06/11/2021 às 07h50min - Atualizada em 06/11/2021 às 07h48min

Estado laico e festas pagãs

     Se fosse fazer uma comparação grosseira, diria que nós, seres humanos, somos mais facilmente adestráveis que os cães. Esses, para adquirirem ou modificarem um comportamento, precisam de nossa constância, persistência e um sistema de reforço positivo e reforço negativo que requer uma boa dose de paciência até trazer resultados.  Já, o ser humano, se adestra por si só, sobretudo para parecer antenado, socialmente aceito e politicamente correto. Bastou surgir um modismo e lá estamos nós, aderindo e partilhando, sem um mínimo de reflexão.
    Por isso, de uns tempos para cá, passou-se a repetir muito a expressão “Estado laico”.  Logo, uma Bíblia ou um crucifixo numa repartição pública ou em um comércio se tornou uma prática abusiva e desrespeitosa, porque, afinal, o Estado é laico. Em nome disso, por exemplo, a Justiça barrou, em 2017, a construção de uma estátua de grande porte, em Aparecida, e determinou a retirada de cinco monumentos dedicados à padroeira do Brasil, por ocasião da comemoração dos 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora no Rio Paraíba do Sul.
    A decisão judicial atendeu a uma solicitação feita pela Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos. A justificativa da magistrada: fora empenhada verba pública para promover a fé católica, o que fere a quem? O Estado laico! Talvez a excelentíssima juíza e a tal associação só tenham deixado de considerar que no Produto Interno Bruto (PIB) de Aparecida, destaca-se a prestação de serviços, maior fonte de renda e de arrecadação de impostos do município. De acordo com o último censo demográfico do IBGE (2011), Aparecida contava com milhares de leitos para hospedagem, centenas de estabelecimentos especializados em alimentação e lojas de artigos religiosos, artesanais e de confecções e mais de duas mil bancas de comércio ambulante, e o Santuário Nacional de Aparecida empregava, na época, 1.570 pessoas, além dos cerca de 800 voluntários que ajudam na acolhida dos 11 milhões de peregrinos que visitam o local anualmente. Ou seja, boa parte do dinheiro arrecadado com a atividade religiosa vai para o Estado. Laico.
    Sabemos também que em Nova York e em outras partes do mundo já houve tentativas de se proibir a colocação de árvores de Natal e outros enfeites que remetam à religiosidade, porque isso fere a quem? O Estado laico e as pessoas sem fé! Não falta muito para se tentar proibir que os cristãos rezem e comemorem o nascimento de Jesus neste dia!
    A lista poderia ficar cada vez maior. Nós aprendemos, constantemente, com toda a enxurrada de movimentos de defesa de tudo quanto é tipo de coisa, que devemos respeitar os direitos dos outros e a diversidade. E respeitamos. Sobretudo as pessoas cristãs, por serem cristãs, têm, na sua formação moral, o respeito ao próximo. Mas, vamos dar um pequeno stop: o outro lado do respeitar é o ser respeitado. Até quando vamos ficar respeitando tudo o que nos dizem para respeitar e sendo cada vez mais desrespeitados nos direitos mais básicos, como a expressão pública da fé, por exemplo?
   Agora, vamos ver um outro aspecto dessa situação. Semana passada, tivemos a festa do Halloween, e nessa época, todo lugar em que se entra, loja, restaurante, hotel, farmácia, pousada, escola, está tudo enfeitado com abóboras fantasmagóricas, bruxas, morcegos, caveiras, demônios e outros símbolos macabros – e isso inclui escolas, que pertencem ao Estado laico.
    Está havendo, no mínimo, uma discrepância! Primeiro, vamos ficar com o raso, o aspecto cultural. Desde quando festejar duendes, bruxas e vampiros faz parte da nossa cultura? Segundo, se as pessoas não podem expressar a sua religiosidade para não ferir o Estado laico, porque precisam engolir essa enxurrada de demonização cultural? Cadê os defensores do laicismo nessa hora? Ou são dois pesos e duas medidas?
    No fim de semana eu passei por um pet shop perto da minha casa e dava até medo de olhar para a decoração! Em que esse tipo de figuras vai contribuir para a venda de ração ou trazer algum benefício para os nossos gatos e cachorros que são levados ao local para banho, tosa e consultas com o veterinário?
    No dia seguinte à comemoração do inferno, se dá a celebração de Todos os Santos, mas, vá alguém colocar imagens de anjos e santos em seu estabelecimento comercial ou nas suas redes sociais para ver o que acontece: “Radical, bolsonarista, fanático, de direita, conservador, fundamentalista, não respeita o Estado laico e o direito dos que não creem!”
    Um streaming fez uma propaganda de uma noite inteira com filmes de terror para comemorar o dia das bruxas. Por que não deu a mesma opção com filmes sobre a vida dos santos, já que as duas comemorações são seguidas?
    E nós, como nos autoadestramos para fazer o que vai bem no momento, achamos melhor e menos sofrido não ter senso crítico nem opinião própria, ficarmos “na moita”, “não mexer para não feder”, como diziam os caipiras de antigamente. O que me espanta, caríssimos, é um país majoritariamente cristão baixar a cabeça desse jeito e aceitar tudo o que é enfiado goela abaixo.
    Para os laicos, ateus, agnósticos e afins, isso tudo é uma grande bobagem, mas, para os outros, é bom lembrar que uma tempestade é sempre prenunciada por pequenas alterações climáticas, ventos, escurecimento e mudança de comportamento dos animais, até mesmo os domésticos. São avisos que nos permitem ter tempo para nos protegermos, nos abrigarmos, recolhermos a roupa do varal e nos prepararmos para o que está vindo. Às vezes, só uma pancada de chuva, outras, um chuvão com ventania, que arranca árvores, destelha casas e carrega até caminhões na enxurrada. Em alguns casos, pode vir até um tsunami... Mas, tem sempre um anúncio, ignora quem quer.
   Por isso, é bom que os não laicos se lembrem de uma fala de seu Mestre: “Se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras nesta geração adúltera e pecadora, o Filho do homem se envergonhará dele quando vier na glória de seu Pai com os santos anjos.” (Mc 8:38)
Bem, como Ele é misericordioso, pode ser que considere quando dissermos: “Mas, Senhor, o Estado era laico...”


 
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Isa Oliveira é formada em Letras pela USP e autora dos livros “Elogio à loucura” e “O chapéu de Alberto”.

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