27/08/2021 às 20h18min - Atualizada em 27/08/2021 às 20h16min

Se o demônio não existe, então, por quê...?

    Segunda-feira, foi aniversário do meu filho e, para uma mãe, o aniversário do filho é mais importante do que o seu. próprio. Como o meu filho é padre e tem votos de pobreza, não há muitas opções com que presenteá-lo. Livro é uma das raras possibilidades, pois, mesmo destinando-os à biblioteca, antes, ele os lê. Mas, como eu lhe dou livros sempre que posso, ficaria muito banal e eu queria dar-lhe um presente marcante.
    Então, para não deixar a data passar em branco, em vez de um presente concreto, resolvi dar a ele um presente abstrato, uma homenagem. Com a ajuda de amigos, consegui envolver um grande número de pessoas que gravaram mensagens com felicitações que eu juntei num único vídeo e editei a duras penas, com meus parcos conhecimentos na área,
    Mesmo sendo uma produção amadora, o vídeo ficou um show. Com o exagero de 01h07min de duração, ele reuniu pessoas do Nordeste a Moçambique, passando por vários estados, cidades e muitos e diferentes corações. Não vou me ater a esse assunto, porque os detalhes não interessariam a quem não nos conhece. O que importa é que o projeto teve bom termo, atingiu seu objetivo, arrancou lágrimas de muita gente e marcou a alma do meu filho de forma especial, superando as minhas expectativas. O que pretendo falar é sobre um pequeno e curioso detalhe ocorrido durante a preparação do vídeo.
    Eu escolhi, para a abertura, a música “Te desejo vida”, de Flávia Wenceslau (quem não conhece, aconselho que procure no Youtube, é uma das músicas mais lindas que já ouvi). E, com essa música de fundo, fiz uma retrospectiva fotográfica, desde quando ele era bebê até a atualidade. Como ele já tem 37 anos, é óbvio que as suas fotos de infância não são digitais. Foi um tal de procurar álbuns, abrir caixas, remexer gavetas, mas, consegui achar tudo o que procurava, fazendo uma emocionante viagem no tempo, ao percorrer as alamedas da saudade.
    De repente, entre as centenas de fotos, grande parte delas muito mal tiradas e sem foco, eis que uma me chamou a atenção por causa de um boné. Como toda criança, meu filho também teve fases e a fase do boné foi uma delas, ele não saia de casa sem um. A foto que me chamou a atenção foi tirada no Play Center, quando ele tinha uns seis anos. O boné era de um verde abacate carregado, cor em destaque na época. E, no meio dessa verdolência, me impactou a foto de uma caveira, imagem que me causa repugnância. “Como deixei meu filho usar um boné com caveira?”, foi o primeiro pensamento que me ocorreu. Mas a coisa era ainda pior...
    O uso de caveiras como tendência no mundo da moda começou em 2008, com o estilista britânico Alexander McQueen e virou febre quando os seus lencinhos encaveirados começaram a ser usados por celebridades como Johnny Depp, Lindsay Lohan e Cameron Diaz. No Brasil, a moda foi introduzida por Alexandre Herchcovitch, que lançou uma coleção tirada do fundo dos sepulcros com camisetas, bolsas e casacos estampados com caveiras. E, como à moda se adere e sobre ela não se pensa, logo todo mundo estava andando por aí com suas caveiras cercadas de rosas, estampadas em camisetas ou tatuadas em seus corpos.
     No entanto, a foto do meu filho é de 1990 e a caveira do seu boné é bem diferente das caveirinhas fashion que ainda circulam por aí. Era até tosca perto delas (embora todas sejam igualmente horríveis, purpurinadas, envolvidas por rosas ou bordadas em strass). A caveira do boné, dentro de uma figura geométrica com chamas ao fundo, estava circundada por algumas palavras em inglês, idioma que eu não domino, então, por um impulso que não sei explicar, certamente por ação da graça, uma coisa que só entende quem já experimentou, copiei a frase e fui buscar a tradução.
    “Born to raise hell.” Essa era a frase, e a tradução é: Nascido para levantar o inferno!!! Dá para imaginar o pânico que me deu? É muito provável que eu mesma tenha comprado o boné para ele e nunca prestei atenção a essa imagem e muito menos a essa frase, em letras miúdas. Mas, isso é terrível! Muitas pessoas, hoje, dizem que o inferno não existe e, exatamente por isso, ele se alastra sobre a água do mar da nossa indiferença como a carga inteira de óleo derramada de um navio, que vai matando, destruindo e causando estragos por onde passa.
    Felizmente, embora tenha usado esse nefasto boné, a profecia escrita nele não se cumpriu, muito ao contrário, meu filho é um sacerdote de Cristo, um homem que entregou a sua vida a Deus e posso dizer, com toda a convicção que, ao contrário dessa frase horrível, ele nasceu para afundar o inferno e destruir a influência do mal sobre as pessoas.
    Tudo isso pode estar parecendo desconexo e sem relação com o título, mas, não é. Muitas vezes, nós ficamos à mercê do que tem. Você quer comprar um produto, mas só tem outro, similar, então, na precisão, você leva. E leva sem pensar. Você gostaria de usar uma camiseta com belas frases na sua língua, mas, vai na loja e só encontra com frases em outros idiomas, que você não conhece. Não é o que você queria, mas, como é o que tem, acaba levando aquilo mesmo. Você queria uma roupa de um determinado comprimento, estampa ou modelo, mas, como não tem, você leva o que te é oferecido. Assim, você veste, calça, come e ouve o que está disponível, o que está na moda; pior, o que todo mundo usa porque todo mundo usa...
    E, agindo assim, sem crítica, sem exigências, com uma aceitação passiva de tudo o que lhe é oferecido, você está a serviço de quem? Daquele que dizem que não existe, que é coisa da cabeça de gente fanática, gente ignorante, fundamentalista e assecla do Bolsonaro. Mas, se o diabo não existe, então, por quê ele é seguido, cultuado e, ainda que discretamente, tão divulgado? Se ele não existe, por que se criam modas e objetos para promovê-lo? Se ele não existe, por que se gravam canções que falam dele ou das coisas que ele gosta que sejam feitas?
    Eu não sou fanática, fundamentalista, tão menos ignorante e não gosto do Bolsonaro, mas, já fui ingênua e distraída, a ponto de não notar a insensatez que cobria a cabeça do meu próprio filho! E você, o que faz com os seus? O que permite que eles façam, usem e vejam? Se é que interfere, porque hoje não é permitido não permitir qualquer coisa. Acorde! A responsabilidade é sua e é muito grande! O demônio não apenas existe como pode estar usando você e as suas crianças para divulgar-se, promover-se e tripudiar sobre os pobres mortais que ousam se opor a isso. Esteja atento!
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PALAVRA DE MULHER

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Isa Oliveira é formada em Letras pela USP e autora dos livros “Elogio à loucura” e “O chapéu de Alberto”.

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