01/08/2021 às 14h45min - Atualizada em 01/08/2021 às 14h43min

A Literatura e seu papel de construtora de juízos estéticos e intercessora da totalidade do humano.

PASCHOALETTO[1], Alberto C.

    Nobre Leitor, o primeiro ponto que se propõe ressaltar neste texto é que ele foi desenvolvido para pensar e ressaltar a importância dos projetos literários, como construtores de referências de juízos estéticos ou pelo menos tentar iniciar um espaço para abordagem de uma “nova” compreensão da literatura, especialmente a brasileira: - Primeiramente coma arte da palavra! Podemos dizer que Literatura, assim como a língua que ela utiliza, é um instrumento de comunicação e de influência mútua, portanto social, e ela desempenha o papel de perpetuar os conhecimentos e a cultura de uma comunidade, através do compartilhamento do pensamento que se comunica por escrito. Nessa abordagem a literatura está eternizada à sociedade em que se abrolha, assim como todo tipo de arte, onde o artífice não consegue ser apático à realidade. Eis aqui o contexto do título desse texto, calma lá que eu explico: Dá-me tua mão (condição gregária do ser, um depende do outro) se a minha está para escrever a tua está em folhear o texto ou um livro, mas cada qual se completa no outro, assim não haverá mão que escreve sem que exista a mão que apanhe para leitura; pois bem, mas ainda cabe aqui a ideia de que não se comprimam as entrelinhas como não afaste de ti, nobre leitor, minha narrativa textual ... pois a ti pertence o contexto, mas mesmo assim que você não abandone o que está nas entrelinhas que entra aqui a hermenêutica e exegese.... calma lá que eu explico: Enquanto a Hermenêutica é a ciência da interpretação das palavras e dos textos, a exegese é a explicação crítica, a interpretação, o comentário ou a dissertação sobre o sentido das palavras, das construções gramaticais e dos condicionalismos históricos dos textos em análise. Então, cúmplices escritor e leitor. Com esse mesmo título pretendo discorrer esse tema juntamente com convidados em Colóquio/Café filo literário no transcorrer do mês de agosto, em plataforma online (virtual) ou se for possível ao vivo, em local que divulgaremos mais próximo da data. Pois bem, voltemos, pois, ao segundo ponto de justificativa do título: Nesse painel aprofundarei mais nas ideias da imortal patronesse, Clarice Lispector, pois a cadeira que represento na Academia Guaçuana de Letras é justamente dessa expoente da Literatura, nascida em 1926 na Ucrânia e, ainda pequena, mudou-se com a família para Recife, Pernambuco. Mais tarde, veio para o Rio de Janeiro, onde estudou Direito. Durante a Segunda Guerra Mundial, trabalhou em Nápoles, Itália, no hospital da Força Expedicionária Brasileira. Após a guerra, morou na Suíça e nos Estados Unidos. Seu primeiro romance, Perto do coração selvagem, escrito quando ainda aos 17 anos, publicado em 1944 e lhe agraciou com o Prêmio Graça Aranha. No legado de sua obra percebe-se um uso intenso da metáfora, um ambiente íntimo em ruptura com a realidade, mas sempre baseada em fatos, principalmente em dois grandes livros A paixão segundo G. H. e Uma aprendizagem ou (O Livro dos prazeres). Então, uma vez revelado a fonte inspiradora desse texto:
 
Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.
Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.
 
