13/08/2021 às 08h59min - Atualizada em 13/08/2021 às 08h54min

A busca de si mesmo no caminho estético da Prosperidade: Existem sistema de sinais?

PASCHOALETTO[1], Alberto C.

Nobre leitor de CONSCIÊNCIA & VIDA, embora seja uma palavra muito falada, cabe neste nosso texto uma reflexão sobre prosperidade como um desafio de longa trajetória e, contextualizar seus possíveis sinais ao longo do caminho, principalmente nos tempos atuais do COVID-19, com portas se fechando e outras se abrindo, isto por conta da profunda transformação das últimas estruturas sólidas do mundo que já era líquido, e, cada vez mais volátil (já articulamos anteriormente o conceito VUCA, MUVUCA e BANI) sendo objetivo desse artigo mostrar alguns sistemas sinalizadores. Isto posto, em caráter introdutório o nivelamento semântico e dialético para entender a prosperidade, vamos primeiro a questão de ordem semântica: A prosperidade no ponto de vista material e objetivo do mundo sólido significa grande produção de alimentos e bens de consumo; abundância, fartura. Ao longo dos tempos, principalmente após a virada do milênio, seu significado foi cada vez mais liquefazendo em algo disforme e, nos tempos atuais de 2020 em diante, cada vez mais acentuadamente volátil. Por outro lado, prosperar, do ponto de vista dialético, envolve um atributo subjetivado de valor estético que alcança o comportamento emocional dos indivíduos, envolvendo aspectos do equilíbrio mental e espiritual das pessoas o que se transforma em objeto de desejo, sem nenhuma forma sólida, pois que está totalmente associado ao abstrato e atomizado ao indivíduo em si. Pois bem, nobre leitor pretendemos associar a palavra PROSPERIDADE com FELICIDADE. Em seu aspecto dicotômico do SER/TER podemos entender que ambos se assemelham ao Y (tronco e dois galhos) de uma árvore que se consolida como simbólica da “vida” que se bifurca entre SER, um fim em si mesmo ao perceber-se em sua própria identidade, estar em paz com as características intrínsecas individuais, ou seja alcançar um estado de consciência plena e satisfeita com o bem-estar de si e, portanto, sensível e empática ao outro. No galho TER, da nossa árvore simbólica, tomemos como um meio a ser alcançado e, se a qualquer preço, por consequência o outro deixa de estar próximo para competir nos espaços, nas coisas e nos bens que se consegue alcançar como fruto do desejo que nasce da sedução das mídias de comunicação de massa que é direcionada para entes de egos inflados, portanto alienados e travestidos do seu significado dialético ao objeto do desejo alcançável pela competição (do superar o outro) e da sedução (em adquirir mais para mostrar que é melhor que o outro). Resultado: FELICIDADE UM PRÊMIO A QUALQUER PREÇO! Neste sentido dialético a felicidade, distorcida, é um fim em si mesma e, a vida um meio que perde seu valor e rebaixa o indivíduo ao nível básico da sobrevivência, o que provoca um ciclo vicioso como no cenário de campo de batalha: consumir para sobreviver X sobreviver para consumir. No exercício dialético do dia a dia os discursos agem sobre “ideias” por meio dos sujeitos e essas ideias são os frutos que germinam no galho SER. No galho TER os frutos são as palavras, muitas vezes ditas ao léu e que na prática da retórica, os sujeitos interagem no ambiente do discurso, quase sempre da boca para fora; Já na prática da dialética, portanto do galho SER os discursos interagem no ambiente subjetivo, os sujeitos são (idealmente) instrumentos do discurso e interagem com outros indivíduos em sinergia, pois suas palavras não são da boca para fora, mas da boca para dentro do coração e reverberam como Luz no exterior. Esta é inversão de valores do qual podemos chamar de virtude corrompida pela viciação dos hábitos, não saudáveis, do ponto de vista filosófico: do esvaziamento da essência do significado existencial. Muitos atenuam suas frustrações no prazer momentâneo da conquista do objeto desejado, mas, não percebem que o fazem para preencher lacunas de uma realidade, cada vez mais virtual e