01/02/2022 às 12h10min - Atualizada em 01/02/2022 às 12h03min

Princípio da parcimônia, fio de Occam e teoria do comando divino para explicar a sujeição conformada.

Acendendo a Luz do farol de navegantes
PASCHOALETTO[1], Alberto C.

Acendendo a Luz do farol de navegantes
Prezado leitor de CONSCIÊNCIA & VIDA, o título parece complexo e complicado mas são como a trama de uma rede onde esses três conceitos filosóficos serão articulados para explicar as prisões psicológicas e as astúcias da atroz indústria da alienação cultural massificada. No polo positivo: Navalha de Occan e no polo Negativo: Fio de Ariadne, e o fio condutor: a proposição do comando divino e o processo de individuação de Carl Jung. Para melhor compreensão deste texto introdutório o Farol de Alexandria, uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo, construído como referência para guiar os velejadores da ilha de Faros. É atribuído a Ptolomeu a construção do Farol de Alexandria e era o sinalizador da entrada para acesso ao porto para vetorizar os navegadores para como aportar suas embarcações. Isso aconteceu na ilha de Faros, e devido ao nome da ilha, até hoje todos os edifícios com a mesma finalidade são chamados de faróis de navegantes. Foi construído em 280 aC pelo arquiteto grego Sóstrato de Cnido. Quando o trabalho foi feito, a grandeza do farol chamou a atenção de todos. O Farol de Alexandria tem cerca de 150 metros de altura e repousa sobre uma base quadrada com uma torre de mármore octogonal no topo. Acima desta torre estava a pedra angular do farol, uma chama ardente. Havia também uma estátua de Poseidon no topo do farol, a figura da mitologia grega responsável pelos oceanos. Construído em pedra granito leve com revestimento de mármore e calcário. Sua beleza era impressionante. Uma liga reforçada com chumbo fundido e uma forma antiga de cimento, baseada na mistura de resina com calcário para manter as pedras unidas. Na parte da torre onde ficava as chamas eram revestidas de chumbo, para refletir a luz. A luz das chamas podia ser vista a mais de 50 quilômetros de distância. Foi considerado por muito tempo a estrutura mais alta já construída pelo homem. No entanto, no século XIV, em 1375, um forte terremoto atingiu a ilha de Faros e destruiu o Farol de Alexandria. Mais tarde, em 1480, a pedra que sobrou da construção original foi usada para construir o forte, que permanece até hoje no local do Farol de Alexandria. Em 1994, uma equipe arqueológica de mergulho descobriu vestígios arqueológicos constituídos por blocos de pedra e estátuas de faróis. Por fim, nobre leitor, como resumo “da ópera” veremos que a individuação, como processo metafísico, representa nosso introdutório Farol de Alexandria.
 
O que é preciso entender do mundo que nos cerca
 
Primeira Lição: A Navalha de Occam é um princípio lógico e epistemológico que afirma que a explicação para qualquer fenômeno deve pressupor a menor quantidade de premissas possível. O princípio é frequentemente designado pela expressão latina Lex Parsimoniae (Lei da Parcimônia), enunciada como: entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem (as entidades não devem ser multiplicadas além da necessidade); apesar disso, considera-se que a navalha de Occam é apenas uma dentre várias navalhas filosóficas que podem ser consideradas como "princípios de parcimônia". Originalmente um princípio da filosofia reducionista e do nominalismo, é hoje tido como uma das máximas heurísticas (regra geral) que aconselham economia, parcimônia e simplicidade, especialmente nas teorias da cientificidade social e filosófica.  Para o ponto de vista filosófico a Navalha de Occam é um princípio metodológico, e não uma lei que diz o que é verdade e o que não é. Ela não sugere que as explicações mais simples são sempre as verdadeiras e que as mais complexas devem ser refutadas em qualquer situação. A explicação mais simples, portanto, nem sempre é a mais correta, apesar da grande chance. Formulada pelo filósofo medieval Guilherme de Occam (por vezes grafado Ockham), a lex parsimoniae (lei da parcimônia) é um princípio, solucionador de problemas, filosófico reducionista, que permite distinguir entre teorias equivalentes e pode ser utilizado como técnica para formulação de modelos teóricos. Em sua formulação mais simples, a Navalha de Occam dirá que, entre duas teorias com iguais resultados, que explicam ou preveem os mesmos fenômenos, devemos sempre escolher a teoria mais simples. A navalha de Occam é frequentemente utilizada para evitar presunções ontológicas dispensáveis, quando uma entidade ou substância é postulada, sem que haja evidências de sua existência, simplesmente para possibilitar a aplicação ou consistência de uma teoria.
 
 
Do ponto de vista prático significa...
 
