26/02/2022 às 10h26min - Atualizada em 26/02/2022 às 10h21min

Existência Significativa: Os desafios do Ser em tempos nebulosos – superamos, finalmente, o reinado de Momo!

Os desafios do Ser em tempos nebulosos.
PASCHOALETTO[1], Alberto C.

Reconfiguração de Mundo sem precedentes
 
No texto dessa semana nossa proposta é dialogar o "Existir e Coexistir" na condição humana do pensamento existencial do Ser que vive o momento do refluxo de arrefecimento do COVID que finalmente estamos vivendo, fruto da transdisciplinaridade de diversas áreas, tais como: saúde, social, cultural, educacional e tantas outras áreas que convergiram para um mesmo foco de atenção ao mundo que se apresentou desde março 2020 como BANI, que segundo o antropólogo Jamais Cassio possui as seguintes características:
1. Fragilidade: – As certezas são efêmeras, quando muito temos a certeza do dia, visto que fluxos e refluxos estão acontecendo de um dia para outro em todas as áreas;
2. Ansiedade: A ambiguidade entre as certezas que do dia para a noite são reconfiguradas em incertezas com implicações no estado emocional coletivo. Estamos, todos, com os nervos à flor da pele pois o senso de urgência e cobrança nas tomadas de decisões são cada vez mais baseadas nas incertezas;
3. Não linearidade: Planejamentos sólidos em sua perpetuidade, como por exemplo o reinado de Momo do Carnaval brasileiro, são provas desta não linearidade e testemunhamos, todos, uma atitude de bom senso da humanidade para compreender que tudo em está em fluxo e refluxo neste mundo novo, e precisamos nos adaptar para essa nova realidade;
3. Incompreensibilidade: Os três itens anteriores geram a certeza, embora busquemos respostas para cenários e questões, até então compreensíveis agora se randomizam aleatoriamente em algoritmos incompreensíveis e o risco está presente em cada tomada de decisão, por menor que seja.
Para saber mais: https://portaltribunadoguacu.com.br/coluna/46/o-sentido-da-vida-uma-abordagem-atual-lucida-e-significativa-para-historias-de-finais-felizes
 
Compreensão basilar: Eu/Tu no mesmo eixo
 
Assim podemos admitir como provocação filosófica que o Homem já nasce gregário e possui a capacidade de inter-relacionamento com seu próximo, ou o que chamaremos de filosofia da intersubjetividade.
 
Neste texto entenderemos a Intersubjetividade com relação entre sujeito e objeto e sintetizaremos as ideias do filósofo austríaco Martin Buber (1978/1965), criador da Filosofia Dialógica do Encontro (Eu/Tu), que representa um dos exemplos do verdadeiro vínculo de responsabilidade entre reflexão e ação, entre práxis e logos, ou segundo suas próprias palavras:
 
“O homem se torna Eu na relação com o Tu. O face-a-face aparece e se desvanece, os eventos de relação se condensam e se dissimulam e é nesta alternância que a consciência do parceiro, que permanece o mesmo, que a consciência do Eu se esclarece, aumenta cada vez mais. De fato, ainda ela aparece somente envolta na trama das relações, na relação com o Tu, como consciência gradativa daquilo que tende para o Tu sem ser ainda o Tu. Mas, essa consciência do Eu emerge com força crescente, até que, um dado momento, a ligação se desfaz e o próprio Eu se encontra, por um instante, diante de si, separado, como se fosse um Tu, para tão logo retomar a posse de si e daí em diante, no seu estado de ser consciente entrar em relações”.  (Buber, 2009 pg. 59)
 
A relação intersubjetiva do Eu e Tu criam a terceira pessoa no plural “Nós” que em suas obras filosóficas, até hoje, têm influenciado a psiquiatria, a psicologia, a educação, a sociologia e toda uma corrente da filosofia contemporânea que se preocupa com o sentido da existência humana em todas as suas manifestações, ou seja: Uma abordagem Existencial Humanista. Buber é conhecido pela sua antropologia do inter-humano como pelos seus estudos sobre o Hassidismo (Mística Judaica).
 
 
UBUNTU e as proposições da intersubjetividade buberiana
 
A palavra Ubuntu vem das línguas Zulu e Xhosa do sul da África e significa humanidade para todos. Nesse sentido, a filosofia Ubuntu baseia-se em uma ética coletiva, manifestada principalmente na convivência harmoniosa com os outros, e se baseia na categoria do “nós” como parte integrante da sociedade como um todo.
 