vazia, e caem nos vieses dos pecados da gula, avareza, luxúria, preguiça, ira, soberba, inveja, para compensar a iminente escravidão moderna. Todos esses pecados, capitais, se entrelaçam ao mesmo fim: Excesso de beleza exterior para encobrir o buraco negro do esvaziamento existencial! Nesse paradoxo entre fim e meio, dos corações e vidas desperdiçadas, as pessoas buscam conteúdo material acessível nas objetividades do consumo e, preenchem, como se fossem drogar, o vazio existencial. Quiçá, pessoas preenchidas interiormente pelos sentimentos filosóficos, e, espiritualmente elevadas se descobrem FELIZES quando percebem que passam por provações nas suas vidas, porque descobrem que uma vida perfeita, como veiculada nos anúncios da propaganda e nos merchandisings das novelas simplesmente não existe!
1. Na plataforma antropológica-filosófica a respeito do imanente que se abre ao transcendente eis a questão chave: Existe relação entre a Virtude e Felicidade? E, se sim, quais suas relações para uma lição de vida?
Para Sócrates, a virtude nada é senão um meio para obter coisas boas (prazerosas) e, consequentemente, a felicidade se sustenta na ideia de que a virtude está presente em todos os discursos do espírito que eleva o homem ao status de sábio e sensível, imanente da felicidade; dessa forma, chega-se à tese da identidade entre virtude e felicidade.
A felicidade não requer poder de compra adicionada à virtude, e, em todos os casos, o homem sábio, independentemente da riqueza, é mais bem-sucedido que o ignorante (Platão); que se deixa levar no discurso sedutor da comunicação massificada. Nesse sentido a sabedoria genuína (moral socrática) nunca erra, é sempre bem-sucedida; A sabedoria pode ser vista como condição necessária e sucedente para a felicidade. A sabedoria é necessária e sucedente para o uso correto e bem-sucedido das coisas: A sabedoria é o único bem e a ignorância é o único mal (Platão).
2. Na plataforma de cunho teológico, a relação do homem existencialmente, temporalmente e espacialmente situado no mundo com o transcendente, ou numa linguagem religiosa, pode-se falar numa relação de partes entre a criatura e o seu Criador, o “Totalmente Outro”. Interessante aspecto podemos propor na abordagem do eu interior a partir do outro quando se percebe que a minha felicidade também está na felicidade do outro. Estudos recentes demonstram que faz bem praticar o bem. Para fechar nossa proposta reflexiva, uma música que é um verdadeiro poema cantado à felicidade - Trem-Bala, de Ana Vilela.
Não é sobre ter todas as pessoas do mundo para si. É sobre saber que em algum lugar alguém zela por ti; É sobre cantar e poder escutar mais do que a própria voz; É sobre dançar na chuva de vida que cai sobre nós. É saber se sentir infinito, Num universo tão vasto e bonito, é saber sonhar. Então fazer valer a pena Cada verso daquele poema sobre acreditar. Não é sobre chegar no topo do mundo e saber que venceu É sobre escalar e sentir que o caminho te fortaleceu É sobre ser abrigo e ter morada em outros corações E assim ter amigos contigo em todas as situações A gente não pode ter tudo. Qual seria a graça do mundo se fosse assim? Por isso, eu prefiro sorrisos E os presentes que a vida trouxe para perto de mim. Não é sobretudo que o seu dinheiro é capaz de comprar. E sim sobre cada momento, sorriso a se compartilhar; Também não é sobre correr contra o tempo para ter sempre mais Por que quando menos se espera a vida já ficou para trás, Segura teu filho no colo, Sorria e abraça os teus pais enquanto estão aqui Que a vida é trem-bala, parceiro E a gente é só passageiro prestes a partir. Segura teu filho no colo, Sorria e abraça os teus pais enquanto estão aqui, Que a vida é trem-bala parceiro. E a gente é só passageiro prestes a partir
Para concluir uma provocação: Pois então, uma pergunta: O que fazer para ser feliz? 
