04/11/2021 às 06h59min - Atualizada em 04/11/2021 às 06h51min

Por uma ética da autenticidade – Um enfoque do ego (ismo) e da fogueira de vaidades em pleno deserto das coisas humanizadas.

Foto: internet
PASCHOALETTO[1], Alberto C.

INTRODUÇÃO: ANATOMIA DA VAIDADE
      A expressão Fogueira de vaidades, segundo o dicionário das expressões, disponível na versão on line  http://www.dicionariodeexpressoes.com.br/ significa “Quando duas ou mais pessoas vaidosas se relacionam ou se esbarram e acabam entrando em conflito”. Bom, é assim que começaremos nosso novo tema reflexivo. Viver, nos ditos tempos atuais, o mito de Narciso como na visão lipovetszyana a abordagem da existência do caráter corroído pela ansiedade, onde o receio se impõe ao gozo e a angústia, à libertação. Pois bem, caro leitor, discorreremos esse texto a partir do livro Os tempos hipermodernos, resultado dos estudos de Gilles Lipovetsky sobre a sociedade Hipermoderna e Charles Taylor em seu livro Ética da Autenticidade.  
     Estes dois conceitos, de um lado o hiperconsumo como forma de libertação ao mal estar do contemporâneo e o conceito da chamada ética da autenticidade, são pilares da lucidez pelo qual podemos desvendar um pouco mais da realidade sobre o que muitas pessoas compreendem o contemporâneo como a liberdade total aos sonhos de consumo e por sua vez uma forma de construir identidades infladas por um ego, cada vez maior, frente as coisas acessíveis através do crediário acessível como a maior conquista da civilização moderna, porque vivemos um mundo onde as pessoas têm o direito de escolher por si mesmas o próprio estilo de vida, como uma vitrine.
     OBS.: Para se aprofundar mais, click no link e leia esse outro texto: https://portaltribunadoguacu.com.br/coluna/36/a-busca-de-si-mesmo-no-caminho-estetico-da-prosperidade-existem-sistema-de-sinais

DESVENDANDO A TRAMA SOCIAL
     Em primeira análise, fica claro que nossa sociedade atual se caracteriza pela busca do hedonismo a qualquer custo e do imediatismo para acesso aos bens onde tudo está acessível ao consumismo que virou constructos de identidades. Mas, não é apenas isso. Juntamente com Sébastien Charles (que articula o conteúdo do primeiro capítulo nosso livro em referência, fazendo suas apreciações sobre os estudos de Lipovetzky) aproveitaremos para discorrer o tema também com o filme de mesma expressão: A Fogueira das Vaidades (título original The Bonfire of the Vanities), que é um filme norte-americano, dirigido por Brian De Palma em 1990, com argumento de Michael Cristofer e baseado em novela de Tom Wolfe. OBS.: Como pude observar em pesquisa na Wikipédia, para o crítico brasileiro Renzo Mora este filme integra um dos 25 piores de todos os tempos. Com uma história que relata que ao o personagem central, magnata de Wall Street, em viagem com sua amante para Manhattan erra o caminho e acaba indo parar no Bronx. Ao longo da história o enredo central concentra num acidente e num jornalista que espera sua grande chance, e, que mudarão para sempre a vida do milionário. Bom, nessa altura do texto já resta claro para o leitor que percorreremos por labirintos do fenômeno do "hiper" e das suas contradições, enfim, desnudaremos a contemporaneidade para entender que estamos transformando todos nós em Narcisos de uma Era Hipermoderna, e, embora o sujeito hipermoderno centre-se no culto ao "Eu" da vaidade e do ego inflado, que busca o sucesso, sempre, e, ao mesmo tempo no contraponto, pela satisfação de seu próprio gozo, pois nunca se viu tanto desenvolvimento nos direitos humanos, no voluntariado e na consciência ambiental com vistas à vida futura. Ao ler o livro achei muito interessante o paradoxo visualizado. Para Gilles Lipovetsky, a pós-modernidade deu espaço para o estado cultural do que ele chama de hipermodernidade. Nesta nova concepção, a ordem social e econômica, com a cultura, está pautada em um senso de consumo em massa que substitui o referencial da identidade construída para uma nova identidade de produção em massa, e, uma hegemonia daquilo que o autor nomeia como “sociedade-moda”, que toma o lugar da sociedade objetivada pela crítica racional das coisas. Um ponto crítico é que não estamos mais no centro das atenções do espetáculo, afinal o espetáculo do hiperconsumo humanizou as coisas e coisificou o humano.
OBS.: Para se aprofundar mais, click no link e leia esse outro texto: https://portaltribunadoguacu.com.br/coluna/29/vies-de-consciencia-etica-o-devir-dos-juizos-esteticos-e-da-vergonha-na-cara
 
