12/11/2021 às 06h22min - Atualizada em 12/11/2021 às 06h21min

RESOLUÇÃO DE CONFLITOS

    Isa Oliveira

    Hoje pela manhã, enviei uma mensagem de WhatsApp para um vizinho dizendo que viver é aparar as arestas e podar os galhos. A mensagem era para ele, mas também era para mim, porque o enunciado de toda mensagem, antes de atingir o destinatário, passa pelo emissor. E, analisando o contexto em que essa mensagem foi escrita, apesar de aparentar uma função poética, ela possui também função referencial, conativa e expressiva. E, se quiser me aprofundar ainda mais na teoria da comunicação de Jakobson, arrisco dizer que essas simples palavras desempenharam uma função metalinguística. Mas, deixemos de enrolação, afinal, isso é apenas um artigo de jornal e não uma aula de Linguística. O que eu quero mesmo é falar sobre como é difícil resolver conflitos, por isso, muita gente sai no braço ou na bala, como tem sido mais comum ultimamente, sobretudo depois de termos sido aconselhados pelo chefe da nação a comprar fuzil, em lugar de feijão.
     Ontem, lendo Santo Afonso Maria de Ligório, deparei-me com uma passagem belíssima sobre a mansidão que nos aconselha a sermos mansos com todos, superiores e inferiores, pessoas distintas e pessoas simples, parentes e estranhos e, especialmente, com aqueles que nos veem com maus olhos. O santo afirma que, ao repreendermos faltas alheias, a mansidão de nossas palavras é melhor do que todos os outros meios, e que nunca devemos fazer isso quando estivermos encolerizados, porque a repreensão sempre sairá amarga. Mais importante: que jamais repreendamos uma pessoa irritada. O melhor a fazer é nos calarmos e esperarmos a agitação passar. Convenhamos que não é fácil, embora lógico.
Quando escrevi a mensagem à qual me referi no início deste artigo, creio que já tivesse passado por essa etapa de esperar a agitação se dissipar. Vou dividir o ocorrido com vocês. Fui à missa das 5 da manhã, na igreja de Santa Edwiges. Quando saí, meus cachorros ficaram agitados. Quando voltei, quem ficou agitada fui eu, porque um vizinho tinha enviado uma mensagem para a minha sogra, que mora na frente da minha casa, com palavras no mínimo absurdas. Sem saber a quem se referia, posto que não me conhece, o rapaz disse para a minha sogra: “Que mulher ordinária, arrogante e fdp essa inquilina da senhora!”. Então pensei que o celular, na mão de muitos, funciona como um fuzil, porque duvido que ele teria dito essas mesmas palavras se estivesse diante de mim, uma senhora educada, de cabelos brancos e que não eleva o tom para se dirigir às pessoas (mesmo quando chamada de ordinária que, todos sabem, é sinônimo de mulher da vida).
    Bem, não vou entrar nos detalhes de como essa conversa continuou e, claro, ela continuou. Mas, graças a estar vindo da missa, à leitura de autores elevados como Santo Afonso e à excelente educação que tive de berço, de mãe analfabeta, porém, iluminada, não precisei descer ao nível a que fui chamada e consegui convidar meu interlocutor a subir alguns degraus da ira de seu sono interrompido, para considerar que as coisas sempre podem ser resolvidas de forma civilizada. É claro que o meu desejo inicial foi esfregar merda de cachorro na cara dele, mas consegui me conter e impedir meu marido de bater à porta dele para mostrar que “a ordinária” tem quem zele pela sua honra.
    Eu preferia que meus cachorros miassem em vez de latir ou que ficassem o tempo todo em silêncio, porque, vocês que me leem nesta coluna, sabem o quanto esses animaizinhos são importantes para mim, mas eu me incomodo em causar transtorno aos vizinhos, tanto que até cogitei doá-los. No entanto, doá-los faria um estrago emocional muito maior do que apenas receber alguns “elogios” tão preciosos logo ao amanhecer.
