04/02/2022 às 13h44min - Atualizada em 04/02/2022 às 13h43min

A eterna aflição do livre-arbítrio: O paradoxo do Monte para ilustrar Consciência e vida

PASCHOALETTO[1], Alberto C.

     Alguns grãos de areia não compõe um monte

    Postei há tempos em meu facebook a seguinte frase de autoria desconhecida: Solto tudo que me prende para me prender a tudo que me liberta”, e o interessante que se estampa um índio de característica norte americana, mas, que é muito interessante para pensarmos a questão do projeto de vida.  Acredito, do meu ponto de vista, que essa frase traz em si mesma uma grande sabedoria de vida, porém carrega ao mesmo tempo o peso da angústia que é o viver e levar a vida à diante. O Paradoxo do monte, ou também conhecido como  paradoxo sorites - conhecido como "monte" no sentido de grande quantidade (OBS.: o termo sorites em grego significa pilha ou monte. Sabemos que uma montanha é essencialmente um monte de areia, terra ou pedra, que se junta. Então podemos pensar em dois casos. Primeiro, se estamos em uma montanha e tiramos um grão de areia, ainda temos uma montanha. Segundo, se pegarmos um grão de areia e adicionarmos outro grão de areia, teremos dois grãos de areia, não uma montanha. Nessas circunstâncias, quantos grãos de areia podem ser removidos de uma montanha até que ela não seja mais considerada uma montanha? Por outro lado, de quantos grãos de areia podemos pensar que precisamos juntar para criar uma montanha?
 
    A arte de pensar constructos da consciência
    Essa pergunta é bastante sutil. Ao definir um número, seja qual for, como o ponto divisor de águas entre o que é areia e o que é a montanha passa uma ideia de limites “inferior” dos grãos de areia que devem formar uma montanha, e, então estamos fadados a ser arbitrários. Não há razão para pensar que os limites onde se definem a qualidade final não sejam igualmente e significativamente bons ou ruins, e assim por diante. Voltando a nossa frase “Solto tudo que me prende para me prender a tudo que me libertapor exemplo, podemos considerar as propriedades reais de montanhas e seus grãos de areia que a compõe. As propriedades reais dos objetos não sofrem com as dificuldades colocadas pelo paradoxo até porque mostra que a atribuição de rótulos categóricos aos elementos está sempre sujeita à arbitrariedade de um limite "X", que é definido para separar dois grupos. Podemos usar o raciocínio indutivo do Paradoxo para provar que o grão que se solta de uma montanha se prenderá no caos do nada e assim não passará de uma menor partícula da montanha. Mas, nem por isso deixará de ser a montanha: Eis a questão!
OBS.: Para se aprofundar mais, click no link e leia esse outro texto: https://portaltribunadoguacu.com.br/coluna/60/os-contornos-literarios-e-as-significacoes-filosoficas-da-metafisica-ontologica-um-atributo-ao-ser
 
Toda moeda tem dois lados... assim também é a vida!
Por um lado, esse raciocínio é libertador porque nos lembra que os rótulos que atribuímos às coisas do mundo são simplesmente a arbitrariedade do nosso próprio consentimento. Por outro lado, pode ser encarcerador porque precisamos rotular várias situações na sociedade atual, como regras de conduta objetivadas em sua concepção lógica, assim como na frase de Jean Paul Sartre:
“O homem está condenado a ser livre, condenado porque ele não criou a si, e ainda assim é livre. Pois tão logo é atirado ao mundo, torna-se responsável por tudo que faz”. (SARTRE, 1978)
Dessa forma, o homem é sempre responsável por tudo o que pratica, pensa ou faz, porque somos o que escolhemos ser e nossa própria existência nos predestina a escolher. Ainda citando Sartre: (...) A existência precede a essência”. (2015, 24ª edição). Com isso Sartre quer nos dizer que a existência humana existe sem nenhuma decisão prévia assim como uma montanha existe independentemente de quantos grãos de areia já se foram perdidas. Soltar de tudo o que me prende para me prender em tudo o que me liberta tem uma certa coerência com Sartre, no sentido de que não há destino, somos os construtores do próprio futuro, e é nesse ponto que surge a famosa citação do filósofo, que derruba todos os entendimentos filosóficos de essência e existência, como visto há pouco.  
 