Desta forma, o trabalho visa refletir sobre os fundamentos da filosofia do Ubuntu como uma das várias correntes da filosofia africana. Para tanto, será desenvolvido por meio de pesquisa bibliográfica, sendo necessária a utilização de métodos interpretativos. A filosofia Ubuntu guarda a essência de ser uma pessoa que percebe que faz parte de algo maior e coletivo. Para isso, de acordo com o fundamento da filosofia do Ubuntu, nos tornamos humanos por meio de outras pessoas, não podemos nos tornar humanos completamente sozinhos, somos feitos para a interdependência e baseados na relação entre Deus, comunidade e natureza. Na obra “Eu e Tu” que representa o estágio mais completo e moderno da filosofia do encontro de Martin Buber e trata-se não apenas de uma descrição fenomenológica das atitudes do homem no mundo e de uma fenomenologia da palavra, mas sobretudo, de uma ontologia da relação enquanto fundamento para uma antropologia que se encaminha para uma ética do inter-humano, enfim, uma ética que admite o fracasso como parte autêntica do sucesso.
 
Embora Martin Buber influenciou muitos pensadores em campos diversos do conhecimento não encontramos referências bibliográficas em conexão direta de influência na filosofia Ubuntu, mas ressalvamos similaridades e convergência em sua corrente de pensamento, pois ambos concebem o ser humano com otimismo e alegria; acreditam nas suas potencialidades cósmicas; anseiam pela realização do homem num mundo que, apesar de tudo, vale a pena ser vivido na coletividade do nós como uma autêntica relação de reciprocidade entre Eu e Tu, e, do confronto da verdade interior de cada a liberação de centelhas divinas (egrégoras)  criadas da vivência integral do momento desse Encontro do Eu e Tu.
Para saber mais: https://portaltribunadoguacu.com.br/coluna/33/a-literatura-e-seu-papel-de-construtora-de-juizos-esteticos-e-intercessora-da-totalidade-do-humano
 
Âncoras buberianas e Abordagem Centrada na Pessoa
 
Carl Rogers (1902-1987), precursor da psicologia humanista e criador da linha teórica conhecida como “Abordagem Centrada na Pessoa” também deu grande destaque às ideias buberianas em suas obras, em destaque ao “Liberdade para Aprender” onde concebe uma pessoa aberta à experiência,  capaz  de  ser responsável pela constituição  do  conhecimento de si mesmo e do mundo ao seu redor. Rogers confiava que cada pessoa tinha competência natural para desenvolvimento  e algo que impulsiona à atualização de potencialidades em direção outro na relação autêntica do autoconhecimento tomando como referência a outra pessoa.
 
Quando a outra pessoa é transparentemente autêntica e coerente, quem recebe ajuda sou eu e a recíproca também é verdadeira. No cotidiano, mais do que nunca pelo exposto acima, nossas vidas são entrelaçadas por três palavras que dão sentido a nossa trajetória existencial: Sobrevivência, Sucesso e Significado.
 
Isto posto, nobre leitor, o resumo da ópera (força de expressão para causar impacto) representa o dever (instinto) de cada um na busca do significado da vida, enfim, algo que dê sentido para questões provocativas para contribuir no autoconhecimento: O que é a vida e qual o seu sentido? Qual o legado que estou deixando para a próxima geração? Qual o sentido da vida do ponto de vista material?
Para saber mais: https://portaltribunadoguacu.com.br/coluna/33/a-literatura-e-seu-papel-de-construtora-de-juizos-esteticos-e-intercessora-da-totalidade-do-humano
 
Somos pequenos deuses ao pensar conscientemente
 
Para Martin Buber, nos raros momentos em que a autenticidade profunda de um, vai ao encontro da autenticidade profunda do outro, ocorre a memorável `Relação Eu-Tu´, a que se referiu nosso estudioso em questão, pensador e filósofo existencialista judeu, como em suas próprias palavras “Esse mútuo encontro, profundo e pessoal, não acontece muitas vezes, mas estou convencido de que, se não acontece, ocasionalmente, não somos humanos”.
 
A vida moderna se apresenta num mundo conturbado conturbada e reclusa. Conturbada por conta do excesso de informações e fakes e reclusa por conta da bactéria da corona vírus. Lá fora ainda se vive a máxima de fazer mais e melhor e isso nos exige atitudes arrojadas e verdadeiramente heroicas no dia a dia. Temos que aprender que cada um de nós guarda dentro de si um herói e, devemos cultivar em nossos corações o poder deste nosso personagem mitológico. Uma vida rica e plena é resultado de muito esforço porque o exemplo das pessoas de sucesso mostra que continua válido alimentar o pensamento que DENTRO DE VOCÊ EXISTE UM HERÓI. Assim, despertar a coragem para conduzir sua vida à trilha do autoconhecimento e da autoestima será a saga de sua história, que imortalizará seu sucesso.
 
Precisamos aprender a executar as árduas tarefas e não aquelas que simplesmente se apresentam como fáceis ou que não contrarie as pessoas ao seu redor.  Na mitologia, um herói sempre enfrenta a ira dos Deuses ou luta contra seres alados ou transcende os vícios e medos... somente assim, entra na condição de herói. Não aceitar a infelicidade e negar suas imperfeições deve ser a alavanca para conduzir sua vida e ter coragem para sair em busca de algo maior, transcender e descobrir formas de superar seus desafios.
 