Filosoficamente é muito simples. É maravilhar-se com a vida e os seus milagres cotidianos, como o nascer do sol num dia de primavera, de intenso céu azul ou abrir os olhos para perceber a beleza da natureza florida e o movimento dos pássaros: - De forma bem resumida essa pode ser a máxima expressão da felicidade! Até porque a felicidade não é um fim, competição para alcançar a qualquer preço, aliás, filosoficamente é fácil perceber se você está prosperando é porque encontrou sentido no próprio caminho do dia a dia e na correria do cotidiano, embora competitivo, não coloca o outro como rival e distante, mas para ver e sentir como alguém próximo. A fonte da prosperidade, talvez esteja na imanência que transcende ao interpretar e valorizar o sorriso de um amigo, o sol ou a chuva que te espera quando levanta da cama.
Pense bem: O primeiro passo para perceber a felicidade é o fato de parar para meditar a existência, enfim, fazer uma leitura do ser e estar vivo, porque nossa vida é nossa bem mais precioso. A nossa vida é o ponto de partida da prosperidade e alcançar o equilíbrio entre TER/SER é o verdadeiro milagre da FELICIDADE: Eu digo isso com a experiência dos meus 56 anos, das 3 pontes (2 safenas, 1 mamária) colocadas em meu coração. Por isso, conserve ou reencontre a inocência da juventude que nos fez maravilhar-nos por quase nada. Se a conservarmos, teremos sempre a chama da esperança que nos fará concretizar nossos objetivos enquanto percorremos nossa jornada existencial. Devemos maravilhar-nos com todas as manifestações da vida, dos seres humanos, dos animais, das plantas, que são também uma das múltiplas formas de vida. Para refletir, conclusivamente, sobre os dois lados do mundo:
Você é um daqueles a quem se chama feliz? Pois bem, você está triste todos os dias. Cada dia tem uma grande amargura e um pequeno cuidado. Ontem tremia pela saúde de alguém que é caro, hoje receia pela sua; amanhã será uma inquietação de dinheiro, depois a diatribe de um caluniador ou a infelicidade de um amigo, mais tarde o mau tempo que faz, qualquer coisa que se quebrou ou se perdeu, uma vez um prazer que a sua consciência e a coluna vertebral reprovam, outra vez a marcha dos negócios públicos. Isto sem contar as penas de coração. E assim sucessivamente. Uma nuvem que se dissipa e outra que se forma logo. Apenas um dia em cem de plena felicidade e cheio de sol.
 E sois desse pequeno número que é feliz! Quanto aos outros homens, envolve-os a noite estagnante.
 Os espíritos refletidos usam pouco desta locução: os felizes e os infelizes. Neste mundo, evidentemente vestíbulo de outro, não há felizes.
 A verdadeira divisão humana é esta: os iluminados e os tenebrosos. (Os miseráveis, de Vitor Hugo).
Finalmente, prosperar é estar em contínuo processo de fluxo interior em forças de equilíbrio entre SER/TER ao ponto de ser capaz de encontrar tempo, ó tempo Rei, para ver e admirar o nascer e o pôr do sol, para sentir-se melhor simplesmente porque viu uma flor ou, sorrir por dentro quando está diante de uma paisagem bucólica ou simplesmente andando ao lado de uma corrente de água. Só aí realmente poderemos sentir que somos Iluminados interiormente quando conscientemente vem a sensação de que estamos conservando a inocência de uma criança por dentro enquanto exteriormente florescemos energias positivas e tudo ao redor fica mais colorido ao brilho da essência interior.
 
Pensemos, todos, nisso!
 
Alberto Carlos Paschoaletto
Coluna: (CONS)CIÊNCIA & VIDA
                                                                                                   Caminho Livre pelo Pensar Filosófico.
                                                                                                       Jornal Tribuna do Guaçu
 
 
[1] Professor Universitário, com graduação em Ciências Jurídicas e Sociais; pós-graduação em Gestão Empresarial, Psicologia Organizacional e do Trabalho; Mestrando em Desenvolvimento Sustentável e Qualidade de Vida.
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Alberto Carlos Paschoaletto é Professor Universitário, graduado em Ciências Jurídicas e Sociais; pós-graduação em Gestão Empresarial, Psicologia.

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