Condenados a buscar aquilo que vamos carregar
Sabe-se biblicamente que tudo podemos naquele que nos fortalece, mas, eis a questão: Quem nos fortalece?  Talvez essa frase, intencional ou não, carregue em sai a dialética da angustia sartreana: A eterna condenação humana à liberdade, e, nessa lógica somos condenados a buscar aquilo que carregamos em nossa essência através do projeto de vida... e, assim, pelo livre arbítrio escolher ser o que projetamos. Interessante, ainda, é que nessa busca da grande jornada da vida, é preciso mansidão para ouvir a própria voz do coração, e soprando como o vento traz as orientações necessárias para se alcançar o nirvana existencial.
Embora para fins filosóficos a Moral e Ética constituam termos equivalentes, seus significados são ambíguos, eles são cortados de forma diferente. Desta forma, a ética tem uma dimensão mais teórica e abstrata em seus conceitos dialéticos e princípios que refletem o fundamento da vida definida por padrões do moralismo que não se confundem com a Moral; Essa reflexão pode seguir os mais diversos rumos, dependendo do conceito de partir das pessoas.
Definir, estabelecer e priorizar valores como o bem e o mal, o certo e o errado, o amor e o ódio, a justiça e a injustiça são normas alcançadas por valores morais, e as pessoas usam isso para julgar e valorizar o comportamento, a vida e a sociedade o que chamamos então de o moralismo, que nada mais é do que seguir padrões sobre os olhares.
OBS.: Para se aprofundar mais, click no link e leia esse outro texto: https://portaltribunadoguacu.com.br/coluna/36/a-busca-de-si-mesmo-no-caminho-estetico-da-prosperidade-existem-sistema-de-sinais
 
Nada mais é sólido ... tudo é disforme e se desfaz feito água
A realidade cada vez mais disforme no contemporâneo liquefeito, onde as formas são voláteis e se desfazem rapidamente, aboliu a posição da dialética e restringiu aos discursos dos sujeitos sobre sujeitos. Por outro lado, acreditar que o moralismo seja um aspecto prático e específico da ética, que é um conjunto de regras e comportamentos aceitos por um determinado grupo social em um determinado momento é totalmente contra o princípio do Amor, pois amar é uma capacidade alcançada não pelas palavras de um livro, ou uma técnica. Nesse sentido, uma pessoa moral é uma pessoa boa ou má, desde que tenha consciência de obedecer ou violar as regras do grupo e tenha a capacidade de assumir responsabilidade por seus atos pois é uma questão de consciência, simples assim: Está lá batendo na mente como uma marreta o tempo todo, sendo capaz de assumir a responsabilidade pelos atos que pratica pela própria autopunição.
Mas voltando à relação de equivalência, como todos sabemos intuitivamente, esses termos são semanticamente iguais. Embora seja diferente na etimologia. "Moral" originou-se dos costumes nacionais gregos "Hábitos" e "moralidade" são derivados do latim Morris, que significa Expressa pelo uso, tradição e costumes. Para nosso texto é importante enfatizar que "moralismo" ou "ética" corresponde a comportamento não natural, mas no comportamento cultural e que pode então, se levar o indivíduo a se sentir “vigiado” o tempo obter algum resultado. Mas, pelo amor não haverá a necessidade de uma lente a olhar para vigiar e punir, assim como o radar que é um bom exemplo: Se você é um motorista que desacelera quando se aproxima do radar, sua índole é duvidosa, assim também o indivíduo que tira um saco de lixo da sua casa, põe no carro e leva, longe dos olhares, para a frente de qualquer outro lugar que seja, sua moral é duvidosa e ponto final!
 
