22/05/2021 às 10h18min - Atualizada em 22/05/2021 às 10h16min

VIDA LEVE, VIDA BREVE

Foto: Henrique Campos
    Esses dias, escrevendo um texto no qual precisava mencionar a minha idade, tive de parar e fazer as contas: 1965... 2021- 1965=56 anos! Pode parecer um tanto bizarro fazer uma conta para lembrar a própria idade, mas é que esse é um item que não faz parte das minhas preocupações, então, não ocupo neurônios com ele.
    Me sinto com 56 anos? Não, não me sinto! Tenho tanta energia e tantos sonhos e planos que, a maior parte do tempo, parece-me que ainda tenho 18! Por outro lado, já vivi tanto, já me aventurei em tantas direções, construí tantas coisas, mudei de planos tantas vezes que parece que já vivi uns 200 anos.
    Mas, por mais que a gente viva ligado, porque tem vontade de fazer muita coisa ou porque realmente tem muita coisa para fazer, às vezes até para garantir a sobrevivência, chega uma hora que a gente precisa diminuir o ritmo e, simplesmente, viver.
    Viver porque a vida é breve e, por ser breve, precisa ser leve. Eu me aposentei há quatro anos. Jurei para mim mesma que, no dia em que me aposentasse, passaria um mês de pijama, só lendo e assistindo filmes na Netflix. Não é que nem de pijama eu fiquei? Na época em que saiu a aposentadoria – depois daquele terrível trabalho de parto a fórceps, tão estimulado pelo INSS, com a duração de mais de um ano – eu estava construindo a minha casa. E quando digo construindo, podem entender no sentido literal. Eu passava a maior parte do tempo na obra, acompanhando o trabalho do engenheiro, comprando material, ajudando os pedreiros e, por fim, coloquei o porcelanato na casa toda, com minhas mãos, um bom misturador de argamassa acoplado à minha furadeira (uma invenção dos deuses!) e, claro, as preciosas instruções do Google. Detonou a minha coluna, mas, ficou muito bom!
    Ainda nem tinha acabado a construção e eu já estava fazendo uma segunda faculdade e uma pós-graduação – ao mesmo tempo, claro! A faculdade estava muito aquém do que eu esperava, então, decidi ficar só com a pós, bem, não só... Emendei uma meia dúzia de cursos de extensão. Aí, apareceu a oportunidade de trabalhar em casa, fazendo roteiros para um canal do Youtube. Abracei. Para facilitar as coisas e ficar mais perto das fontes, mudei de cidade. Enfrentei uma casa com cobras visitando o quintal e outra com ladrões tentando invadir. Voltei. Mas, entre a ida e a volta, inseri a reabertura de meu curso de Licenciatura na USP, uma disciplina como aluna especial no Mestrado e um curso de Preparação e Revisão de Textos na UNESP, nem precisam perguntar se são todos ao mesmo tempo... E ainda peguei um livro para revisar e um projeto de livro para preparar, como tempero desta salada.
    No dia da minha mudança, enquanto os carregadores entravam com os móveis e as caixas, eu acomodava o computador numa mesa improvisada para assistir a uma aula virtual. No dia seguinte, recebi duas demandas enormes de trabalho referentes ao lançamento de dois cursos na plataforma para a qual presto serviços, assim, tudo da mudança que era miudeza, foi socado num banheiro ainda por terminar. Até agora, quase um mês depois não achei a caixa com as minhas panelas e, livros, acham-se em todo canto. Um caos, mas, não dá para parar.
    Hoje pela manhã, porém, eu recebi uma preciosa lição da vida. Faço parte de um grupo que discute diariamente sobre procrastinação (às sete da manhã!) e consegui encaixar um treinamento para prestar serviços voluntários ao grupo, na plataforma Zoom. Hoje seria o meu primeiro dia como secretária. Durante a semana, usei os poucos minutos que sobravam entre uma atividade e outra para treinar. O serviço é bem simples, consiste em inserir plaquinhas virtuais em dados momentos da reunião e cronometrar o tempo de partilha dos participantes. Levantei às cinco, fiz a coisas básicas e entrei na plataforma para treinar mais um pouquinho. Estava preparada e feliz! Aí, quando o coordenador entrou, ele me disse que eu não precisava levantar as plaquinhas e nem marcar o tempo, que ele mesmo faria isso, que só precisava que eu fizesse a ata no fim da reunião (essa ata consiste em: tema, quantidade de presenças, quantidade de partilhas e novos ingressos, quer dizer, quatro linhas de texto!). Eu me senti uma perfeita idiota!
    Acabei saindo da reunião para respirar e refletir. Por que eu tenho necessidade de fazer tantas coisas, assumir tantas tarefas, estudar tanto, trabalhar tanto? Eu me aposentei por ter trabalhado 30 anos. Na verdade, trabalhei bem mais, porque comecei aos dez, mas, o tempo sem registro não conta. Então, é legítimo que eu viva uma vida de aposentada. Não preciso passar um mês de pijama, mas posso passar um dia de pijama quando sentir vontade. Posso assentar piso se isso me fizer feliz, mas, posso perfeitamente ficar sem fazer nada, passar o dia “lagarteando”, brincando com os meus cachorros, dormindo, sem precisar dar satisfação a ninguém.
    Eu ainda tenho o projeto de dar aulas, porque quero retribuir à sociedade a oportunidade que tive de estudar numa universidade pública e porque gosto muito de transmitir ideias e conceitos, além de que, ensinar, é uma forma lúdica de continuar aprendendo. Mas, não vou precisar fazer isso para sobreviver, é apenas uma opção.
    No hoje, no agora, eu devo apenas viver e viver da forma mais leve possível, ter mais momentos mágicos como o dessa foto, porque, afinal, a vida, realmente, é muito breve e espero que haja uma legião de pessoas que possam se inspirar por este artigo e, simplesmente, escolher praticar a arte de ser feliz. O resto se resolve por si.
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PALAVRA DE MULHER

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Isa Oliveira é formada em Letras pela USP e autora dos livros “Elogio à loucura” e “O chapéu de Alberto”.

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