07/08/2021 às 09h01min - Atualizada em 07/08/2021 às 08h57min

ESTRELA DA MANHÃ

    Era madrugada quando ela chegou, por isso recebeu o nome de Taina-kan, que significa estrela da manhã ou luz do amanhecer, em Tupi-guarani. Eu nunca tinha assistido a um parto antes e, confesso, estava bem apreensiva. Eram gêmeos, ela e seu irmãozinho Kazuo. Ela veio primeiro, mostrou personalidade forte desde o seu primeiro momento.
    Era madrugada, quando ela chegou. Agora, quando escrevo artigo, é fim de tarde e ela está indo embora. São 17 anos de amor, companheirismo, fidelidade, mas, o tempo de sua partida chegou e nem sei dizer o quanto isso é dolorido. Se pudesse, daria um pouco do sopro da minha vida para que ela ficasse mais, ficasse bem. No entanto, seu corpo está debilitado, ela já não se levanta, seus órgãos estão parando de funcionar, sua respiração está ofegante e, a qualquer momento, meus ouvidos ouvirão o seu último suspiro...
   Ela foi minha guardiã. Tinha um zelo extremo por mim e pelas coisas que me pertenciam. Na sua companhia, eu sempre podia me sentir segura e protegida. Era dócil e delicada comigo, mas, do balacobaco com quem se aproximasse com intenções que sua percepção entendia como ruins. Ela era possessiva e, como eu tinha muitos cachorros, ela fazia de tudo para chamar a minha atenção, virando de barriga para cima, pulando na frente dos outros ou afastando-os com seu rugido de leoa (pelo menos acho que era assim que ela se via, uma leoa!). Quantas histórias nós temos juntas, quantas aventuras!
    Houve um período na minha vida, que adentrei a noite escura da depressão, uma longa noite escura que levou quase cinco anos para amanhecer. Foi nessa época que ela chegou. Primeiro veio a sua mãe, Chiquinha e a sua tia Flor. Eu já tinha a Preta, o Chicão e o Xangai. Com as duas vira-latinhas resgatadas da rua, achei que minha prole já estava completa. Mas, que! Veio a Taina e seu irmão, que morreu com poucos meses, e a senhora sua mãe tomou gosto por parir e, até que eu conseguisse castrá-la, trouxe ao mundo mais duas ninhadas de lindos cachorrinhos e, de uma hora pra outra, me vi com dezessete cães!
    Uma loucura, mas foi essa loucura que me trouxe de volta à normalidade. Todos os dias, mesmo sem vontade e baqueada pelo coquetel de remédios que as pessoas com depressão sempre tomam, eu me obrigava a me levantar da cama para cuidar deles. Não dava ração, cozinhava a comida deles, arroz com frango ou retalhos de carne e legumes picados. Todos os dias, dois panelões iam para o fogão, enquanto eu cortava metodicamente os legumes e ia cozinhando a minha própria tristeza, às vezes derretida em lágrimas que meus bebezinhos lambiam.
     Foi assim que me curei e tomei gosto pela vida novamente, amparada por uma matilha de anjos de quatro patas, muitos dos quais já partiram. Da família da Taina-kan partiu a mãe, a tia e todos os irmãos, exceto Maria das Dores e Maria Amélia, que estão com 15 anos e permanecem fortes e lindas aqui ao meu lado. Já mudamos de casa e de cidade várias vezes. Mudamos de profissão, de estado civil e de realidade, e elas sempre ali, fazendo companhia e envelhecendo comigo. Pena que se eu, como ser humano, tenho a estatística prerrogativa de viver por volta de uns 70 anos, se nenhum acidente, vírus ou outra intercorrência me levar, não acontece a mesma coisa com eles.
    A Taina está se despedindo de mim aos poucos. Foi emagrecendo, perdendo a audição, ficou com dificuldade para andar e, nos últimos meses, já não consegue comer ou beber água sem a minha ajuda. Nos últimos dias, já não come. Tento dar uma papinha de ração na mamadeira, mas, quase sempre ela rejeita e, se a forço, ela devolve em seguida. Apenas água e soro, delicadamente servidos no cantinho de sua boca com uma seringa, ela ainda aceita. Ela já não ouve, não anda e suponho que não enxergue, mas, ela me percebe. De dia, enquanto cuido das coisas da casa, a mantenho na sala, quando vou trabalhar, coloco o seu colchãozinho ao lado de minha mesa e à noite a deixo bem ao lado de minha cama. Ela acorda muitas vezes e geme, então eu coloco a mão em sua cabecinha magra ou seguro sua patinha e ela se acalma. Sua debilidade vai aumentando a cada dia, é possível vê-la definhar. O ultrassom detectou uma séria infecção num pedacinho do seu útero que foi esquecido na castração, necessitaria de cirurgia, mas não aguentaria a anestesia. Nem os antibióticos ela está aguentando.
     Uma pessoa mais prática poderia optar pela eutanásia, mas eu não sou detentora do poder da vida e da morte, então, a própria vida terá de cuidar disso e creio que não demorará. Sua respiração está cada vez mais difícil, seu coraçãozinho mais acelerado, seus movimentos tolhidos pela letargia. Agora, é a minha vez de cuidar dela, é o meu momento de retribuir a esse doce anjo todo o bem que ela me fez, toda a proteção que ela me deu, todo o imenso amor que ela me dedicou e farei isso, mesmo tendo de mudar minha rotina, acordar inúmeras vezes à noite, a cada suspiro mais alto ou tentativa de gemido.
     Cuidarei, protegerei e a amarei em cada segundo que a vida lhe conceder. E ela sabe. Eu sei que ela sabe. Talvez ela não entenda que eu já posso me cuidar sozinha, aliás, nem estou sozinha, tenho o meu amor, as irmãzinhas e os outros peludos que vieram depois dela. No entanto, ela é única, essa radiosa estrela da manhã que vai se apagando no ocaso de sua vida. Esse é um amor que só entende quem experimenta e, quem não experimenta, talvez perca a oportunidade de conhecer o amor mais verdadeiro que se possa ter na vida.
 
 
Link
PALAVRA DE MULHER

PALAVRA DE MULHER

Isa Oliveira é formada em Letras pela USP e autora dos livros “Elogio à loucura” e “O chapéu de Alberto”.

Relacionadas »
Fale pelo Whatsapp
Atendimento
Precisa de ajuda? fale conosco pelo Whatsapp