Deus, ou qual seja o nome que queira dar para a Inteligência suprema que rege o universo e,  em sua infinita bondade e astúcia superiores nos fez sua semelhança para nos ensinar que também podemos vencer nossas falhas e nos tornarmos pessoas melhores. Mas o caminho para uma vida plena e de sucesso absoluto exige esforço, perseverança e coragem, principalmente para encarar verdadeiros monstros interiores, como a covardia, a agressividade, o egoísmo, o conformismo e a falta de respeito para com sua individualidade e de teu próximo. A inércia é um câncer que se alastra e toma conta do seu comportamento, minam seu desempenho e o resultado é o regresso.
Para saber mais: https://portaltribunadoguacu.com.br/coluna/60/os-contornos-literarios-e-as-significacoes-filosoficas-da-metafisica-ontologica-um-atributo-ao-ser
 
 
Se há uma estrada da vida... que seja, ela, significativamente admirável
 
Evoluir na estrada do sucesso faz de você alvo do ódio e das armadilhas das pessoas ciumentas, que não poupam esforços para destruir seu herói interno. Na jornada do sucesso amargamos várias derrotas e grandes vitórias.  O que distingue um vencedor de um perdedor é à sua maneira de encarar os desafios, que funciona como força motriz e alavanca, para superar suas provas enquanto o perdedor se modela ao ambiente, perdendo sua identidade. O processo de desenvolvimento interior na busca do sucesso pode ser dividido em etapas, as quais destaca-se:
 
Força (física e intelectual):  para crer que o aperfeiçoamento começa dentro de nós;
Talento (centrado no autoconhecimento): para readquirir a lucidez e vencer o egoísmo;
Sexualidade (a arte de amar e governar os instintos): para ter coragem em assumir-se por inteiro;
Espiritualidade (qualidades da alma): para entrar no mundo Interior e derrotar seus inimigos.
 
 
Autossuperação genuinamente empoderada
 
Ao longo dessa pensata conseguimos explorar, sem profundeza metodológica, os principais axiomas do pensamento de Martim Buber sem a pretensão de esgotar o assunto, oxalá inesgotável para tentar, se é que seja possível faze-lo de maneira simplista, explicar a filosofia do encontro do Homem que pleno de sua existência, se autodiagnostica ao preencher sua essência através da realização de conquistas assim como quem chega ao pote que está lá no fim do arco-íris, cheio de “moedas” que dão sentido à vida em sua mais elevada instância, que a meu ver, seja a mais significativa da existência humana: CONFIANÇA, COMPLETUDE E SINCERIDADE.
 
Afinal, caro leitor, uma última questão filosófica para pensarmos: Vaidade e Orgulho, para quê? Lembre-se que até mesmo Momo perdeu seu reinado no carnaval brasileiro. Pois bem, que aproveitemos o fim de semana prolongado para pensarmos e repensarmos a verdadeira ordem dos valores que realmente são valorosos em nossas vidas, principalmente nesses tempos nebulosos.
 
 
REFERÊNCIAS
 
BUBER, Martin. Eu e tu : Tradução do alemão, introdução e notas por Newton Aquiles Von Zuben. São Paulo : Centauro, 2001. 10ª Edição revista - 2006 — 3ª Reimpressão – 2009.
 
CAVALCANTE, Kellison Lima. Fundamentos da filosofia Ubuntu: afroperspectivas e o humanismo africano. Revista Semiárido De Visu, Petrolina, v. 8, n. 2, p. 184-192, 2020
 
CÁSCIO, Jamais. Enfrentando a Era do Caos. Original: Facing the Age of Chaos. Site: https://medium.com/ disponível em https://medium.com/@cascio/facing-the-age-of-chaos-b00687b1f51d acesso em 20 fev. 22
 
LECIONE QUEVEDO, Thelmelise. Liberdade para aprender. Resenha da Obra 2ª ed. Belo Horizonte: Interlivros,1973. Publicação: Revista Eletrônica Acolhendo a Alfabetização nos Países de Língua Portuguesa. Disponível em http://www.acoalfaplp.net/
Alberto Carlos Paschoaletto
Coluna: (CONS)CIÊNCIA & VIDA
                                                                                                   Caminho Livre pelo Pensar Filosófico.
                                                                                                       Jornal Tribuna do Guaçu
 
 

[1] Professor Universitário, com graduação em Ciências Jurídicas e Sociais; pós-graduação em Gestão Empresarial, Psicologia Organizacional e do Trabalho; Mestrando em Desenvolvimento Sustentável e Qualidade de Vida.
Link
(CONS)CIÊNCIA & VIDA

(CONS)CIÊNCIA & VIDA

Alberto Carlos Paschoaletto é Professor Universitário, graduado em Ciências Jurídicas e Sociais; pós-graduação em Gestão Empresarial, Psicologia.

Leia Também »
Fale pelo Whatsapp
Atendimento
Precisa de ajuda? fale conosco pelo Whatsapp