17/11/2021 às 08h29min - Atualizada em 17/11/2021 às 08h18min

Os contornos literários e as significações filosóficas da metafísica ontológica: Um atributo ao Ser!

A essência de uma pessoa é constituída por sua existência na escolha e na experiência. Nenhuma essência predetermina o modo de existência e a existência não tem definição, apenas fornece a possibilidade do que pode se tornar. Foto: Reprodução
PASCHOALETTO[1], Alberto C.

INTRODUÇÃO: O ESSENCIAL É INVISÍVEL AOS OLHOS
     Se para Jean-Paul Sartre, principal representante do existencialismo, o modo de ser, de se comportar e de sentir de uma pessoa não está inscrito na essência anterior antes de existir, mas aparece em sua própria existência através da transformação ao vir a ser um SER. A palavra essência vem do latim "essentia", que significa o que constitui uma coisa ou Ser. Corresponde as coisas que aparecem antes mesmo da existência dos seres, e corresponde às coisas mais básicas, fundamentais e mais importantes que caracterizam os seres ou coisas. Um objeto é feito de acordo com o conceito da pessoa que o fez e tem um propósito, propósito e propósito claros, mesmo antes de realmente existir. Portanto, esse objeto tem uma natureza a priori. A essência de um objeto precede sua existência, porque ele será fabricado de acordo com o que se tornará e qual é sua função. O ser humano não é feito por pessoas com objetivos específicos, mas cada pessoa aparece no mundo e atribui à sua vida o sentido de sua existência específica e única.
      A essência de uma pessoa é constituída por sua existência na escolha e na experiência. Nenhuma essência predetermina o modo de existência e a existência não tem definição, apenas fornece a possibilidade do que pode se tornar. Na compreensão do existencialismo, a existência é o resultado das escolhas que fazemos e das condições em que nos encontramos. A palavra existência vem do latim “ex-sistere”, que significa projetar-se para fora, significando sair de um domínio, de uma concha ou de um esconderijo, representando a ação de se mostrar e estar no mundo. Quando nos colocamos, expressamos nossa existência, nosso jeito único de ser. Como não existe uma essência a priori que determine como nos tornaremos, podemos escolher como tratar nossas vidas a qualquer momento. É nosso estilo de vida e escolhas que constituem nossa existência.
      Podemos compreender bem essa nossa introdução quando usamos o coração, uma vez que somente vemos bem através dele. “O essencial é invisível aos olhos!” Essa citação, extraída do livro O pequeno príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944), refere-se ao diálogo entre o príncipe e a raposa sobre como se tornam especiais aqueles que se cativam. O príncipe não sabia o sentido de “cativar” e com a ajuda da raposa descobre que é criar laços, construir pontes de conexões entre as pessoas para que possam envolver umas as outras. Em sua sabedoria a raposa lembra que, quando cativamos alguém, esse alguém se torna diferente para nós e será para sempre especial. No final da conversa, surge outra frase famosa: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.” Pois então, nobre leitor, da mesma forma que a Literatura serve para estimular o pensamento, em particular a literatura filosófica, é preciso estimular a compreensão de toda a sua beleza para que possamos deixar-se cativados por suas linhas  e entrelinhas: “Eis o meu segredo. Ele é muito simples: somente vemos bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos[i].
OBS.: Para se aprofundar mais, click no link e leia esse outro texto: O imperativo do diferente nos constructos identitários – Eis a grande condenação do Ser: Assumir sua Liberdade na relação com o outro. - PORTAL TRIBUNA DO GUAÇU (portaltribunadoguacu.com.br)
 
MÃOS QUE ESCREVEM E OLHOS QUE LEEM
     Nobre leitor, o primeiro ponto a ressaltar neste texto é que ele foi desenvolvido para discorrer, ou pelo menos tentar iniciar um espaço para abordagem de uma “nova” compreensão da literatura, especialmente a filosófica, coma arte da palavra e do sentido seu ontológico para instigar o pensamento livre e esclarecido. Podemos dizer que Literatura, assim como a língua que ela utiliza, é um instrumento de comunicação e de influência mútua, portanto social, e ela desempenha o papel de perpetuar os conhecimentos e a cultura de uma comunidade, através do compartilhamento do pensamento que se comunica por escrito.  
Nessa abordagem a literatura está eternizada à sociedade em que se abrolha, assim como todo tipo de arte, onde o artífice não consegue ser apático à realidade. Eis aqui o contexto do título desse texto, calma lá que eu explico: Dá-me tua mão (condição gregária do ser, um depende do outro) se a minha está para escrever a tua está em folhear o texto ou um livro, mas cada qual se completa no outro, assim não haverá mão que escreve sem que exista a mão que apanhe para leitura; pois bem, mas ainda cabe aqui a ideia de que não se comprimam as entrelinhas como não afaste de ti, nobre leitor, minha narrativa textual ... pois a ti pertence o contexto, mas mesmo assim que você não abandone o que está nas entrelinhas que entra aqui a hermenêutica e exegese.
 
