou. Nossa história de amor começou na frente de uma igreja, numa noite quente, quando o padre dava início a um movimento chamado “Cerco de Jericó”. Eu tinha mudado para Mogi Guaçu há poucos meses e um dos meus cachorrinhos, Gaspar, cavou um túnel embaixo do muro, entrou no quintal do vizinho e, de lá, ganhou a rua, certamente tentando voltar para nosso antigo lar, em Atibaia. Fizemos de tudo para encontrar nosso querido Gaspar, mas, infelizmente, ele nunca mais apareceu.
    Na noite a que me refiro, fui ao Cerco de Jericó e, na saída da igreja, do outro lado da rua, vi um cãozinho preto, de patas amarelas, encolhidinho e, na hora, pensei que fosse o Gaspar. Corri até ele e, de perto, vi que era um cachorro bem jovem, diferente do meu, que já era um senhorzinho de 11 anos. Fiz carinho nele, que pulou no meu colo e depois me seguiu até minha casa. Dei-lhe água e comida e arrumei uma caminha para ele na garagem. De manhã, quando levantei para ir à missa das 05h00, que fazia parte do Cerco de Jericó, só encontrei a caminha. Ele passou pela grade e partiu.
    Na igreja, ajoelhada em ação de graças, após a comunhão, senti um focinho gelado encostando em meu braço. Adivinhem quem era? De novo, levei para casa e, de novo, ele foi embora. Mas, na manhã seguinte, nos encontramos mais uma vez, dentro da igreja e assim foi durante todo o cerco de Jericó. Sem dúvida, um cachorrinho católico. Daí a razão do seu nome. Algumas pessoas que o viam sempre ao meu lado na missa vieram me perguntar se ele era meu, eu respondi que não. Uma senhora me disse que já o tinha visto várias vezes, perambulando pelas ruas, que ela e os vizinhos lhe davam água e comida e que supunham que ele havia sido abandonado.
     Colocamos fotos dele na internet, avisos em grupos de proteção animal, mas, nunca apareceu ninguém para reclamá-lo. O cerco de Jericó acabou e não mais  nos encontramos na igreja, mas, ele começou a rondar a minha casa. Ficava um dia, sumia dois, depois ficava dois e sumia um, até que um dia ficou e isso já dura seis anos. Ele é um animal raro, de personalidade forte e características muito peculiares. Poderia passar horas e horas escrevendo sobre ele, mas, basta dizer que, dos oito peludinhos que tenho hoje, ele é o Jericó, é “o cara”.
    Mas, no dia 13 de fevereiro, meu marido foi atender ao pai dele no portão e notou que o Jericó estava estranho, pois, ele é sempre muito ativo, e não fez a costumeira algazarra quando o Henrique abriu a porta. Ele estava deitado com o peito no chão, chamei-o e ele mexeu levemente o rabinho e, enquanto eu me abaixava, ele simplesmente parou. Não apenas chorei, mas comecei a gritar, era algo surreal. Meia hora antes ele estava bem. Naquele pânico, ouvi meu marido, que nem é tão religioso quanto eu, evocando São Francisco. Então me veio a inspiração de soprar as narinas dele. Enquanto eu fazia isso, meu marido foi massageando o seu peito. Nada.
     Meu marido lembrou de uma clínica 24 horas não muito distante de nossa casa. Peguei-o desfalecido, corremos para o carro, não pegamos documentos e nem celulares. Levamos uns cinco minutos para chegar à clínica e ele não voltou. Já estava esfriando, sem respiração e sem batimentos cardíacos. Estava morto em meu colo, mas eu continuei soprando as suas narinas e massageando o seu peito. Quando o Henrique desceu do carro para tocar a campainha, ele se mexeu no meu colo. Um milagre.
     Para encurtar a história, fomos atendidos prontamente, muito bem atendidos. Os sinais vitais foram voltando, a doutora o colocou no soro e providenciou a sua internação. Falamos com ela de madrugada e ele estava evoluindo bem. Na manhã seguinte, quando fomos buscá-lo, ele veio correndo em nossa direção. Pulou nas pernas de um senhor que estava no bebedouro que, entendendo o recado, deu um copo de água para ele, e mais um e mais um e mais um. Foi a primeira vez que vi um cachorro tomar água no copo. E, por ter tomado quatro copos, suponho que não tenham se lembrado de dar água para ele, mas isso é o de menos.
Ele fez exames e o resultado foi uma cardiopatia, com aparente aumento do coração, o que requereu exames complementares mais sofisticados. Recebi a conta e, confesso, quem quase teve um ataque cardíaco fui eu! Não imaginei que uma noite numa clínica, um hemograma e um Raio X pudessem custar tão caro, mas, não regateei preço e nem reclamei, o Jericó estava vivo e era isso que importava. No entanto, fomos pegos desprevenidos. Não tínhamos aquele valor. Passei três cartões de crédito, cada um com um restinho, porque acabamos de sair de uma reforma e tudo que tínhamos foi investido na obra. O que faltou, dei um cheque pré-datado.