 Toda obra literária é resultado das relações dinâmicas entre escritor, público e sociedade, porque através de suas obras o escritor (artisticamente) transmite seus sentimentos e ideias do mundo, levando seu leitor à reflexão e até mesmo à mudança de posição perante a realidade, assim a literatura auxilia no processo de transformação social. Pois bem na obra de Clarice Lispector se destaca a exaltação da vivência interior e alternância do psicológico para o metafísico. No plano ontológico, Clarice abrolhou o embate entre uma consciência e um corpo, em estado de materialidade neutra. Em suas entrelinhas podem ser identificadas várias crises: do personagem-ego na constante busca consciente do supraindividual do ser vento ou ventania; da narrativa, através de um estilo inquisitivo; da análise de sua obra podemos ensaiar que Clarice parte do romantismo como substrato de apoio da educação existencial e deve ser compreendida sem os dogmas e mitos do senso comum, ou como já disse no próprio título para não comprimir as entrelinhas... enfim, entender seu gênio intelectual através da relação entre sucesso e  ego, e, a busca escapista da transcendência para uma vida significativa. Peguemos, como exemplo, a criança que nasce tábula rasa, onde cada dia avança mais um degrau na consciência de si.... mas o despertar da criança para a maturidade consciente não é assim: deitou uma noite, criança, e acordou no outro dia, adulto. São processos que se fundem desde o momento do nascimento onde o bebê ainda inconsciente de si, mas uma extensão da mãe, como num único ser, pois naquele momento de ruptura da placenta com o útero ainda não existe uma consciência, existe uma extensão, um ser que se separou de uma parte maior e ainda não alcança a própria concepção de si mesmo. Interessante, mas a primeira causa da qual ela se torna consciente não está nela mesma; a primeira causa da qual ela se torna consciente está no outro, no pai e na mãe. Isso é natural, porque os olhos se abrem para fora, as mãos tocam os outros, os ouvidos escutam os outros, a língua saboreia a comida e o nariz cheira o exterior. Todos esses sentidos abrem-se para fora. O nascimento é isso. Filosoficamente, proponho entendermos que o nascimento significa vir a esse mundo, enfim, o mundo da externalidade. Assim, quando uma criança nasce, ela nasce nesse mundo. Ela abre os olhos e vê os outros. O outro significa, seguindo a lógica do pensamento buberiano, o tu. Ela, criança, primeiro se torna consciente da mãe. Então, pouco a pouco, ela se torna consciente de seu próprio corpo. Esse também é o “outro”, também pertence ao mundo. Ela está com fome e passa a sentir o corpo; quando sua necessidade é satisfeita, ela esquece o corpo. E, é dessa maneira que a criança cresce: sobrevivendo, satisfazendo cada etapa da sua frágil existência. Primeiro ela se torna consciente do outro, enfim, do tu, e então, pouco a pouco, no contraste com o outro, ela se torna consciente de si mesma e essa consciência é uma consciência refletida. Ela não está consciente de quem ela é. Ela está simplesmente consciente da mãe e do que ela pensa a seu respeito. Se a mãe sorri, se a mãe aprecia a criança, se diz “como você é linda”, se a mãe abraça e a beija, a criança sente-se bem a respeito de si mesma. E, assim, no âmbito da psicologia um ego começa a nascer. Lembrando que cada ser é um conjunto das partes biopsicossocial e espiritual. Pois bem, caro leitor, através da apreciação, do amor, do cuidado, a criança sente que tem valor, ela sente que tem importância na relação com o outro. Assim, filosoficamente, um centro do universo está nascendo juntamente com a criança, no despertar da parte psicossocial. Mas, nesse momento, esse centro é um centro refletido, e não é o ser verdadeiro. A criança não sabe quem ela é, pois ela simplesmente sabe o que os outros pensam a seu respeito. E esse é o ego: o reflexo, aquilo que os outros pensam dela. Se ninguém pensa que ela tem alguma utilidade, se ninguém a aprecia, se ninguém lhe sorri, então, também, um ego nasce - um ego doente, triste, rejeitado, como uma ferida, sentindo-se inferior, sem valor. Isso também é ego. Isso também é um reflexo, só que nesse caso, um reflexo sombra e sem luz própria. Portanto, filosoficamente não haverá transcendência para uma vida significativa e plena. Vejamos que a mãe, no início da vida de uma criança significa o Universo, seu útero para o feto o mundo até que se faça vida (luz) ao sair do útero para ganhar o mundo e universo exterior. Depois os outros se juntarão, tais como a mãe e o pai e assim mundo irá crescendo. E quanto mais o mundo cresce, mais complexo o ego se torna, porque muitas opiniões dos outros serão refletidas na criança. Assim, podemos entender o ego como um fenômeno cumulativo, um subproduto do viver com os outros. Se uma criança vive totalmente sozinha, ela nunca chegará a desenvolver um ego, que é uma necessidade, enfim, que completa a parte pela percepção do outro e assim se chega ao conhecimento do todo. E, acredite nisso: Temos que passar por ele (ego). Ele é um percurso que leva ao nível de Consciência e a verdade só pode ser conhecida através da perspectiva do todo (ilusão). Você não pode conhecer a verdade diretamente, pois que você se dissolve no todo caso não tenha a percepção de si. Primeiro você tem que conhecer aquilo que não é você para depois se perceber enquanto indivíduo. Esse é o grande desafio para quem se propõe ler e estudar Clarice Lispector. Seus textos são provocativos e muito reflexivos, mas, exige uma extensão de estudo para que não se comprimam as entrelinhas... e, essas entrelinhas lispectorianas são simplesmente geniais, ou como ela mesma diria: A Perfeição
 
O que me tranquiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
 
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
 
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
 
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
 
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.