Em termos pragmáticos, entende-se que teorias simples são mais fáceis de entender. Desta forma, a navalha de Occam torna a apresentação de teorias mais simples e as discussões mais práticas e sequer a própria razão pode ser justificada rigorosamente e, a fim de estabelecer um diálogo promissor, é preciso aceitar alguns elementos de antemão, a navalha de Occam é utilizada filosoficamente como ponto central dos elementos a partir dos quais a discussão será iniciada. Outra justificação para a navalha de Occam vem da matemática, mais especificamente da lei de probabilidades. Entende-se que a cada elemento introduzido há um aumento da possibilidade de erros. Desta forma, se um elemento não aumenta a precisão de uma teoria, seu único efeito é aumentar a possibilidade de que a teoria esteja errada. Isto posto, do ponto de vista filosófico vamos simplificar a análise da contemporaneidade como uma verdadeira torre de babel de indivíduos narcisistas e hedonistas, como já nos ensinou Zygmunt Bauman, Gilles Lipovetisk, Slavoj Zizek e outros.
OBS.: Para se aprofundar mais, click no link e leia esse outro Texto: 
https://portaltribunadoguacu.com.br/coluna/60/os-contornos-literarios-e-as-significacoes-filosoficas-da-metafisica-ontologica-um-atributo-ao-ser
 
Já por sua vez, em argumentação, temos um fio...
 
Em contraponto a questão da simplicidade para explicar que vivemos uma sociedade que valoriza o ego, onde o coletivo dá lugar para o individualismo e assim surge o conhecido mito do Fio de Ariadne ou Labirinto do Minotauro onde narra a trajetória de Teseu, um herói que salvou a cidade de Creta do terrível Minotauro, criatura nascida da união de Zeus com a mulher do Rei da cidade, Minos.
 
Assim o rei constrói um labirinto para aprisionar a criatura, mas só conseguia através do sacrifício de sete moças e sete rapazes a cada sete anos. Ariadne filha do rei Minos se apaixonou por Teseu, filho de Ageu rei de Atenas resolvendo ajudá-lo a matar o monstro. Assim em sua jornada ao interior do labirinto entrega uma bola de linha dourada para Teseu, bola que ajudaria a entrar no labirinto sem se perder.
 
Assim foi feito, Teseu encontra e enfrenta a criatura derrotando-a com uma espada mágica entregue por Ariadne e retornando ao início do labirinto. Ao fugir da perdição do labirinto Teseu vê a verdade quando descobre que através do cordão, o ponto de partida era a chegada! Assim, vivemos todos nós, na contemporaneidade agora líquida o Fio dourado que representa neste mito a trajetória de descoberta psicológica que está além de nós mesmos rumo as nossas questões existenciais mais prementes.
 
 
Cada ser carrega o Universo inteiro dentro de si
 
Assim é o processo de individuação descrito por Jung (1980): “O sentido e a meta do processo são a realização da personalidade originária, presente no germe embrionário, em todos os seus aspectos. É o estabelecimento e o desabrochar da totalidade originária, potencial. Os símbolos utilizados pelo inconsciente para exprimi-la são os mesmos que a humanidade sempre empregou para exprimir a totalidade, a integridade e a perfeição; em geral, esses símbolos são formas quaternárias e círculos. Chamei a esse processo de processo de individuação”. Desta forma o processo de tornar-se completo possui representações circulares como os mandalas budistas e cristãos. É bem interessante o símbolo do ouroborus ou a serpente de devora a própria cauda, um voltar-se para si que nos mitos é representado como um retorno às origens ou a morada natal como Sofia no mito Gnóstico onde sua ascensão simboliza o retorno da divindade a si mesma, no cristianismo atual, a assunção de Maria. Assim a mulher celestial que sobe retornando ao céu ou morada eterna representaria um retorno a si sendo a mesma conotação do “refletir-se” no espelho ou o próprio processo de reflexão, insuficientemente entendido como pensamento dirigido pelas mídias. O Círculo pressupõe um retorno de nossa consciência atual de estado de coisas a uma dimensão mais interiorizada da vida, pelo menos intuitivamente, o que na psicoterapia tal experiência é chamada de auto-observação cuidadosa de todos os fenômenos que se dão em nosso campo existencial.
OBS.: Para se aprofundar mais, click no link e leia esse outro Texto: 
https://portaltribunadoguacu.com.br/coluna/46/o-sentido-da-vida-uma-abordagem-atual-lucida-e-significativa-para-historias-de-finais-felizes
 
 
A teoria do comando divino para iluminar assuntos difíceis;
 
