14/08/2021 às 10h15min - Atualizada em 14/08/2021 às 10h14min

​Sozinho não se chega ao Céu...

     Tudo na vida é uma questão de escolha, inclusive – ou principalmente – as nossas crenças. Há muito tempo, eu decidi acreditar que a vida continua após a morte e que existe um Céu. Talvez eu tenha feito essa escolha ainda muito pequena, quando a vida na minha casa girava em torno do alcoolismo do meu pai e se assemelhava muito a uma amostra do que pudesse ser o inferno. Ainda muito criança, quando nem sabia direito o que significava morrer, lá dentro da alma eu acalentava o desejo de partir e, claro, acreditava que seria levada por uma estrada toda feita de nuvens, com a Chulica, minha primeira cachorrinha, ao meu lado, até chegar ao Céu, o lugar mais bacana que deveria existir. Depois, cresci, fui adquirindo instrução, passeando por diferentes filosofias e ideologias, mas, essa crença nunca mais saiu de dentro de mim, tanto que, ainda hoje, quando me imagino chegando ao Céu, caso o mereça, é sempre a imagem daquela menininha que vejo, acho que, dentro de mim, só a inocência dela é que realmente merece ganhar o Céu.
    Como esse é um assunto que me interessa, é de se imaginar que eu leia e estude bastante sobre ele, embora conhecimento não leve ninguém para os páramos celestiais, ao contrário, mais afasta do que aproxima. Os próprios livros sagrados afirmam isso. Para se chegar ao Céu, é preciso simplicidade e, aprender demais, é um dos caminhos mais fáceis para trocar simplicidade e inocência por orgulho e arrogância. Mas, de qualquer forma, o assunto me fascina e, boa parte do tempo que dedico à leitura, se estende sobre esse curioso tema. Aliás, no momento, estou saboreando um austero livro, escrito por Santo Afonso Maria de Ligório, chamado “Preparação para a morte”. Não que eu tenha pressa, entendam-me bem. É preciso um desprendimento muito grande para deixar com tranquilidade o concreto para se aventurar no duvidoso e, Céu, inferno, vida no Além, gostemos ou não, fira as nossas convicções ou não, está mais no terreno das suposições do que das certezas...
     A santidade é algo que me fascina, pois, viver nos aproxima muito mais do pecar do que do ser santo e, quanto mais meditamos sobre o que signifique viver santamente, mais nos apavoramos com as besteiras que fazemos, com a calma e paciência que não temos, com o egoísmo que nos constitui, com as bobagens com as quais nos ocupamos e as futilidades que permitimos matar o nosso tempo e, muitas vezes, os nossos relacionamentos. Mas, hoje, trabalhando num roteiro de um programa religioso me deparei com uma coisa na qual não tinha botado muito reparo até então: tudo o que nos aconselham sobre as vias da santidade, da perfeição, do autoconhecimento, da evolução, ou seja lá que nome dão a isso as diversas correntes filosóficas e teológicas, seja um tratado de moral cristã, um estudo do alcorão ou um livro que ensina como ter disciplina, ganhar dinheiro ou perder peso em dez lições, tudo nos conduz por um caminho solitário. Você deixa tudo, abre mão de tudo, se desprende de tudo, esvazia a sua mente, adere ao minimalismo e, em alguma curva da estrada, encontrará a tão procurada iluminação e, com sorte, se tornará um milionário ou chegará ao Céu, tudo depende da estrada que escolher percorrer.
     Tudo muito bonito, muito precioso, mas, suponho que tenha muita enganação nesses sofismas ou, para falar de uma forma menos pomposa, muito caroço nesse angu. Sozinhos, podemos aprender a nos conhecer melhor, e isso é muito bom. Sozinhos, podemos aprender a ter intimidade com Deus, o que também é muito bom, embora nos exponha ao terrível risco de acharmos que somos filhos únicos ou, no mínimo, filhos melhores que os outros... Mas, sozinhos, não é possível chegar a lugar nenhum! A doutrina católica prega a existência de um purgatório, um lugar imenso e um tanto doloroso, destinado às almas “mais ou menos”, aquelas que nem estão preparadas para “subir”, mas também não estão em condições tão ruins a ponto de “descer”.
     O espiritismo aperfeiçoou esse local e o rebatizou de umbral e, em vez de lança-chamas nos atingindo pelos flancos, jardins, hospitais, escolas e simpáticas colônias espirituais para nos acolher e não nos deixar ao relento, sob as nuvens das incertezas. Mas, a grande questão é que, se a sua preocupação primordial nesse lugar for o seu estado de espírito e o visto no seu passaporte, tudo terá sido em vão, porque você estará sozinho e, sozinho, não se chega a
o Céu. Imagine que você teve uma boa vida, boa no sentido moral do termo, de forma que se encontre apto para o grande banquete celestial ou para uma boa colocação nesses lugares intermediários. A menos que você seja completamente cego e surdo, como se sentirá ao ver almas famintas, ao ouvir choros e gemidos de quem está em sofrimento? Que Céu seria esse que lhe revestisse com o manto da indiferença?
     Talvez a nossa grande preocupação não devesse ser o nos comportarmos bem, rezarmos, termos bons modos e valores consistentes, nos melhorando e nos santificando a cada dia, para garantir a nossa entrada no tão esperado e desejado Céu. Talvez, a única preocupação que devêssemos ter seria a de fazer todo o possível para evitar que pessoas se perdessem, que infernos existissem e sobrevivessem alimentados pelo nosso egoísmo. Andar por aí, recolhendo almas esgarçadas, espíritos sofridos e gente sem esperança deveria importar bem mais do que nos esterilizarmos e nos embalarmos, desde esta vida, numa cápsula de exclusividade. Embora sonhe com o Céu e deseje muito chegar lá, enquanto houver um ser que sofre, para mim, não haverá Céu. E creio que, para Deus, também não...
    PS: Para quem leu o meu artigo da semana passada, falando da minha cachorrinha Taina-Kan, que estava entre a vida e a morte, ela, que tinha nome de estrela, se apagou na manhã de sábado e agora brilha nesse imenso Céu para onde pretendo ir, mas, não sozinha.
 
 
 
 
 
 
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PALAVRA DE MULHER

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Isa Oliveira é formada em Letras pela USP e autora dos livros “Elogio à loucura” e “O chapéu de Alberto”.

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