Estamos equilibristas em espetáculos de cordas bambas
Portanto, a verdadeira Moral, aquela onde valores são construídos, adquiridos e conquistados pelo poder da convivência social, do respeito ao tu e do juntos somos mais fortes todos nós; é triste constatar que com o passar do tempo os valores foram afrouxados, de tanto esticados que foram anteriormente, mas agora o que importa é que vivemos uma sociedade onde a conjugação de qualquer verbo no plural é Vós, em vez de Nós.... e, quem tem ouvido que ouça e entenda o que estou falando aqui! Voltando a dialética, ocorre, assim, que o grande Mestre Confúcio disse já há muito tempo: Aonde quer que vá, carregue junto o seu coração. Enfim, a grande questão da eterna condenação é a prisão da existência à essência, mas que ambas se completam em plena liberdade, assim como as águias voam. Interessante nesse sentido os eixos espaço X tempo, pois é nele que se cruzam, ou não, o projeto de vida. Também de autoria desconhecida, mas, já li algumas vezes como atribuída a Shakespeare: “Um dia você entende que o tempo não é inimigo. E que ele é o nosso maior mestre. Que tudo vem na hora que deve vir. Que a fuga não é a melhor saída. E que no fim das contas a gente sempre acaba agradecendo tudo que passou. Porque o tempo (ah, o tempo) está sempre ao nosso lado para nos mostrar o que realmente vale a pena”. (Clarissa Correa) Eu completaria essa frase com: E, finalmente percebemos que viver realmente vale a pena e que precisamos da Paz interior para desencadear o bem exterior (essa, de minha autoria).
 
Considerações finais em razão da mansidão do lago  
Viver é simples e complexo ao mesmo tempo e essas considerações podem ser bastante pertinentes para o enfrentamento do caos da Era em que vivemos. E, finalmente para fechar a questão Lipovetsky compara que somos Narcisos, e, esse texto então serve para que nos policiemos para diminuir a contemplação, enamorados de nós mesmos, e que afastemos o medo das incertezas do futuro que se delineia e o ambiente em que vivemos expostos: - violência, caos, desemprego, doença e velhice. É como se o homem do passado, subitamente, houvesse aberto a caixa de Pandora. Sem saber o que fazer com o que libertou dali, tende aos excessos. Mas, resta sempre a esperança. (“Por uma ética da autenticidade – Um enfoque do ego (ismo ...”) É ler e tecer suas próprias conclusões, assim como fez um dia o grande poeta: “Para ser grande, sê inteiro: nada Teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda Brilha, porque alta vive”. (“Fernando Pessoa - Frases, poemas e mensagens no Pensador”) Fernando Pessoa em Odes de Ricardo Reis. E, para que possamos contemplar a luz da lua sobre um lago, é preciso mansidão mental interior e exterior do lago.
OBS.: Para se aprofundar mais, click no link e leia esse outro texto: https://portaltribunadoguacu.com.br/coluna/60/os-contornos-literarios-e-as-significacoes-filosoficas-da-metafisica-ontologica-um-atributo-ao-ser
 
REFERÊNCIAS
LIPOVETSKY, Gilles. A era do Vazio: Ensaios Sobre o Individualismo Contemporâneo. Prefácio de Manuel Maria Carrilho. Edições 70; 1ª edição (1 janeiro 2013).
OLIVEIRA, Ramon dos Santos. Liberdade: estamos todos condenados. Faculdade Dom Luciano Mendes. Revista Pensamento Extemporâneo. Artigo disponível em  https://pensamentoextemporaneo.com.br  acesso em 01/02/2022
PERDIGÃO, Paulo. Existência e Liberdade: uma introdução à filosofia de Sartre. Porto Alegre: L&PM Editores, 1995.
REIS, Ricardo; (heterônimo de Fernando Pessoa). Poemas de Ricardo Reis : Para ser grande, sê inteiro. Disponível em http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/jp000005.pdf  : acesso em 01/02/2022
SARTRE, Jean Paul. O existencialismo é um humanismo. São Paulo: Abril Cultural, 1978. (Os Pensadores).
_________________. Ser e o nada: Ensaio de ontologia fenomenológica. São Paulo: Editora Vozes; janeiro 2015 :  24ª edição.
Alberto Carlos Paschoaletto
Coluna: (CONS)CIÊNCIA & VIDA
                                                                                                       Caminho Livre pelo Pensar Filosófico.
                                                                                                          Jornal Tribuna do Guaçu
 
[1] Professor Universitário, com graduação em Ciências Jurídicas e Sociais; pós-graduação em Gestão Empresarial, Psicologia Organizacional e do Trabalho; Mestrando em Desenvolvimento Sustentável e Qualidade de Vida.
Link
(CONS)CIÊNCIA & VIDA

(CONS)CIÊNCIA & VIDA

Alberto Carlos Paschoaletto é Professor Universitário, graduado em Ciências Jurídicas e Sociais; pós-graduação em Gestão Empresarial, Psicologia.

Leia Também »
Fale pelo Whatsapp
Atendimento
Precisa de ajuda? fale conosco pelo Whatsapp