O determinismo é a teoria de que o certo ou errado de uma ação está intrinsecamente ligado ao fato de Deus ordenar ou proibir. Existem muitas versões dessa teoria, e alguns (frisa-se não todos) teólogos e filósofos da religião a sustentam. No entanto, muitos filósofos (mesmo religiosos) acreditam que teorias éticas sólidas podem ser desenvolvidas independentemente de suposições religiosas e, além disso, argumentam que a teoria do comando divino tem problemas que tornam as normas morais extremamente arbitrárias. Abordado pela primeira vez por Platão, cerca de 2400 e poucos anos atrás, no diálogo Eutífron sobre a natureza da piedade, onde Sócrates faz a pergunta : "Os deuses aprovam certas ações porque são boas, ou são boas porque os deuses as aprovam?". Trazendo para a teoria do comando divido podemos então formular a pergunta: "Deus permite ações porque essas ações são boas, ou certas ações são boas porque Deus as aprova?" A primeira escolha é a resposta de Platão, a segunda é o comando divino (grifo nosso).  
OBS.: Para se aprofundar mais, click no link e leia esse outro texto: 
https://portaltribunadoguacu.com.br/coluna/48/livre-arbitrio-conheca-a-si-mesmo-e-encontrara-a-paz-e-aceite-a-morte-e-descobrira-a-vida
 
Conclusão: será o ego uma moeda de duas faces?
 
Podemos compreender que a individualização é o processo pelo qual uma pessoa se torna um indivíduo, uma unidade ou um todo independente e indivisível. O foco principal é o autoconhecimento.
A personalização visa estimular o indivíduo a despertar para o melhor de si e dos outros, libertá-lo do afastamento e incentivar uma convivência coletiva maior e mais saudável nos outros. O processo de individuação visa aproximar o mundo do indivíduo através do autoconhecimento. E,  autoconhecimento é a chave para resolver este problema. Devemos aprender a lidar com coisas negativas da mesma forma que lidamos com coisas positivas. Tudo bem que a participação ativa do ego no processo seja essencial para que ocorra a personalização, até porque a função do ego é impulsionar o caminhar, porém, o processo tende a ser mais doloroso quando o ego vai na direção oposta ao caminho que se planejou tomar. Enfim, o mesmo ego que é a solução do problema pode ser o epicentro do problema quando assim como neste mito representado pelo labirinto circular, vivemos todos nós “Narcisos” apaixonados pela própria imagem e completamente alienados e cegos de tanto enxergar as coisas, vivendo expostos como manequins nas vitrines da vida como atores circenses, self do jantar, do almoço, do passeio, para postar no insta ou no zap, sempre com aquela cara de família margarina, com um sorriso no rosto.... coisa de alienado mesmo!
OBS.: Para se aprofundar mais, click no link e leia esse outro texto: 
https://portaltribunadoguacu.com.br/coluna/29/vies-de-consciencia-etica-o-devir-dos-juizos-esteticos-e-da-vergonha-na-cara
Pensemos, todos, nisso!
 
REFERÊNCIAS
 
 
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2001.
 
DUPRÉ, Ben. 50 ideias de filosofia que você precisa conhecer. Tradução: Rosemeire Ziegelmaier. – 1ª ed. São Paulo: Planeta, 2015.  
 
GASPARETTO JUNIOR, Antonio. Site de pesquisas escolares Info Escola – Texto disponível em: https://www.infoescola.com/grecia-antiga/farol-de-alexandria/  acesso em 25/01/2022.
 
LIPOVESTKY, Gilles. Qual o significado do consumo em nossas vidas? Fronteiras do Pensamento: Entrevista. Disponível em: https://www.fronteiras.com/entrevistas/gilles-lipovestky-qual-o-significado-do-consumo-em-nossas-vidas : acesso em 26/01/2022
 
ROMER, John e Elizabeth - As Sete Maravilhas do Mundo, Ed. Melhoramentos, SP, 2ª edição, 2000.
 
TROPÉIA, Evandro Rodrigo. O processo de individuação segundo Carl Gustav Jung. Artigo publicado por Instituto Freedom, 1 de maio de 2017 : Disponível em: https://institutofreedom.com.br/ Acesso 25/01/2022
 
ZIZEK, Slavoj. Lacrimae Rerum: Ensaios sobre cinema Moderno. Tradução: Luís Leitão e Ricardo Gozzi. – 2ª ed. São Paulo: Boitempo, 2018.  
 
Alberto Carlos Paschoaletto
(CONS)CIÊNCIA & VIDA -
  Caminho Livre pelo Pensar filosófico.
Portal Tribuna do Guaçu
 

[1] Professor Universitário, com graduação em Ciências Jurídicas e Sociais; pós-graduação em Gestão Empresarial, Psicologia Organizacional e do Trabalho; Mestrando em Desenvolvimento Sustentável e Qualidade de Vida.
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Alberto Carlos Paschoaletto é Professor Universitário, graduado em Ciências Jurídicas e Sociais; pós-graduação em Gestão Empresarial, Psicologia.

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