     No dia de pagar o cheque, porém, as contas não fecharam e consegui pagá-lo apenas parcialmente. Ficaram faltando R$ 200,00, pedi para que segurassem até o dia 9, quando receberia minha aposentadoria. Só que, nesse ínterim, outros imprevistos aconteceram e eu só conseguiria saldar os R$ 200,00 no dia 15, quando recebo meu pagamento de roteirista. Enviei uma mensagem para a clínica bem cedinho, explicando o ocorrido e dizendo que pagaria esse valor no dia 15. Qual não foi a minha surpresa ao receber a resposta. Não obtive a compreensão que esperava e praticamente, fui tratada como uma caloteira.
Fiquei profundamente triste e humilhada, porque é muito vexatório não poder arcar com um compromisso, mas, o mais triste é ver a frieza comercial do negócio. E também a inépcia, claro. Costumam dizer que a propaganda é a alma do negócio, mas, para mim, a alma do negócio é o pós-venda, a fidelização do cliente. Rapidamente resolvi o assunto, levantei os R$ 200,00 e fiz um Pix para a clínica imediatamente. Com esse tipo de procedimento, pode ser que a situação do caixa deles não esteja das melhores e eu não queira contribuir para o prejuízo do negócio, afinal, em alguns momentos, R$ 200,00 podem ser uma fortuna!
     Resgatei o cheque e encerrei qualquer relação futura que pudesse ter com esse local. Mas, de certa forma, me senti um pouco como a personagem de Júlia Roberts no filme “Uma linda Mulher”. Não linda, mas, injustiçada. A personagem entra numa boutique fina para comprar roupas, mas, é considerada apenas por sua aparência e é tratada como um ser de quinta categoria (tipo: “Como a senhora pode trazer o seu cachorro à nossa clínica e não ter R$ 200,00 reais para pagar o resto da conta de mais de mil?”). Para quem se lembra do filme, depois da humilhação sofrida, a moça gasta milhares de dólares em compras em outra loja e volta à primeira boutique para mostrar para a vendedora o tamanho da comissão que ela deixou de ganhar por ser arrogante e preconceituosa.
     Eu tenho oito cachorros. E um cliente com oito cachorros não é algo a se desprezar dentro desse universo. Não apenas tenho oito cachorros, mas deixo de comer, se necessário, para cuidar deles. Sou dedicada e extremamente zelosa e o bem estar deles é minha prioridade. Portanto, perderam um cliente em potencial. Porque, mesmo nesse mercado que, apenas no Brasil, movimenta mais de 6 bilhões de dólares por ano, com estimativa de chegar aos 11 bilhões até 2026, não basta um veterinário atencioso trabalhando no plantão da noite. É fundamental uma gestão que prepare os seus funcionários para lidar também com os seres humanos, que são os mantenedores do negócio que gira em torno dos animais.
     Eu amo, você ama, muitos amam. E continuaremos amando e fomentando esse rendoso negócio, no entanto, quando a ganância e a falta de tato falam mais alto, qualquer negócio pode estar fadado ao fracasso. Se eu tivesse escrito este artigo antes de ontem, quando esse episódio tão desagradável se deu, certamente estaria sendo mais dura. No entanto, como somos pessoas íntegras, os R$ 200,00 chegaram rapidamente às nossas mãos e passaram para o caixa da clínica. Pude dormir com a consciência tranquila de não estar causando prejuízo e nem lesando o patrimônio de ninguém. Enquanto escrevo, o Jericó dorme tranquilamente ao meu lado e isso me enche de harmonia e paz.
     Felizmente, não existe apenas uma clínica veterinária 24 horas em Mogi Guaçu e, mesmo no horário comercial, temos excelentes profissionais. Na urgência de socorrê-lo, não conseguimos pensar em ligar para algum veterinário conhecido, afinal, era um domingo à noite e corremos para o primeiro lugar que nos veio à mente. Então, se posso me arvorar em conselheira, aos que amam essas criaturinhas iluminadas, peço que avaliem bem onde levar os seus bichinhos quando eles precisarem de atendimento. E, aos que têm negócios, seja em que área for, treinem bem as suas equipes, invistam em propaganda, mas não as desmintam com uma prática sem humanidade, ainda que o seu negócio seja pet. Aprendam a fidelizar. Ah, e, se o seu negócio é pet, não esqueçam de dar água aos seus clientes. Não fica bem um cãozinho tomando água no copo, no bebedouro destinado aos que pagam a conta.
 
 
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