 Pensando bem, caro leitor, o mundo não está interessado em você, se deixares o mundo ele continuará normalmente, e até seus amigos e familiares depois de algum tempo tocarão a vida novamente (pó ao pó). O mundo tem interesse na sociedade que está interessada nela mesma e é assim que deve ser. Eles não estão interessados no fato de que você deveria se tornar um conhecedor de si mesmo. Interessa-lhes que você se torne uma peça eficiente no mecanismo da sociedade. E, filosoficamente, você deverá ajustar-se ao padrão social pois é um ser social, simples assim: estão interessados em dar-lhe um ego que se ajuste à sociedade. Ensinam-lhe a moralidade. Moralidade significa dar-lhe um ego que se ajuste à sociedade. Se você for imoral, você será sempre será um desajustado em um lugar ou outro...pense nisso! Moralismo significa simplesmente que você deve se ajustar à sociedade. Se a sociedade estiver em guerra, a moralidade muda. Se a sociedade estiver em paz, existe uma moralidade diferente. Filosoficamente a moralidade é uma convenção política e social, enfim, transita no âmbito da diplomacia ao que chamarei aqui de “Verniz”. E, toda criança deve ser educada de tal forma que ela se ajuste à sociedade; a sociedade está interessada em membros eficientes, essa é a verdade nua e crua: a sociedade não está interessada no fato de que você deveria chegar ao autoconhecimento, longe disso, a sociedade cria um ego porque o ego pode ser controlado e manipulado. O eu interior nunca pode ser violado, controlado e manipulado. Nunca se ouviu dizer que a sociedade estivesse controlando o eu interior - não é possível. Aliás, troquemos pois o termo controlar por seduzir e chegaremos, oxalá, ao pretendido e tão almejado sucesso! Refutemos, pois, as armadilhas da vaidade e do ego. Aí está a resposta filosófica para o sucesso! Dizer: Sou, Fiz, Falei, deve ser sem medo, não podemos dar consentimento para que o outro leve uma parte de mim, como numa abdução em subtrair-me de mim mesmo, entende? Por isso, rendemos significativa simpatia na vida e obra de Clarice Lispector para então propor que pensar no sucesso é resumir-se como a criança que necessita de um centro; a criança está absolutamente inconsciente de seu próprio centro. A sociedade lhe dá um centro e a criança pouco a pouco fica convencida de que esse é o seu centro, o ego dado pela sociedade no controle sobre quem você é, senão vejamos:
 
  • Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro. Tenho meus limites. O maior deles é meu amor-próprio.
  • Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.
  • Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania. Depende de quando e como você me vê passar.
  • Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.
  • Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.
 Conclui-se nesse pequeno trecho (mosaico de frases acima) que não importa o que a sociedade pensa sobre quem sou, minha força está na solidão (para quem está em paz consigo mesmo é o regozijo da alma) e o que importa é quem eu sou (a partir das minhas próprias escolhas) mas se for para estar acompanhado por outras pessoas que seja pelas pessoas que me aceitam exatamente assim, porque somos todos iguais em nossa falível condição humana e nos respeitamos em nossa liberdade pois o que desejamos ainda não tem nome mas que tem a leveza da brisa como também a força de uma ventania...
 ...Dá-me tua mão Clarice - "Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome" e esteja onde estiver na amplidão do Universo Cósmico de alguma forma estaremos todos nós ligados pelos princípios da correspondência para celebrarmos aqui neste mundão, belo e louco, onde a realidade contemporânea tem na literatura seu emulsificante que engrossa o caldo cultural que é justamente onde emergem as identidades e identificações nesse tempo marcado pela fluidez do diferente.
 
Pensemos Nisso!
 
 

[1] Professor Universitário, com graduação em Ciências Jurídicas e Sociais; pós-graduação em Gestão Empresarial, Psicologia Organizacional e do Trabalho; Mestrando em Desenvolvimento Sustentável e Qualidade de Vida.
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Alberto Carlos Paschoaletto é Professor Universitário, graduado em Ciências Jurídicas e Sociais; pós-graduação em Gestão Empresarial, Psicologia.

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