20/11/2021 às 14h48min - Atualizada em 20/11/2021 às 14h47min

Todos os sonhos do mundo

     Todos sonhamos, mas todos sabemos que a realidade não é fácil e que nem sempre os nossos sonhos são passíveis de realização; nem por isso devemos abrir mão do sagrado dever de sonhar, sonhar sempre e sonhar grande, sonhar imenso. Gosto muito da afirmação de Fernando Pessoa: “Trago em mim todos os sonhos do mundo”, uma frase tão simples, mas que confere um poder sem limites. Quantos desses infinitos sonhos ele realizou é o que menos importa, mas, o fato de tê-los sonhado fez dele um ser imortal, que ainda hoje nos embala com a sua poesia.
     Com o correr da vida, precisamos abrir mão de muitas coisas e, não raro, as primeiras delas são os nossos sonhos. Abrimos mão dos sonhos em detrimento da realidade, das necessidades do dia a dia, das dificuldades, das limitações, da falta de tempo, da falta de dinheiro, da falta de apoio; abrimos mão pelos outros, pelos filhos, pelos pais, pelos companheiros, pelos empregadores. Enfim, abrimos mão, e, quando percebemos, estamos tão soterrados de realidade que praticamente nos afogamos nela, obviamente, infelizes.
     Realizar os sonhos nem sempre é garantia de felicidade, sobretudo porque, uma vez realizados, deixam de ser sonhos e se tornam coisas patentes, reais, então, precisamos ir ao nosso estoque de sonhos buscar outros ou criar novos. Não é realizar os sonhos que nos faz felizes, mas a capacidade de sonhar. Não há dificuldade, não há angústia, não há problema, não há dor que sobreviva a um bom sonho. Poder sair do lugar comum, do limitado, do que nos aperta, nos oprime, nos diminui, nos aprisiona, dá um poder tão grande que, se nos conscientizássemos dele, jamais deixaríamos de sonhar, jamais.
      Quando crianças, sonhamos as coisas mais estapafúrdias, queremos ser astronautas, cirurgiões, astros, heróis, guerreiros, príncipes e princesas e nada nos demove dessas certezas, por mais mesquinha e difícil que seja a vida. O universo de uma criança é todo ele feito de sonhos e sonhos possíveis, sonhos reais, sonhos que estão logo ali à frente, ao alcance da mão, a apenas um passo, basta ficar adulto... O tempo, porém, que nos faz crescer, vai engolindo essa imensidão de possibilidades, essa magia inexorável com a qual, meninos, nos alimentamos.
     Jovens, ainda sonhamos um tanto, mas, já começamos a ter senso de ridículo, a nos preocupar com o que os outros vão pensar de nós e vamos apequenando os nossos sonhos, fazendo-os caber em padrões mais aceitáveis, sobretudo, porque essa é uma época da vida em que somos muito criticados e a crítica vai nos ensinando a ser medíocres, contidos, limitados, vai transformando as princesas e os heróis que fomos em pequenos nadas, então, surge a necessidade de preenchermos os nossos vazios com algo que nos dê a ilusão de prazer e de poder, é aí que entram as drogas, os desvarios, os abusos, as derrapagens, o despencar ladeira abaixo que atualmente engole tantos dos nossos jovens, cada vez mais jovens, ainda mal saídos da infância.
     Infelizmente, à medida em que vamos amadurecendo, vamos abandonando cada vez mais essa capacidade inata de sonhar. Deveríamos prestar mais atenção às pessoas que mudam o mundo, que alteram as circunstâncias ao seu redor, para elas mesmas e para muitos outros: são pessoas sonhadoras. As grandes mudanças, as grandes realizações sempre começam com a semente plantada por um sonhador, ainda que ele não viva o suficiente para colher os frutos. 
     Não importa a idade que tenhamos, não importa que estejamos mais perto de ter um epitáfio do que um cartão de boas vindas, é preciso sonhar a cada dia, a cada momento e, na medida do possível, zelar pelos nossos sonhos, engordar nossos sonhos, cevá-los, cuidar deles, enfeitá-los, esticá-los até que alcancem as estrelas. Lutar para realizá-los também é bom, muito bom e necessário. Deixar um rastro de sonhos realizados.
    Mas, ainda que estejamos presos a um leito, limitados por um corpo que já não nos obedece e uma fisionomia que já não nos ajuda, a alma não envelhece e os sonhos também não. Sonhar pequeno é viver com os pés no chão e quem sonha pequeno realiza pequeno. É preciso sonhar grande e sempre, e poder dizer, como Pessoa: Trago em mim todos os sonhos do mundo, por isso sou feliz, porque sonhar é ser livre e essa liberdade, ninguém, jamais, pode nos tirar. Não sonhar é simplesmente morrer.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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PALAVRA DE MULHER

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Isa Oliveira é formada em Letras pela USP e autora dos livros “Elogio à loucura” e “O chapéu de Alberto”.

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