05/12/2021 às 06h37min - Atualizada em 05/12/2021 às 06h35min

​PELA HORA DA MORTE

     Cresci ouvindo as pessoas dizerem, sobre coisas caras ou difíceis: “Isso está pela hora da morte!”, logo, desenvolvi a convicção de que a hora da morte é algo muito ruim. Mas, conquanto seja algo que, cedo ou tarde, todos teremos que provar se é mesmo tão ruim, só saberemos morrendo e, está aí uma coisa que, em saúde mental perfeita, ninguém tem vontade de experimentar.
     Na semana passado, vocês devem ter notado que não compareci ao nosso costumeiro encontro nesta coluna. Aconteceu que a morte veio me visitar. Na sexta-feira, sob uma chuvinha fina e insistente, deixei no cemitério o corpo de uma amiga que se mudou para o Céu. O nome dela é Rose.
    Esta era a Rose. Eu a conheci há uns dois anos, mas ela era amiga do meu marido desde o fim da infância. Fizeram parte do mesmo grupo de teatro, dançaram, cantaram, viajaram, acamparam, sorriram, choraram e trocaram muitas confidências. Formavam uma turma muito coesa, que permaneceu unida ao longo do tempo, ainda que fisicamente distantes. Conheço alguns deles, além do Henrique: Catá, Enzo, Leandra, Osmar, Santiago, Baxito, Almir e, confesso, sinto até um pouquinho de inveja por não ter chegado antes e aproveitado melhor esse coletivo e indestrutível amor.
    Rose teve uma dor de cabeça, assim, do nada. Alguns dias depois, desmaiou, entrou em coma e, simplesmente, morreu. Um aneurisma. Foi ao médico quando a dor começou, mas, não lhe foi pedido nenhum exame, apenas recebeu, por suposição, um diagnóstico de stress. Morreu de suposição.
    Estivemos juntas dois meses antes, no velório de seu sobrinho, morto num acidente de moto. Nos vimos alguns dias depois e combinamos sair, curtir os bons momentos da vida, que passa tão rápido. Não deu tempo. Naquele velório tão inesperado, minha dor era a dor dos seus amigos, dos seus irmãos, do seu marido, do seu filho, e, principalmente, da sua mãe, de mais de 80 anos, que, sem dúvida, nem em seu pior pesadelo imaginava passar por algo assim. Mas passou, e pela segunda vez.
    No fim da tarde, eu estava triste demais para sentar diante do computador e escrever. Mal sabia que, no dia seguinte, minha dor seria elevada ao cubo. Eram duas da tarde, mais ou menos; eu trabalhava na revisão do texto de uma promissora escritora guaçuana quando recebi a notícia da morte de Maria Mercedes. Desta vez, a amiga era minha, de fato.
    Uma espada atravessou o meu coração e eu nem tive forças para me levantar da cadeira. Todos os momentos que vivemos juntas, muitos e intensos, retornaram à minha memória. A dor era tanta que me faltou o ar e me afoguei com os soluços e as lágrimas. É uma dor que não dá para explicar, uma dor que não tem nome e que parece que nunca vai passar. O nome dela era Maria Mercedes e ela tinha o sorriso mais gostoso que já vi. Infelizmente, ela não era uma pessoa feliz. Sofria de depressão e a sua vida era uma luta diária pela sobrevivência. Mas, quando estávamos juntas, sempre tínhamos tanto para conversar, discutir, pensar, lembrar, que sempre ríamos muito, e a risada dela era única.
     A Rose foi colhida pela morte e a morte, Mercedes a escolheu. Coloquei para ouvir uma música que conheci com ela e ouvi umas vinte vezes pelo menos, só naquela tarde. A música é uma pérola rara, se chama “Haja o que houver”, do grupo português Madredeus. Aconselho que ouçam. Quanto a mim, haja o que houver, eu estarei aqui. Infelizmente, minha amiga não voltará no vento, como diz a canção, mas, o que me consola é saber que, um dia, o vento me levará, e então, pela hora da morte, eu poderei, de novo, abraçar e sorrir com essa moça tão especial que, assim como a Rose, foi tão cedo, porque sempre é cedo para nos despedirmos de nossos grandes amores.
 
 
 
 
 
 
 
                                     
Link
PALAVRA DE MULHER

PALAVRA DE MULHER

Isa Oliveira é formada em Letras pela USP e autora dos livros “Elogio à loucura” e “O chapéu de Alberto”.

Relacionadas »
Fale pelo Whatsapp
Atendimento
Precisa de ajuda? fale conosco pelo Whatsapp