14/05/2021 às 12h39min - Atualizada em 14/05/2021 às 12h36min

FILHOS FERIDOS

Ilustração de Carvall
Isa Oliveira
A Bíblia ensina que devemos honrar pai e mãe, algo tão importante que está entre os dez mandamentos e é o único que garante vida longa a quem o cumprir. As  regras de educação e comportamento também nos mostram a importância de amarmos, obedecermos e respeitarmos os nossos pais. É algo justo e correto e parece até uma coisa óbvia, afinal, devemos dedicar o melhor de nosso amor e nossa gratidão àqueles que nos deram a vida, nos alimentaram, nos educaram, cuidaram de nós, nos deram formação e condições de seguirmos nossos caminhos.
Na prática, porém, não é bem assim que as coisas acontecem... Grande parte das queixas levadas aos consultórios de psicólogos – e até de psiquiatras – se referem a traumas adquiridos na infância, a maioria deles, na família; muitos, provocados pelos pais que, em teoria, deveriam ser amorosos, disponíveis, cuidadores, protetores. Só que muitos foram ausentes, indisponíveis, abusadores, invalidadores e, até, torturadores. Para muitas pessoas, os pais foram seus maiores pesadelos.
Não é fácil ser pai e mãe. É uma coisa que temos de aprender a ser sendo, tentando, errando, tentando de novo. Dificuldades sempre existiram e sempre vão existir e não há ninguém no mundo que possa dizer que nunca ficou chateado com uma atitude ou outra de seu pai ou de sua mãe, mas, são coisas corriqueiras, que se resolvem por si mesmas e passam sem deixar sequelas. A questão aqui são aqueles acontecimentos que deixam marcas tão profundas que, além de perdurarem por toda a vida, podem incapacitar o filho para uma vida saudável, normal, possível.
Há ainda outro fator que piora um pouco mais essa situação. A condição da paternidade e, sobretudo, da maternidade, erroneamente parece envolver quem a possui em uma aura de santidade e de intocabilidade. Isso, porém, é um engano terrível. Como falei no início, está na  Bíblia, está nos códigos morais da sociedade, está na educação: precisamos honrar, amar e respeitar os nossos genitores. Logo, pensar mal dos pais, chatear-se com eles e, mais grave, falar mal deles, é algo que nos leva ao pior sentimento que um ser humano pode experimentar: a culpa.
Poucos pais planejaram seus filhos, desejaram que eles nascessem exatamente no momento e nas condições em que nasceram. Como, geralmente, as pessoas se casam apaixonadas, elas nem sempre têm tempo para um bom planejamento da vida futura, por isso casam sem dinheiro e sem condições de bancar todos os compromissos que surgem com a formação de um novo lar. E, com poucas exceções, exatamente quando começam a acordar para as dificuldades, as contas a pagar, as diferenças de temperamento é que surge o intruso bebê na barriga da mamãe. Às vezes, a não convidada criança é ainda mais afoita e se aproveita do vacilo e da lascívia dos enamorados e, pimba!, se insere entre os dois, levando a um casamento ainda mais apressado, quiçá, forçado.
     Sim, os tempos mudaram e uma gravidez já não é motivo para levar dois jovens a se casarem, mas, muitos ainda se casam por causa de um bebê vindouro e, se não casam, ainda pior, porque o coitado já vem ao mundo no meio de uma dissenção e já nasce privado do direito mais básico de uma criança: ter um pai e uma mãe para criá-la, educá-la, amá-la e protegê-la. Temos um contingente imenso de mães solteiras (ops, parece que esse termo já não é politicamente correto, deve-se dizer “mães solo”, mas, enfim, creio ter me feito entender). Isso acontece porque, para a mulher, é mais difícil sair de fininho, a menos que ela decida pela tragédia de um aborto que, me desculpem os que defendem tal prática, é criminosa e não significa apenas o assassinato de um ser indefeso, significa também uma ferida eterna na alma de quem o comete, isso quando não ceifa a vida da própria “não mãe”.
    O assunto aqui, no entanto não é este, e sim os filhos. Eu sou uma mãe solteira e sei muito bem o que é criar um filho sozinha. Por melhor que uma mãe – ou um pai solteiro – crie o seu filho, fica um trauma, fica um vazio, fica uma ausência. Isso acontece também quando um dos pais morre na infância da criança ou quando há uma separação e um deles resolva dar linha na pipa, agindo como se o fim do casamento pusesse fim também à paternidade ou maternidade.
     Mas, mesmo em lares tidos como “normais”, muitos traumas se instalam, muitas violências e abusos acontecem, sem que se perceba. Às vezes, diante de um caso de delinquência juvenil, a primeira coisa que se diz é: “Nossa, mas era de uma família tão boa!”. Não estou afirmando que todos os problemas e mazelas de um jovem são frutos da má conduta de seus pais, longe disso. Porém, se formos investigar bem a fundo, muitos pais que parecem santos e merecedores de um troféu, no fundo, não são bem assim... Nem sempre uma observação superficial mostra o que realmente acontece dentro de uma família.
     Além disso, é muito difícil caracterizar abuso. Muitos traumas referentes a abusos sexuais aconteceram na própria família, vários, praticados pelo próprio pai e, alguns, com a anuência da própria mãe. As feridas oriundas disso são terríveis, porque é um assunto cercado de tabu e nem sempre a vítima é digna de credibilidade, sobretudo quando os pais parecem cidadãos de bem, acima de qualquer suspeita.
    Abusa-se porém, de diversas maneiras, abusa-se com atos e com palavras, com desvalorizações, com comparações, com exigências absurdas, com imposições inadequadas. O triste fato é que esses filhos feridos caminham por aí, doloridos e desacertados. Muitos se tornam pais e acabam repetindo aquilo que aprenderam e ferindo também aos seus filhos; outros, erram por tentar tão desesperadamente fugir dos abusos que viveram que, simplesmente, não conseguem cumprir o seu papel de educadores e acabam agindo como filhos de seus filhos.
    A marca deixada em um filho por um pai e uma mãe só quem a tem conhece a sua profundidade, e uma das coisas mais difíceis para um filho é admitir que não ama o seu pai ou a sua mãe, porque a Bíblia diz que está errado, porque a sociedade diz que está errado, mas, ninguém se dispõe a sair do papel de acusador para se colocar no lugar dessas pessoas. Deve estar escrito também que é imperioso honrar, amar e cuidar dos filhos, mas, isso, parece que ninguém lê e, por isso, é tão fácil se munir do senso comum para criticar, julgar  e condenar aqueles que não têm a menor condição de amar quem os destruiu.
Link
PALAVRA DE MULHER

PALAVRA DE MULHER

Isa Oliveira é formada em Letras pela USP e autora dos livros “Elogio à loucura” e “O chapéu de Alberto”.

Relacionadas »
Fale pelo Whatsapp
Atendimento
Precisa de ajuda? fale conosco pelo Whatsapp