     Enquanto a Hermenêutica é a ciência da interpretação das palavras e dos textos, a exegese é a explicação crítica, a interpretação, o comentário ou a dissertação sobre o sentido das palavras, das construções gramaticais e dos condicionalismos históricos dos textos em análise. Cúmplices, escritor e leitor. Nesse texto aprofundarei mais as ideias da imortal Clarice Lispector, pois trata-se da patronesse da Cadeira que represento na Academia Guaçuana de Letras e é justamente dessa expoente da Literatura, nascida em 1926 na Ucrânia e, ainda pequena, mudou-se com a família para Recife, Pernambuco. Mais tarde, veio para o Rio de Janeiro, onde estudou Direito. Durante a Segunda Guerra Mundial, trabalhou em Nápoles, Itália, no hospital da Força Expedicionária Brasileira.
Após a guerra, morou na Suíça e nos Estados Unidos. Seu primeiro romance, Perto do coração selvagem, escrito quando ainda aos 17 anos, publicado em 1944 e lhe agraciou com o Prêmio Graça Aranha. No legado de sua obra percebe-se um uso intenso da metáfora, um ambiente íntimo em ruptura com a realidade, mas sempre baseada em fatos, principalmente em dois grandes livros A paixão segundo G. H. e Uma aprendizagem ou (O Livro dos prazeres).  
 
Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.
Entre duas notas de música existe uma nota,
 
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.

OBS.: Para se aprofundar mais, click no link e leia esse outro texto: A busca de si mesmo no caminho estético da Prosperidade: Existem sistema de sinais? - PORTAL TRIBUNA DO GUAÇU (portaltribunadoguacu.com.br)
 
 
EM CADA TEXTO UM UNIVERSO INTEIRO
 
    Toda obra literária é resultado das relações dinâmicas entre escritor, público e sociedade, porque através de suas obras o escritor (artisticamente) transmite seus sentimentos e ideias do mundo, levando seu leitor à reflexão e até mesmo à mudança de posição perante a realidade, assim a literatura auxilia no processo de transformação social. Pois bem na obra de Clarice Lispector se destaca a exaltação da vivência interior e alternância do psicológico para o metafísico. No plano ontológico, Clarice abrolhou o embate entre uma consciência e um corpo, em estado de materialidade neutra.
Em suas entrelinhas podem ser identificadas várias crises: do personagem-ego na constante busca consciente do supraindividual do ser vento ou ventania; da narrativa, através de um estilo inquisitivo; da análise de sua obra podemos ensaiar que Clarice parte do romantismo como substrato de apoio da educação existencial e deve ser compreendida sem os dogmas e mitos do senso comum, ou como já disse no próprio título para não comprimir as entrelinhas... enfim, entender seu gênio intelectual através da relação entre sucesso e  ego, e, a busca escapista da transcendência para uma vida significativa.
 
Tomemos como exemplo uma criança que nasce como uma tábula rasa, onde cada dia avança mais um degrau na consciência de si... mas saibamos que a criança se funde com a mãe num único ser, não existe ainda uma consciência, existe uma extensão, um ser que se separou de uma parte maior e ainda não alcança a própria concepção de si mesmo.
Interessante, mas a primeira causa da qual ela se torna consciente não está nela mesma; a primeira causa da qual ela se torna consciente está no outro, no pai e na mãe. Isso é natural, porque os olhos se abrem para fora, as mãos tocam os outros, os ouvidos escutam os outros, a língua saboreia a comida e o nariz cheira o exterior. Todos esses sentidos abrem-se para fora. O nascimento é isso. Filosoficamente, proponho entendermos que o nascimento significa vir a esse mundo, enfim, o mundo da externalidade. Assim, quando uma criança nasce, ela nasce nesse mundo.
 
