16/09/2021 às 12h31min - Atualizada em 16/09/2021 às 12h29min

VAZIO EXISTENCIAL GLOBAL

      Esses dias, conversando com minha sobrinha de 23 anos, falamos sobre vazio existencial. Embora mais de 30 anos separem as nossas gerações, concordamos em praticamente todos os pontos sobre esse sentimento tão avassalador que se alastra por todas as idades, todos os gêneros, todas as camadas sociais.
     Se fizermos uma análise histórica ou literária, veremos que a terrível sensação de vazio e de não pertencimento sempre permeou a vida do ser humano. O que é novidade é a maneira como isso se alastrou. Antes, uma pessoa era acometida pelo problema aqui, outra lá bem distante. Agora, é difícil encontrar quem nunca tenha experimentado essa sensação. Pessoas do mesmo ofício, da mesma turma, da mesma família.
     Pessoas jovens, de meia idade, maduras e até crianças experimentam essa sensação de estar sendo sugadas por um buraco negro, um buraco que nos puxa para dentro da gente mesmo, para uma zona de escuridão até então ignorada. E as consequências disso passam pelo aumento do consumo de álcool, de drogas e outros vícios, pelas separações de casais, trocas constantes de parceiros, experiências sexo-afetivas cada vez mais variadas, depressão, suicídio.
     É certo que a pandemia exacerbou essa sensação estranha, mas, ela já estava presente bem antes da chegada do Coronavírus. E nós íamos tentando nos adaptar, sobreviver, muitas vezes nos equilibrando sobre o fio da navalha. Onde isso começou é difícil saber, assim como também não sabemos onde isso vai dar.
Ir ao supermercado e se assustar com os preços dos alimentos, ter dificuldade para repor o botijão de gás ou para encher o tanque de combustível, também são fatores que pioram um pouco as coisas, mas isso tudo também é galho e não raiz.
     O mais desesperador é que, quando caímos nesse limbo, acabamos tendo a impressão de que se trata de um problema nosso, uma crise existencial pessoal, mas, embora acometa a cada um, é um problema de todos. Trata-se de uma crise existencial global. Ter um hobby, mergulhar no trabalho, trocar de parceiro ou buscar renovadas fontes de prazer não representa uma solução.
     Mas, qual é a solução, afinal? Quem o sabe?! Nem mesmo a fé supre essas lacunas. Ajuda, mas não soluciona. Penso que esse seja um período ímpar da nossa história. Nunca o ser humano desejou e buscou tanto a felicidade e nunca ela esteve tão distante dele, tão difícil de alcançar.
    Por que isso acontece e se vai ou não ter fim em breve é algo que não sabemos, mas, a lição mais bonita que podemos tirar disso tudo é que não estamos sozinhos, nunca estivemos tão próximos e tão parecidos, embora nossa aparência exterior nos faça parecer tão sozinhos e tão diferentes.
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PALAVRA DE MULHER

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Isa Oliveira é formada em Letras pela USP e autora dos livros “Elogio à loucura” e “O chapéu de Alberto”.

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