25/09/2021 às 16h57min - Atualizada em 25/09/2021 às 16h55min

​A árvore da vida

PALAVRA DE MULHER

PALAVRA DE MULHER

Isa Oliveira é formada em Letras pela USP e autora dos livros “Elogio à loucura” e “O chapéu de Alberto”.

     Esta semana, chamou minha atenção uma notícia divulgada pelo G1 sobre uma operação realizada no Parque Nacional das Sequoias, na Califórnia, Estados Unidos, para proteger uma árvore milenar de um incêndio que teve início no dia 9 de setembro. A árvore em questão, batizada de General Sherman, é considerada a árvore de maior diâmetro do mundo e tem idade estimada entre 2.300 a 2.700 anos. Ela teve o seu imenso tronco revestido com papel alumínio para ser preservado do fogo.
    General Sherman teve sorte de germinar e nascer naquele local, por que, no Brasil, coitada, não chegaria nem aos cem anos! Em Mogi Guaçu, então, não chegaria nem aos vinte!
    Na mesma semana, quando me dirigia ao posto de saúde para tomar a segunda dose da vacina contra a Covid-19, passei em frente à Estação de Tratamento de Água (ETA), na Vila São João, bairro onde morei até o ano passado, e qual não foi a minha dilacerante surpresa ao ver no chão os pedaços de uma grande árvore, pela qual passei muitas vezes, tirei fotos, parei para admirar e abraçar seu grosso tronco. Era essa árvore da foto, cujo tamanho dá para ver, em proporção ao tamanho do corpo do meu marido.
    Não dá para não ficar indignado diante de algo assim! O corte da gigantesca árvore tinha acabado de acontecer, os pedaços do tronco e dos galhos ainda estavam no chão, com fitas de isolamento ao redor e o cheiro de madeira jovem tomava conta do ar. Olhei bem para ver se a minha antiga vizinha tinha sido acometida por alguma doença, mas, todas as suas partes se apresentavam sadias. Também não existia o perigo de ela cair sobre alguma casa, porque na esquina onde se localizava, existe um grande terreno vazio. Parte dela ficava dentro do terreno e parte na calçada. Não havia cupins, não havia partes esburacadas, nada. Apenas uma árvore saudável, feita em pedaços, no chão. E também não havia calçada quebrada ou asfalto prejudicado por suas raízes. Que motivo, então, levou à destruição de um espécime tão bonito, que podia ser avistado de longe?
    Certamente, alguém terá uma justificativa, mas, acima das justificativas para o que podemos considerar como um crime ambiental, o que foi feito para poupar essa árvore? O que foi feito para salvá-la? É uma tristeza termos uma cultura tão pobre em relação à preservação das riquezas naturais no Brasil. Nos últimos dias, é comum vermos notícias de queimadas e a luta, muitas vezes inglória, de brigadistas tentando conter o fogo e salvar nossas florestas. Mas, por aqui, o fogo quase sempre é criminoso e acaba servindo como um auxiliar dos grandes desmatadores, incentivados pelo governo em sua política de destruição. E deixa passar a boiada! Afinal, a Amazonia é tão grande, alguns milhares de árvores derrubadas não farão tanta falta assim!
    Aqui no Guaçu, na gestão anterior, houve muita tristeza e muitos protestos com o corte indiscriminado de árvores frondosas para aumentar faixas de uma avenida e fazer pontos de ônibus (!!!) e a justificativa do prefeito era a de que estavam cortando as árvores, mas, mudas estavam sendo plantadas em outras regiões. Ou seja, você pode matar os adultos se incentivar o nascimento de novos bebês! Quantos anos uma mudinha frágil vai levar para crescer e atingir o porte das árvores derrubadas?
    Felizmente, o atual prefeito acabou com essa festa antiecológica e cortou pela raiz o projeto estúpido de desmatar o campo da Brahma e cimentar tudo para mudar a feira livre para aquele local. Embora não seja uma guaçuana raiz, e nem tenha votado aqui, vibrei com essa postura da administração atual, mas, vejo que a minha admiração já vai por terra. Compreendo que um prefeito não pode cuidar pessoalmente de cada esquina de uma cidade do porte da nossa, mas, esperava ao menos que ele tivesse uma equipe com a suficiente competência para evitar esse assassinato.
    Pode ser – e espero que seja – que a árvore tenha caído e por isso foi cortada, mas, não quero me iludir, basta olhar para o que sobrou do tronco dela, firmemente plantado no solo. Se tivesse caído, as raízes estariam fora da terra, e não é o caso. Ao que tudo indica, foi mais um descaso. Coitada, durante tanto tempo sofreu com a irresponsabilidade dos jardineiros que limpavam os jardins das casas luxuosas do bairro e depositavam o lixo ao lado da nossa General Sherman, até que protestos e frases escritas no muro próximo conseguiram coibir, ou ao menos diminuir, essa prática.  E agora, ela não existe mais. Tudo o que restam são lembranças e fotografias, porque, com certeza, eu não fui a única a me apaixonar por ela e fotografá-la. Esses somos nós. Essa é a nossa realidade, infelizmente!
 
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