Ela abre os olhos e vê os outros. O outro significa, seguindo a lógica do pensamento buberiano, o tu. Ela, criança, primeiro se torna consciente da mãe. Então, pouco a pouco, ela se torna consciente de seu próprio corpo. Esse também é o “outro”, também pertence ao mundo. Ela está com fome e passa a sentir o corpo; quando sua necessidade é satisfeita, ela esquece o corpo. E, é dessa maneira que a criança cresce: sobrevivendo, satisfazendo cada etapa da sua frágil existência. Primeiro ela se torna consciente do outro, enfim, do tu, e então, pouco a pouco, no contraste com o outro, ela se torna consciente de si mesma e essa consciência é uma consciência refletida. Ela não está consciente de quem ela é. Ela está simplesmente consciente da mãe e do que ela pensa a seu respeito. Se a mãe sorri, se a mãe aprecia a criança, se diz “como você é linda”, se a mãe abraça e a beija, a criança sente-se bem a respeito de si mesma. E, assim, no âmbito da psicologia um ego começa a nascer. Lembrando que cada ser é um conjunto das partes bio/psico/social e espiritual.
 
Pois bem, caro leitor, através da apreciação, do amor, do cuidado, a criança sente que tem valor, ela sente que tem importância na relação com o outro. Assim, filosoficamente, um centro do universo está nascendo juntamente com a criança, no despertar da parte psicossocial. Mas, nesse momento, esse centro é um centro refletido, e não é o ser verdadeiro. A criança não sabe quem ela é, pois ela simplesmente sabe o que os outros pensam a seu respeito. E esse é o ego: o reflexo, aquilo que os outros pensam dela. Se ninguém pensa que ela tem alguma utilidade, se ninguém a aprecia, se ninguém lhe sorri, então, também, um ego nasce - um ego doente, triste, rejeitado, como uma ferida, sentindo-se inferior, sem valor. Isso também é ego. Isso também é um reflexo, só que nesse caso, um reflexo sombra e sem luz própria. Portanto, filosoficamente não haverá transcendência para uma vida significativa e plena. Vejamos que a mãe, no início da vida de uma criança significa o Universo, seu útero para o feto o mundo até que se faça vida (luz) ao sair do útero para ganhar o mundo e universo exterior. Depois os outros se juntarão, tais como a mãe e o pai e assim mundo irá crescendo. E quanto mais o mundo cresce, mais complexo o ego se torna, porque muitas opiniões dos outros serão refletidas na criança. Assim, podemos entender o ego como um fenômeno cumulativo, um subproduto do viver com os outros. Se uma criança vive totalmente sozinha, ela nunca chegará a desenvolver um ego, que é uma necessidade, enfim, que completa a parte pela percepção do outro e assim se chega ao conhecimento do todo. E, acredite nisso: Temos que passar por ele (ego). Ele é um percurso que leva ao nível de Consciência e a verdade só pode ser conhecida através da perspectiva do todo (ilusão). Você não pode conhecer a verdade diretamente, pois que você se dissolve no todo caso não tenha a percepção de si. Primeiro você tem que conhecer aquilo que não é você para depois se perceber enquanto indivíduo. Esse é o grande desafio para quem se propõe ler e estudar Clarice Lispector. Seus textos são provocativos e muito reflexivos, mas, exige uma extensão de estudo para que não se comprimam as entrelinhas... e, essas entrelinhas lispectorianas são simplesmente geniais, ou como ela mesma diria: A Perfeição
 