PRIMEIRA QUESTÃO REFLEXIVA
     Pergunto impertinente, disparadora da reflexão: Será, então, a moda uma nova instituição social, capaz de satisfazer os egos narcísicos? Na abordagem de Lipovetsky não trata a moda somente como um produto da sociedade de consumo em massa, mas como uma instituição social. A moda é parte da definição da sociedade, é parte de seu funcionamento. A sociedade embasada na moda é a sociedade neofílica, tarada pelo novo, em constante inovação e que tem como pressuposto essa incessante inovação. A moda é aquilo que seduz para o consumo e que faz do consumo uma parte fundamental da constituição da identidade do sujeito hipermoderno. E se as sociedades tradicionais eram pautadas numa repetição de um modelo do passado, de um modelo mais ou menos pedestalizado, em que nossa sociedade atual está orientada pelo sistema da moda que é regida pela transformação rápida, e às vezes até desesperada. Isto posto a regra passa, ao invés da repetição de um modelo, mais ou menos projetado, para a repetição da transformação. A regra é a inovação. O modelo que se repete é não ter um modelo para se repetir e não tem forma, ou melhor, ganha a forma líquida.
     Pois então, surge a necessidade de formular uma nova questão reflexiva: Modernidade líquida, afinal, o que é isso? Recomendo que leiam também o livro Amor líquido, de Zygmunt Bauman o que será, certamente, abordagem para uma nova série de textos filosóficos, para não perdermos aqui o foco da nossa questão reflexiva atual.  As lutas por uma liberdade como um fim em si, sem um projeto de vida construído, como nas lutas contra a autoridade do fim da década de 60, trouxe à sociedade dos anos 70 uma noção temporal de um eterno presente de liberdade irrestrita e burlescamente espetacularizada. De um consumo exorbitante e inconsequente, sempre resguardado pelas políticas de bem-estar social, entretanto, já nos anos 90, a emergência do modelo neoliberal e as crises do modelo de bem-estar social foram também parte de uma mudança mais drástica: o autor nega que o niilismo em torno da pós-modernidade, classificada como uma época do presente contínuo, fruto de um hedonismo consumista, por isso que seja estendido como  hipermodernidade. Para Lipovetsky, a sociedade atual ainda tem sua visão do futuro, que é expressa na insegurança. Mas, pergunto: O que é Futuro? A insegurança em relação ao futuro e a proliferação de estudos, pesquisas e desenvolvimentos de medicamentos e terapias são uma prova da preocupação que a sociedade hipermoderna tem com o futuro, incluindo a questão ecológica e ambiental.
OBS.: Para se aprofundar mais, click no link e leia esse outro texto: https://portaltribunadoguacu.com.br/coluna/21/movimento-dos-componentes-que-se-completam-na-harmonia-do-ser-por-inteiro-paradoxo-de-sorites-