Não digo que a questão esteja em manter a calma, pois, ao menos que sejamos monges camaldulenses, a primeira coisa que a gente perde numa situação de conflito é a calma. Mas, em dar-se tempo suficiente para recuperar a calma e, então, poder tratar de resolver o que precisa ser resolvido, remediar o que pode ser remediado ou apenas aceitar aquilo sobre o que não há o que fazer.
    Confesso que o que mais me ajudou a recuperar a necessária tranquilidade foi a Marília Mendonça. Calma! Não fiz nenhum contato espiritual com a moça, mas foi ela que me veio à cabeça. Sabem quando eu ouvi falar da Marília Mendonça pela primeira vez? Umas duas horas depois da queda do avião, na semana passada. Diante da enxurrada de mensagens, vídeos e reportagens sobre o triste acidente, me admirei de ser contemporânea de uma estrela de tamanho sucesso, uma cantora mais ouvida que os Beatles e o Michel Jackson, e nunca ter sequer ouvido falar dela. Confesso que me senti uma marciana (não da dupla!). O que acontece é que, se há uma coisa que tem o dom de me tirar a calma completamente é música de sofrência, da qual ela era considerada rainha. Eu tenho um gosto musical muito eclético, ouço praticamente tudo, mas, esse estilo de música realmente me desagrada.  
    Nossa, que salada! O que um assunto tem a ver com o outro? Me explico mais uma vez. Entre a minha casa e a casa do vizinho que amanheceu me chamando de quenga, tem uma clínica de estética que, entre outros procedimentos, oferece bronzeamento com fita. O procedimento é feito no quintal, pareado com a minha casa, que tem, na parte superior, uma janela blindex de três metros e meio de comprimento, que eu costumo chamar de “janela interditada” (a menos que queiramos ficar vendo mulheres nuas desfilarem, pois as fitinhas são retiradas ainda na maca e elas atravessam o quintal como vieram ao mundo, sem nenhum constrangimento!).
    O objetivo da janela grande (instalada muito antes da casa se tornar uma clínica) é ter muita luz e ventilação no meu local de trabalho. Já nem me incomoda pedir a todas as pessoas que sobem ao meu escritório para não se aproximarem da janela, afinal, a profissional que faz o bronzeamento, tem o mesmo direito que eu de trabalhar em paz. Só que, infelizmente, pela mesma janela que entra a luz, entra também o nefasto som da sofrência, que parece fazer parte do ritual de bronzeamento, e que me enlouquece, porque, me perdoe quem gosta, mas, para mim, é um tipo de música tão ruim que tira completamente a concentração.
Esta semana, com uma demanda importante de textos para entregar, usei o expediente de colocar música clássica para tentar abafar a outra, mas aí, o som do bronze é aumentado, e a minha reles caixinha de som nem consegue competir, e eu fico com Vivaldi fazendo fundo para “Toma aqui os 50 reais!” ou “Eu não nasci pra ser mozão, nasci pra ser contatinho.”. Então, tomei a atitude do vizinho e usei o Whatzapp para reclamar. É claro que procurei fazê-lo dentro do tom de gentileza que me caracteriza, sem chamar ninguém de ordinária, e a questão foi rapidamente resolvida. A vizinha compreendeu meus argumentos e se comprometeu a manter som ambiente.
    Quisera fazer o mesmo com a gradação do tom do latido dos meus cachorros, para ser igualmente solidária com aqueles que são incomodados por ele. Infelizmente, não posso. Graças a Deus eles têm apenas picos de latido em poucos momentos do dia e, mais graças a Deus ainda, nem todo dia tem sol! A Marília Mendonça, que Deus a tenha, e todos os seus companheiros de estilo, que Deus os abençoe, mas, não pode haver nada melhor do que o som do silêncio, sem latidos e sem sofrência para incomodar.
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PALAVRA DE MULHER

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Isa Oliveira é formada em Letras pela USP e autora dos livros “Elogio à loucura” e “O chapéu de Alberto”.

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