EM CONSIDERAÇÕES FINAIS: QUE NÃO SEJA NAS ENTRELINHAS
 Pensando bem, caro leitor, o mundo não está interessado em você, se deixares o mundo ele continuará normalmente, e até seus amigos e familiares depois de algum tempo tocarão a vida novamente (pó ao pó). O mundo tem interesse na sociedade que está interessada nela mesma e é assim que deve ser. Eles não estão interessados no fato de que você deveria se tornar um conhecedor de si mesmo. Interessa-lhes que você se torne uma peça eficiente no mecanismo da sociedade. E, filosoficamente, você deverá ajustar-se ao padrão social pois é um ser social, simples assim: estão interessados em dar-lhe um ego que se ajuste à sociedade. Ensinam-lhe a moralidade. Moralidade significa dar-lhe um ego que se ajuste à sociedade. Se você for imoral, você será sempre será um desajustado em um lugar ou outro...pense nisso! Moralismo significa simplesmente que você deve se ajustar à sociedade. Se a sociedade estiver em guerra, a moralidade muda. Se a sociedade estiver em paz, existe uma moralidade diferente. Filosoficamente a moralidade é uma convenção política e social, enfim, transita no âmbito da diplomacia ao que chamarei aqui de “Verniz”. E, toda criança deve ser educada de tal forma que ela se ajuste à sociedade; a sociedade está interessada em membros eficientes, essa é a verdade nua e crua: a sociedade não está interessada no fato de que você deveria chegar ao autoconhecimento, longe disso, a sociedade cria um ego porque o ego pode ser controlado e manipulado. O eu interior nunca pode ser violado, controlado e manipulado.
Nunca se ouviu dizer que a sociedade estivesse controlando o eu interior - não é possível. Aliás, troquemos pois o termo controlar por seduzir e chegaremos, oxalá, ao pretendido e tão almejado sucesso! Refutemos, pois, as armadilhas da vaidade e do ego. Aí está a resposta filosófica para o sucesso! Dizer: Sou, Fiz, Falei, deve ser sem medo, não podemos dar consentimento para que o outro leve uma parte de mim, como numa abdução em subtrair-me de mim mesmo, entende? Por isso, rendo minha significativa simpatia na vida e obra de Clarice Lispector para então propor que pensar no sucesso é resumir-se como a criança que necessita de um centro; a criança está absolutamente inconsciente de seu próprio centro. A sociedade lhe dá um centro e a criança pouco a pouco fica convencida de que esse é o seu centro, o ego dado pela sociedade no controle sobre quem você é, senão vejamos:
 
  • Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro. Tenho meus limites. O maior deles é meu amor-próprio.
  • Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.
  • Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania. Depende de quando e como você me vê passar.
  • Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.
  • Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.
OBS.: Para se aprofundar mais, click no link e leia esse outro texto: https://portaltribunadoguacu.com.br/coluna/46/o-sentido-da-vida-uma-abordagem-atual-lucida-e-significativa-para-historias-de-finais-felizes
 
CONCLUSÃO
 
Concluo nesse pequeno trecho (mosaico de frases acima) que não importa o que a sociedade pensa sobre quem sou, minha força está na solidão e o que importa é quem eu sou (a partir das minhas próprias escolhas) mas se for para estar acompanhado que seja pelas pessoas que me aceitam exatamente assim, porque somos todos iguais em nossa falível condição humana e nos respeitamos em nossa liberdade pois o que desejamos ainda não tem nome mas que tem a leveza da brisa como também a força de uma ventania... Dá-me tua mão Clarice - "Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome" e esteja onde estiver na amplidão do Universo Cósmico de alguma forma estaremos todos nós ligados pelos princípios da correspondência para celebrarmos aqui neste mundão, belo mas louco.
 
REFERÊNCIAS
 
CARRASCO, Bruno. A existência precede a essência – Sartre. Fonte: https://www.ex-isto.com/2017/06/existencia-precede-essencia.html
 
OLIVEIRA, Adilson de. O ESSENCIAL É INVISÍVEL AOS OLHOS – Departamento de Física, Universidade Federal de São Carlos. Texto publicado em 20.09.2013 e disponível em: https://cienciahoje.org.br/
 
https://www.significados.com.br/ontologia/
 Alberto Carlos Paschoaletto
Coluna: (CONS)CIÊNCIA & VIDA
                                                                                                       Caminho Livre pelo Pensar Filosófico.
                                                                                                   Jornal Tribuna do Guaçu
 
[1] Professor Universitário, com graduação em Ciências Jurídicas e Sociais; pós-graduação em Gestão Empresarial, Psicologia Organizacional e do Trabalho; Mestrando em Desenvolvimento Sustentável e Qualidade de Vida.
 
[i] Antoine de Saint-Exupéry em  citação, extraída do livro O pequeno príncipe.
Link
(CONS)CIÊNCIA & VIDA

(CONS)CIÊNCIA & VIDA

Alberto Carlos Paschoaletto é Professor Universitário, graduado em Ciências Jurídicas e Sociais; pós-graduação em Gestão Empresarial, Psicologia.

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