13/02/2022 às 08h17min - Atualizada em 13/02/2022 às 08h14min

​Presente de casamento


     Há algum tempo, ganhei duas caixas de taças de cristal lindíssimas. Elas foram presente de casamento, há 20 anos e, pelo estado da caixa e do conteúdo, permaneceram intactas, no fundo de algum armário ou ocupando espaço no maleiro do guarda-roupa. Elas sequer foram tiradas do invólucro original. Uma pena, porque é maravilhoso ter taças para brindar a vida.
    Dulce Bastos, a personagem central de meu primeiro livro, “Elogio à loucura”, dizia que “a vida precisa ser brindada em taças de cristal, diariamente.” Não importa se esse brinde será feito com vinho, com champagne, com suco, com refrigerante ou mesmo com água. A vida merece ser brindada e é um crime ganhar taças de cristal e nunca usá-las. Muitas pessoas que as têm, gostam delas para enfeitar a cristaleira, porque são elegantes, ou então as guardam para usar só em ocasiões especiais como o Natal e o réveillon ou quando recebem alguma visita importante – mais para ostentar do que para usufruir. Preferem mantê-las guardadas para não quebrar.
    Outros, como os que me presentearam com essas taças maravilhosas e empoeiradas pelo tempo, nem se dão ao trabalho de tirá-las da embalagem, porque são frágeis, ou porque acreditam que elas não combinam com o seu estilo de vida, que são muito sofisticadas para os seus padrões.
    Como me lembrei da Dulce Bastos, e como estou pensando em reeditar a sua história, publicada há vinte anos, vou falar um pouco dela, trazê-la de volta das páginas encerradas na estante das minhas memórias. Ela era uma mulher comum, amarga que nem jiló, chata, ranzinza, solitária e evitada pelos próprios filhos.      No entanto, Dulce não foi sempre assim. E, quando ela descobre, no dia de seu 66º aniversário, que está com um câncer invasivo que a levará à morte dentro de pouco tempo, ela olha para trás e retoma o fio de sua vida, tentando entender o que transformou a mulher alegre que ela foi numa velhinha insuportável.
     E é maravilhoso o que ela encontra, não apenas lembranças e justificativas para o seu atual estado de espírito, mas, a possibilidade de olhar para a frente e enxergar coisas diferentes. Mais que isso não posso dizer, porque seria spoiler e, quando o meu livro for reeditado, eu desejo que quem me acompanha aqui, se interesse em lê-lo. Mas, até concluir que a vida deve ser brindada em taças de cristal, diariamente, Dona Dulce também deve ter guardado as suas taças em caixas dentro do armário ou talvez as tenha jogado fora ou dado para alguém, como fizeram comigo.
    Na verdade, nem foi um presente direto para mim. As taças foram deixadas com a minha sogra para que ela desse para alguém. E, a fim de desentulhar a mesa da sua varanda, onde as caixas foram colocadas, ela me chamou e disse: “Deixaram essas taças aqui para eu dar para alguém e, como eu sei que você gosta dessas coisas, quero saber se você quer ficar com elas.” Claro que eu aceitei, tirei cada uma delas da embalagem com muito cuidado e as libertei de duas décadas de poeira. Uma vez cristal, sempre cristal, não importa a poeira que por elas tenha passado. Magníficas.
    Já fizemos muitos brindes com elas. Brindes a dois, brindes em família e até mesmo brindes solitários. Sabe aquele dia que você vai almoçar sozinha, mas está feliz por estar viva, por ter tudo o que tem, por ser o que é? Então, você abre o armário, pega uma linda taça e a enche com o que tiver na geladeira, até mesmo com água, como já disse e, simplesmente, brinda com Deus, com os anjos e com sua própria alma. É algo que não tem preço.
Infelizmente, o casal que se livrou das taças sem uso se separou recentemente. Quem sabe se não tivessem guardado as taças, se tivessem encontrado muitas ocasiões especiais para brindar, como fizeram no dia do casamento, se as tivessem usado até que se quebrassem, não teriam perdido a essência do amor e da vida a dois...
    Ser feliz é algo muito simples e deixamos passar a felicidade por besteiras, por negligência, por autossabotagem, porque parece haver um certo quê de glamour em sofrer. Não, não deve ser assim. Na minha vida, sofrência, nem da Marília Mendonça. Continuarei brindando com as minhas taças de cristal e, se elas se quebrarem, brindarei com os copos de requeijão, mas, brindarei sempre, porque estar viva é motivo de comemoração.
 

 
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PALAVRA DE MULHER

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Isa Oliveira é formada em Letras pela USP e autora dos livros “Elogio à loucura” e “O chapéu de Alberto”.

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