17/12/2021 às 08h50min - Atualizada em 17/12/2021 às 08h48min

​Sem papas na língua

     Embora a língua não seja exatamente um músculo, mas um órgão composto por um conjunto de músculos, é comum ouvir-se que ela é o músculo mais forte do corpo humano. Bem, mesmo tendo vários músculos, ela também não é o mais forte, esse papel é do seu vizinho masseter, o músculo responsável pelo abrir e fechar da boca e pela mastigação. No entanto, a Senhora Língua, sem dúvida, é a parte mais poderosa do nosso corpo, e tremendo é o seu poder – de apaziguamento e de destruição.
     Esses prolegômenos (nossa, agora falei bonito, que nem o Professor Albertinho!), são para abordar aquela velha mania que a gente tem de falar o que não deve, falar mais do que deve e, principalmente, falar sem pensar!
      Esta semana, saí do dentista e chamei um Uber, coisa mais corriqueira e normal nos últimos tempos. Quando entrei no carro, seguindo o protocolo do próprio aplicativo, falei o nome do motorista, para que ele o confirmasse.
      Um rapaz muito simpático, cujo sorriso era notório, mesmo por debaixo da máscara, confirmou o seu nome e, quando me sentei, perguntou:
     – Foi a Isa que chamou o Uber para você?
     – Eu sou a Isa, respondi.
     – Ah, desculpe. É que, geralmente, as pessoas de idade não têm muita habilidade com o aplicativo e pedem para alguém chamar para elas.
      – ???
      A conversa poderia ter acabado aí, com o meu indignado silêncio, mas o coitado decidiu tentar consertar as coisas.
     – A senhora desculpe, é que Isa é nome de pessoa mais jovem...
      Confesso que o “vai tomar...” veio até a ponta da minha língua, mas esbarrou na máscara e não se transformou em palavras ditas. Eu tenho 56 anos e cabelos brancos há tanto tempo que já nem me lembro, mas, não tenho cara de octogenária e, muito menos, de retardada. Não sei se a minha estupefação veio mais do fato de eu me considerar jovem e plenamente ativa ou de trabalhar um média de dez horas por dia na frente de um computador, produzindo conteúdos os mais variados.
      No mundo em que vivemos, onde daqui a pouco até cachorro terá celular, o que faz um jovem pensar que uma pessoa mais velha que ele não tenha habilidade para usar uma função básica de um aplicativo? A máscara escondeu o meu espanto. Estava muito bem humorada e até entabulei conversa com o rapaz, que só falou amenidades óbvias, como “vai chover”, “tem lugar que está alagando” e coisas que tais.
      – Puxa, talvez eu devesse tirar aquele “prolegômenos” lá do início, senão vai mesmo parecer que tenho 200 anos! Jovens, prolegômenos quer dizer preâmbulo, prefácio, introdução, pra começo de conversa. Perdoada? –
      Outro episódio de língua solta. Quando eu e meu marido pensávamos em adotar uma criança, surgiu na família uma conversa sobre cor e dissemos que esse era um detalhe que não nos importava absolutamente, queríamos um filho e não um filho branco, loiro, nórdico, de olhos azuis.
      – Que mal teria em adotar uma criança negra? perguntei à pessoa que me abordava.
     E, sem pensar, igual ao motorista do Uber, ela respondeu:
     – Não, Isa! adota uma criança normal.
     – ???
     Ainda não estávamos na pandemia, então, não havia máscara para esconder o meu espanto. Claro que a pessoa tentou corrigir a fala, isso geralmente acontece depois que se diz uma m..., mas, o conserto não ficou melhor que o disparate dito e a conversa foi encerrada sem consenso.
      Na linha do racismo, vivenciei outra pérola, numa reunião religiosa. Estávamos sentados em um semicírculo e, em dado momento, nem me lembro do tema inicial da conversa, mas, fechando um pensamento, o expositor disse que um determinado pensador, no qual ele se baseava, dizia que as pessoas pretas eram mais feias que as brancas. Meu olhar para ele foi incisivo e carregado de chispas vermelhas. Ele enrubesceu e, começou a tentar fazer o famoso conserto:
      – Não é uma questão de racismo, pelo amor de Deus, longe de mim ser racista, mas, os traços dessas pessoas, o formato do crâneo...
      Desta vez, os meus olhos já derramavam lavas de vulcão sobre ele. E, como ele não se tocasse, encostei bem o meu corpo na parede para que ele visse que a pessoa que estava sentada do meu lado, era negra. Negra e muito bonita.
     Poucas vezes vi duas pessoas tão constrangidas, por razões opostas, num mesmo ambiente e, confesso, tive mais dó do homem do que da moça, porque existem bem poucas coisas no mundo que são mais feias que o preconceito e a ignorância! É claro que fomos embora em seguida e nunca mais voltamos àquele lugar. Mas, mesmo que não houvesse nenhum negro presente, a fala teria sido da cruel e estúpida do mesmo jeito. A moça chorou quando fomos embora e eu me limitei a ficar em silêncio. O que dizer numa situação dessas?
     Os exemplos são muito e posso gastar horas e páginas citando-os. A ideia, porém, é apenas lembrar do poder da língua, cuja sabedoria deve conter, moldar e, se necessário, amordaçar. Afinal como se costuma dizer, em boca fechada não entra mosca, e também não sai tanta barbaridade!
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PALAVRA DE MULHER

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Isa Oliveira é formada em Letras pela USP e autora dos livros “Elogio à loucura” e “O chapéu de Alberto”.

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