21/01/2022 às 16h56min - Atualizada em 21/01/2022 às 16h54min

​Mamma! Alegria de ter, alegria de ser...

    Eu tinha um trabalho grande para entregar e, quando estava chegando aos finalmentes, fui acometida pelos sintomas do que pode ter sido apenas a nova gripe que circula por aí ou a Covid, que até então não tinha me visitado, mas que parece ter dado o ar de sua graça, uma vez que os sobrinhos que vieram me visitar testaram positivo para a meliante. A questão é que fiquei febril e quebrada o bastante para atrasar a finalização do projeto no qual estava trabalhando e, por isso, esta noite precisei esticar um pouco a corda e trabalhei até às quatro da manhã.
   Antes de tomar um banho para me deitar, resolvi dar uma sapeada no celular e encontrei a notícia recém-publicada da morte da mãe do nosso presidente. Resolvi entrar no site e me deparei com o vídeo que ele publicou, com várias imagens da mãe, desde jovem até os dias atuais, tendo ao fundo a música Mamma, inclusive um trechinho com a mãe cantando a música.
    Quem me acompanha, sabe que já circulei entre extremos com relação ao Bolsonaro. Como muitos, acreditei na proposta dele e, embora não tenha votado nele (e em ninguém) incentivei outros a votarem. Infelizmente, ele não foi o messias esperado e decepcionou mais do que imaginei pudesse decepcionar, o que me levou ao outro extremo, o da profunda indignação, sobretudo com os acordos e conchavos feitos com o Centrão, o que eu, ingenuamente, acreditei que ele não faria. Mas, hoje não estou aqui para falar mal dele, como inevitavelmente faço em um artigo ou outro. Ele é a autoridade máxima e legitimamente constituída de nosso país e, neste dia, oferto a ele o meu respeito e as minhas condolências, porque eu sei o tamanho do vazio que fica quando se perde a mãe.
    Assistindo ao video caseiro que ele publicou, vendo a sua mãe moça, bonita, depois com ele pequeno, com os netos e, em seus últimos tempos, já bastante debilitada, em um momento em que riu muito junto com o filho. O que a fez rir daquele jeito só ela e ele é que sabem, talvez quem estava filmando, mas, na verdade, é um tipo de riso de cumplicidade, uma cumplicidade que só existe entre mãe e filho, não importa a mãe, não importa o filho.
     Vendo aquelas imagens, lembrei da minha mãe que, se estivesse viva, teria hoje quase a idade da mãe do presidente, que morreu com 94 – a minha, teria 91. Mas, infelizmente, já faz quase trinta anos que ela partiu. Vislumbrei muitas imagens dela mais jovem, de nossas conversas, de momentos descontraídos, de riso solto, cumplicidade, amor genuíno. Hoje, embora insista em me sentir jovem, também já posso ser considerada uma mamma, com o meu corpo que vai se encurvando aos poucos, os meus cabelos cada vez mais brancos e a memória que, de vez em quando, me trai e me faz esquecer a palavra no meio da frase...
    Há um tempinho, falando com o meu filho ao telefone, ele disse: “Mãe! Como é gostoso dizer essa palavra! Como é gostoso ter alguém para dizer: Mãe!” De todos os papéis que desempenhei na vida, creio que o de filha e o de mãe sejam os que eu mais amei, porque nunca fui mais próxima de alguém do que dessas duas pessoas, minha mãe e meu filho. E, se há algo que eu sinto imensamente, é não ter tido mais filhos.
    Hoje, vivemos a modinha das mães que não gostam de ser mães. Já há canais na internet para expressarem isso e, com o evento do filme “A filha perdida”, parece que a coisa está aumentando. É igual jeans rasgado, é feio, mas, já que está na moda, muita gente usa... Mães que se prestam ao ridículo de proclamar aos quatro ventos o quanto se incomodam com o fato de serem mães, o quanto detestam a maternidade etc, etc, etc, não têm ideia do mal que estão fazendo para os seus filhos e para si mesmas, mas, isso é assunto para outra argumentação.
    Hoje, eu apenas quero deixar meu coração repousar na beleza de ter e ser mãe. Imagino a felicidade que a Dona Olinda sentiu quando viu o seu filho recebendo a faixa presidencial, bem como a angustia que deve ter experimentado durante todo o período eleitoral. É claro que, quando pegou seu bebezinho no colo, lá nos dias passados, quando o amamentou, trocou, ensinou a andar, a falar, deu banho, alimentou, ralhou com ele nas peraltices, nunca deve ter passado por sua cabeça que um dia ele seria o presidente da República e, por sinal, um dos mais polêmicos que já tivemos. Não morro de amores pelo Bolsonaro, mas, tenho certeza que ele dividiu com a mãe o seu sonho de galgar o posto máximo de chefe da nação e, ainda que ninguém tenha acreditado nisso, ela, certamente, acreditou e torceu.
     Nunca sabemos quem serão os nossos filhos. Nós os criamos para serem bons, honestos, íntegros e felizes. Às vezes dá certo, às vezes não. Se alguém me dissesse, quando o meu filho nasceu, que ele seria um padre, eu certamente não acreditaria. Pensei mil coisas para ele, mas foi esse o caminho que ele escolheu, assim como o filho da Dona Olinda escolheu a política e chegou onde chegou. E, se não é fácil ser mãe de um padre, imagino ser a mãe de um presidente, sobretudo deste presidente! Mas, é o que somos, mães. E hoje a mãe do sr. Jair Messias já não está mais aqui e não acompanhará o calvário que o aguarda. De qualquer forma, hoje, ele é apenas um filho que enterra a sua mãe e ela é apenas uma mãe idosa que se despede do mundo com a certeza da missão cumprida. Que vá em paz, porque ser mãe é uma grande bênção.
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PALAVRA DE MULHER

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Isa Oliveira é formada em Letras pela USP e autora dos livros “Elogio à loucura” e “O chapéu de Alberto”.

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