ANALISANDO OS JUÍZOS:  UM ZOOM NA ÉTICA E NA ESTÉTICA
     De agora em diante, procurarei enfatizar como Taylor acredita nos ideais morais não realizados da cultura moderna (pelo menos até agora). Segundo ele, de modo geral, isso ocorre justamente porque há nesse ideal um deslocamento da moral para o moral  na cultura contemporânea. OBS.: Há uma linha divisória clara entre moralidade e moralismo, mas nem sempre é visível. O primeiro, no feminino (a moral), revela um conjunto de valores e princípios que regem os valores basilares do comportamento humano, que diferem no espaço e no tempo no inconsciente coletivo. Todas as sociedades, em algum momento de sua história, adotaram certos códigos de conduta, que geralmente são derivados de centenas de anos de prática, e acreditam que isso é essencial para a convivência harmoniosa de seus membros. Embora não haja sanções materiais, a ética corresponde a um código processual, o que faz com que os infratores implícita ou explicitamente se oponham aos integrantes do coletivo a que pertencem e, por vezes, leva à exclusão de teimosos de sua convivência. Por outro lado, o moralismo (masculino, o moral) representa uma patologia da moral. Embora as pessoas tenham um certo consenso sobre a diferença entre certo e errado neste ponto, no moralismo, algumas pessoas tentam impor seus próprios padrões morais exclusivos aos outros. O X da questão é que a coisificação do humano ganha espaço nas mentes encapsuladas pela distorção moralista criando uma consciência prevalentemente objetivada originando-se assim o fenômeno da coisificação do humano pela inversão dos valores que humaniza as coisas.  Charles Taylor apresenta três grandes pilares da ética ao identificar em seus estudos três mal estar característicos do contemporâneo. Para Taylor, todas essas são características culturais. O primeiro mal estar é o “individualismo” (Taylor, 2011, p. 12). Muitas pessoas pensam que esta é a maior conquista da civilização moderna, porque vivemos em um mundo onde as pessoas têm o direito de escolher por si mesmas o  próprio estilo de vida, o coletivo desce para o segundo plano para que o individualismo (o que Taylor denomina de prevalência da Ética atomizada). O segundo mal estar é a preocupação na vida moderna e contemporânea para "o primado da racionalidade instrumental", que está diretamente relacionado com a desilusão do mundo. Com a ideia de racionalidade instrumental a consciência se modela pela racionalidade baseada no moralismo da coisificação do humano e humanização das coisas com a prevalência da aplicação da lógica objetivada pela ordem econômica que se desenvolve com acesso fácil ao crédito, garantindo meios para atingir o objetivo pretendido. A maior eficiência e melhor relação custo-benefício das coisas são a sua medida de sucesso. Para Taylor a sociedade não tem mais uma estrutura sagrada. Arranjos e ações sociais não são mais baseados na ordem humanista, uma vez que coisas prevalecem sobre a vontade de Deus, afinal elas estão "disponíveis" em certo sentido para o consumo imediato. Assim, todas as pessoas e animais ao nosso redor perdem o significado “humano” na cadeia da existência, uma vez que são considerados coisas (matérias-primas descartáveis) e as coisas, idolatradas como humanas. O terceiro e último mal-estar proposto por Taylor remete ao nível político, potencialmente perigoso frente às temidas consequências do individualismo e da razão instrumental (objetivação ética) para a vida política perigosamente carente de juízos estéticos (noção de beleza) uma vez que a subjetivação não é mais alcançada, é como se fôssemos todos “Flores de Plástico”. Uma destas principais consequências, segundo Taylor, reside no fato de que as estruturas e instituições da sociedade industrial tecnológica restringem severamente nossas escolhas, que elas forçam tanto as sociedades quanto os indivíduos a atribuir um peso a razão instrumental que, em uma deliberação moral (subjetivada e portanto sensível ao estético) nós jamais atribuiríamos como sendo admissível, o que pode ser, segundo Taylor, seriamente destrutiva como temos visto em muitos países com as danças das cadeiras em forças ideológicas cada vez mais polarizadas.

