30/10/2021 às 08h49min - Atualizada em 30/10/2021 às 08h45min

Hoje cometi uma ousadia: comprei um bife!

Era perto da hora do almoço e eu estava com fome. Entrei no açougue para comprar um pacotinho de massa de pastel, quando vi o açougueiro com uma vistosa peça de carne sobre a mesa de corte, em atendimento a outro cliente. Olhei novamente e tentei me lembrar quanto tempo faz que não como um bom bife. Bem, faz tanto tempo que nem consegui me lembrar quanto!
Como a grande maioria dos brasileiros, tenho contornado, inventado e reinventado na hora de preparar a mistura. Já fiz ovo de tudo quanto é jeito, verduras e legumes com muita criatividade, mas, sem muitas variações, afinal, um quilo de pimentão está custando R$ 15,00 e um quilo de vagem mais de R$ 20,00! O tomate segue na mesma linha. Então, a gente vai comprando o que está mais barato e tentando fazer mágica na hora de cozinhar.
Não digo que tenha abolido a carne, de vez em quando entra em casa um filé de frango ou uma carninha de porco, bem mais em conta. Eu fui adepta da culinária vegetariana durante cinco anos, portanto, sei que as pessoas sobrevivem bem sem carne, o problema é não dar lugar para a hipocrisia, pois não adianta parar de comer carne, substituir por alface e achar que está tudo bem. A alimentação vegetariana ou vegana tem de ser rica e muito equilibrada e, vamos ser sinceros, não é barata.
Mas, voltemos ao açougue. Enquanto esperava a minha vez na fila, com a embalagem da massa de pastel na mão, preparada para pedir, com muita dignidade, 200g me muçarela (esta grafia é horrível, mas é a correta!), não pude deixar de olhar novamente para a peça de carne e me imaginar fritando um delicioso bife, temperado com bastante alho.
Quando eu disse fila, pode dar a falsa impressão de que o açougue estivesse cheio. Não estava. Éramos apenas três pessoas, mas, como só tinha um açougueiro atendendo, houve uma pequena espera. Enfim, chegou a minha vez! Pedi os 200g de muçarela. O rapaz cortou, pesou, embrulhou e me perguntou: “Mais alguma coisa?” Estendi para ele o pacotinho de massa, que pegara na geladeira, do outro lado do balcão, respirei fundo, tomei coragem e perguntei, olhando para a tentadora: “Que carne é aquela?” “Coxão mole.” “Me corta um bife, por favor! Não muito fino.”
     Pedi para não cortar muito fino porque, em casa, ele teria que se transformar em dois, um para mim e outro para o meu marido e, se fosse muito fino, encolheria demais na hora de fritar, já passei pela experiência. Ele cortou, pesou e embrulhou. Já que tinha cometido essa imprudência, comprei também um pouco de moela – que detesto – para ser generosa com os meus cachorros. Hoje todos almoçaríamos bem! Fui para o caixa e paguei. No cartão de crédito! O dinheiro só daria para a massa de pastel e os 200g de muçarela...
    Caminhei até minha casa segurando o precioso pacote como quem leva uma joia rara. Usei a minha melhor faca para dividir o bife ao meio, temperei com carinho e fritei com água na boca. O cheiro delicioso que invadiu a minha cozinha me fez lembrar que ovo não cheira e verdura menos ainda. Creio que tenha sido esse um dos motivos que me levou a deixar de ser vegetariana, anos atrás. Meu sentido mais desenvolvido é o olfato e minha casa ficou muito tempo sem exalar cheiro de comida. As verduras que me desculpem, mas o cheirinho de bife é algo fundamental!
     Fiz legumes na manteiga para acompanhar os bifes. Na verdade, na margarina, porque a manteiga, embora mais saudável, também está custando os olhos da cara e faz tempo que não me dou ao luxo de comprar. Foi na margarina mesmo. E ficou muito gostoso. Meu marido até fotografou. Coitado, ele adora fotografar comida, mas, já não tinha mais criatividade para fotografar arroz com ovo! Preparei para ele um prato lindo, pois sabia que renderia uma boa foto, e rendeu!
    Minhas palavras podem até fazer parecer divertido ir ao açougue e comprar um bife, depois de lutar contra a crise de consciência, mas, isso não é divertido. É trágico. Em casa somos só eu e meu marido e, apesar da grande perda no poder aquisitivo, conseguimos nos adaptar e sobreviver bem, no entanto, quantas famílias ficaram totalmente sem renda? Famílias com filhos pequenos, em fase de crescimento, necessitados de uma boa nutrição. Famílias que passaram a comprar ossos de boi, miúdo, pescoço e pé de galinha, isso quando conseguem. Gente que revira lixo em busca de algum resto aproveitável, porque comer é uma necessidade básica, coisa que nossos políticos, sempre de barriga cheia às custas de nossa miséria, não sabem reconhecer.
     Meus pais, pessoas muito simples, sempre diziam o que tinham ouvido dos pais deles, que certamente também ouviram dos seus: dia chegaria em que teríamos dinheiro para comprar e não teríamos comida para comprar. Perto estamos de chegar a tal ponto, com uma pequena variação: não teremos comida, mas também não teremos dinheiro para comprá-la!
      Claro, tirei uma lição do bife do almoço, a de valorizar cada vez mais as pequenas coisas, pois nunca pensei que um dia entraria num açougue e compraria um bife. Mas, por trás disso, há uma grande lição: as coisas, do jeito que estão não podem continuar e, certamente, não são os homens que vão dar solução a isso; uns, porque estão famintos demais para pensar, outros, porque estão com a barriga cheia demais, tendo, para com os pobres mortais, apenas o arroto da sua indiferença e o insaciável apetite pelos nossos votos, nas próximas eleições.
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PALAVRA DE MULHER

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Isa Oliveira é formada em Letras pela USP e autora dos livros “Elogio à loucura” e “O chapéu de Alberto”.

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