13/12/2021 às 13h33min - Atualizada em 13/12/2021 às 13h32min

Felicidade partilhada

     Eu conheço algumas pessoas que passam por situações difíceis e se entristecem por um longo tempo. Também conheço outras que, mesmo diante das tristezas mais profundas, conseguem nutrir sentimentos de fé, esperança, confiança e serenidade e atravessar espinheiros como se pisassem flocos de algodão. E conheço uma boa quantidade que faz opção pela tristeza e, mesmo que os dias estejam ensolarados e tranquilos, sem sombra de problemas ou quaisquer mazelas, insistem em ver a vida em gradações de cinza (e nada de cinquenta tons, é apenas cinza escuro e cinza mais escuro!). E ai de quem ousar ter o desplante de passar perto de uma dessas pessoas exibindo um buquê de felicidade!
     A oração preferida desse tipo de gente é a Salve Rainha, principalmente no trecho que diz: “A vós bradamos os degredados filhos de Eva, a vós suspirando, gemendo e chorando neste vale de lágrimas...”. É certo que ninguém passa pela vida sem sofrer, é algo inerente à nossa condição de viajantes rumo ao infinito. Percalços há para todos. São os obstáculos que nos fazem estar atentos, caminhar com mais cuidado. Há obstáculos que precisam ser enfrentados e removidos, outros, apenas contornados; não adianta fazer esforço para tirar uma pedra que insiste em não sair do lugar. Muitas vezes, o melhor é ignorá-la e passar pela lateral, seguindo viagem, sem perder tempo e sem se preocupar.
    Há momentos em que parece que o céu vai desabar. Quando um filho vai embora, por exemplo, seja para viver a radicalidade de um mosteiro ou para voar direto para o Céu. Quando vivenciamos uma traição num relacionamento, quando perdemos aquele emprego no qual depositamos todas as nossas fichas, quando nossos muros de arrimo são derrubados pela chuva, ou quando, literalmente, a nossa casa cai. Um acidente, uma doença incurável, uma falência. São dores reais, difíceis de suportar. Algumas, dá para remover, outras, apenas podemos contornar e aceitar que aquela pedra não se moverá do lugar apenas para diminuir a nossa dor.
    O que não podemos é fazer um buquê de autopiedade ou de maldade com as nossas mazelas e sair por aí acusando os outros ou tentando impedi-los de serem felizes. A máxima parece ser: “Se eu sofro, você também tem de sofrer!”. Acaba havendo prazer no sofrimento, um prazer mórbido e exagerado, disfarçado de tristeza e desalento. Cultivar esse tipo de sofrimento é como zelar por um filhotinho de cascavel e pô-lo a dormir na nossa cama. É preciso ultrapassar a dor, seja ela qual for, e a melhor – se não a única forma de fazer isso – ensinada pelo próprio Cristo, é olhar a dor do outro, cuidar da dor do outro, zelar pelo outro, doar-se.
    Certa vez, quando eu estava no primeiro ano primário, convenci a minha mãe a me deixar levar um buquê de flores para a minha querida professorinha. Minha mãe era muito cuidadosa com seu jardim e muito ciumenta das suas flores, mas, sabendo o quanto eu gostava da professora, concordou e fomos colhendo as flores juntas, formando um delicado ramalhete, com cravos e cravinas no centro, margaridinhas, veludos e malvas ao redor. Quando cheguei à escola, feliz e saltitante, com minhas florzinhas lindas, uma colega de classe chamada Lúcia Terra, que tinha o dom de me aterrorizar, ameaçando me bater, todos os dias,   olhou-me, sorriu um riso sarcástico, quase satânico, e esmagou o meu buquê, destruindo-o completamente, e ainda pisoteou sobre as flores que ficaram inteiras.
     Nunca tinha chorado lágrimas tão doloridas. Não tive coragem de entrar na classe, meu coraçãozinho de menina não conseguia compreender tamanha maldade, estragar as flores só pelo prazer de destruir algo belo, incluindo o meu inocente sorriso. Voltei para casa chorando. Minha mãe me consolou e me levou de volta para a escola. Chamou a professora e comunicou-lhe o ocorrido; um menino apelidado de Guiça, e outro que não me lembro o nome, testemunharam a meu favor e a avó da menina foi chamada à escola. Nós tínhamos colhido as flores mais bonitas e as que sobraram não davam para formar outro buquê, então minha mãe apanhou apenas uma rosa, amarrou nela uma fitinha e deu-me para levar à professora. Não foi a mesma coisa, mas, aliviou a minha dor e a minha humilhação diante de uma violência tão gratuita.
     Hoje já não tenho sete anos e nem sou tão bobinha quanto era naquela época (só um pouco). Mas, há algum tempo, pude experimentar uma mão raivosa sobre um lindo buquê de felicidade que eu carregava alegre e saltitante, junto com alguém que é feliz comigo, dividindo-o com muitas pessoas que cruzavam o nosso caminho. O gesto brusco da pessoa, triste sem razão e infeliz por hábito, do tipo que se fere com a alegria alheia, amassou bastante as florzinhas de encantamento e singeleza que eu trazia nas mãos, tão displicente e encantada com aquela virginal beleza. Chorei com a mesma amargura da menininha que levava as flores para a professora e, infelizmente, a minha mãezinha não estava aqui para me consolar, mas as coisas bonitas que ela me ensinou ficaram no meu coração e eu pude me valer delas. Os valores que trazemos, ninguém os pode tirar.
     Felizmente, as pessoas adultas são mais sutis e cometem grosserias tão delicadamente que chega a parecer que foi sem querer e quase acabamos pedindo desculpas por nossa ousadia em ostentar as flores de nossa felicidade diante de seu contumaz infortúnio. Em sua sutileza, não pisam as flores para não ficar mal. Assim, pude me abaixar e recolher as menos esmagadas e fazer de novo um buquezinho. Ficou bem bonitinho até e lá no fundo da minha memória ecoou a sabedoria de minha mãe dizendo: “Não desanime, minha filha, e nem desespere, a vida é mesmo assim. Recolha as pétalas desfolhadas e faça um chá com elas, adoce com mel. E as florzinhas que ainda deu para salvar, não as retenha e nem as ostente, apenas as ofereça a esse coração tão dolorido, elas farão mais sentido ali. Você tem mãos de jardineira, segue em frente, é hora de semear... A felicidade precisa ser partilhada, se não, não é felicidade.”.
     Que a minha história possa incentivar você a sempre partilhar a sua felicidade, não importa a quem isso possa incomodar.
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PALAVRA DE MULHER

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Isa Oliveira é formada em Letras pela USP e autora dos livros “Elogio à loucura” e “O chapéu de Alberto”.

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