COMO SERÁ O AMANHÃ QUE NOS ESPERA?
    Não se trata de uma sociedade que vive um eterno presente, mas sim de uma sociedade que tem medo do que pode ocorrer no futuro, e por isso fórmula práticas para a sobrevivência das próximas gerações. Entretanto, essas práticas são formuladas para serem exercidas individualmente, já que as instituições coletivas e as imposições estatais perderam seu lugar. Os indivíduos vivem cada vez mais embebidos de tensões e preocupações com o futuro: uma característica da hipermodernidade é sua reflexividade temporal. Se observam o presente e se pensa no futuro, ou seja, o que está por vir é uma preocupação cotidiana e constitutiva impregnada no presente vivido. E, mais ainda o fato de que, o "futuro" transformou-se em objeto de consumo, onde o hipermodernismo é um fenômeno, e, se assim podemos dizer – o futuro tornou-se atemporal, quebrando as barreiras do tempo. Lipovetsky enfatiza a desfragmentação do sujeito hipermoderno, na mesma linha da proposta de Bauman, que não conta mais com a segurança das estruturas coletivas - família, escola, religião, Estado - e, esta intensa individualização teria acarretado um sentimento de insegurança que levaria os sujeitos ao estresse, à ansiedade, depressão, suicídios e claro, o consumismo como remédio para a satisfação do vazio existencial... E, de fato, nunca se viu tantos excessos: bulimia, anorexia, culto ao corpo através de inúmeras intervenções plásticas, enfim, compulsões derivadas do culto ao efêmero. Achei as considerações bastante pertinentes à Era em que vivemos. Lipovetsky compara tais sujeitos com Narcisos - menos enamorados de si mesmos, e mais amedrontados com o futuro que se delineia e o ambiente em que vivem: - violência, caos, desemprego, doença e velhice. É como se o homem do passado, subitamente, houvesse aberto a caixa de Pandora. Sem saber o que fazer com o que libertou dali, tende aos excessos. Mas, resta sempre a esperança. É ler para entender as divagações e tecer suas próprias conclusões.  Enfim, caro leitor, é uma obra que deve ser lida e relida para pleno entendimento. Bom, por enquanto é isso e desejo que tenhamos, todos nós, um hiper-domingo com direito ao hiper-almoço e uma hiper-pizza para o jantar, enquanto isto estarei com meus queridos amigos percorrendo pela estrada, com nossas motocicletas para celebrar mais um fim de semana, dito de enfrentamento do caos que virou a vida. Na próxima semana, articularemos mais o filme, em continuidade ao nosso tema.
OBS.: Para se aprofundar mais, click no link e leia esse outro texto: https://portaltribunadoguacu.com.br/coluna/33/a-literatura-e-seu-papel-de-construtora-de-juizos-esteticos-e-intercessora-da-totalidade-do-humano

REFERÊNCIAS
BAUMAN, Zigmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 2001.
Lewandowski, Ricardo. Existe uma clara linha divisória entre a moral e o moralismo. ConJur. Artigo originalmente publicado no jornal Folha de São Paulo com o título Moral, moralismo e direito.

LIPOVETSKY, Gilles. A cultura-mundo: resposta a uma sociedade desorientada. São Paulo: Cia das Letras, 2011.
_____. A era do vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo. São Paulo: Editora Manole, 2005.
_____. A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade do hiperconsumo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
_____. Os tempos hipermodernos. São Paulo: Barcarola, 2004.
MACIEL, Fabrício. Reconhecimento e desigualdade: da ética da autenticidade à cultura do novo capitalismo. 40º Encontro anual da Anpocs. Mesa redonda nº 21: Reconhecimento, justiça e desigualdade
OLIVEIRA, Isabel de Assis Ribeiro de. O mal-estar contemporâneo na perspectiva de Charles Taylor. In: RBCS, vol. 21, nº 60, fevereiro/2006.
TAYLOR, Charles. A ética da autenticidade. São Paulo: Realizações editora, 2011.
______. As fontes do self. A construção da identidade moderna. São Paulo: Edições Loyola, 1997.
 
Alberto Carlos Paschoaletto
Coluna: (CONS)CIÊNCIA & VIDA
                                                                                                       Caminho Livre pelo Pensar Filosófico.
                                                                      
 
[1] Professor Universitário, com graduação em Ciências Jurídicas e Sociais; pós-graduação em Gestão Empresarial, Psicologia Organizacional e do Trabalho; Mestrando em Desenvolvimento Sustentável e Qualidade de Vida.
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(CONS)CIÊNCIA & VIDA

(CONS)CIÊNCIA & VIDA

Alberto Carlos Paschoaletto é Professor Universitário, graduado em Ciências Jurídicas e Sociais; pós-graduação em Gestão Empresarial, Psicologia.

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