24/07/2021 às 12h05min - Atualizada em 24/07/2021 às 11h59min

Quais são os limites que te impedem de voar?

Quais são os limites que te impedem de voar?
    Quantas coisas você já deixou de fazer por achar que não conseguiria? Ou você é daquele tipo de pessoa que encara os obstáculos e vai em frente, mesmo quando as circunstâncias são adversas e parece impossível atingir o objetivo proposto?
Hoje, eu recebi do meu filho um pequeno vídeo de tirar o fôlego, um homem fazendo uma escalada sem cordas ou qualquer outro equipamento de segurança num desafiador paredão de pedra. O local, conhecido como “El Capitan”,  fica no Parque Nacional de Yosemite, na Califórnia, Estados Unidos, e tem 910 metros de altura. O alpinista é Alex Honnold, o pioneiro nessa escalada solo, tendo como equipamento apenas um par de tênis de solado antiderrapante e uma pequena bolsinha com giz, que ele usa para manter as mãos secas.
     A relação desse alpinista com o medo, ou melhor, com a ausência do medo, é tão impressionante que ele já foi objeto de estudo de neurologistas, na tentativa de entender o que acontece em seu cérebro que lhe permite um comportamento tão ousado e assustador. Fiquei fascinada pelo vídeo (até deixarei o link no final deste artigo para quem se interessar em assistir) e fui pesquisar um pouco sobre Honnold, um homem, aparentemente, sem nada de especial a não ser uma admirável disciplina, uma rigorosa e obsessiva rotina de treinamentos e uma alimentação natural. Alguém que ultrapassou os limites do imaginável, em uma escalada perigosíssima, que durou 3 horas e 56 minutos, um tempo bem inferior ao de outros alpinistas munidos de todos os equipamentos de segurança necessários a esse tipo de façanha. A escalada aconteceu em 2017 e mereceu até uma reportagem especial do National Geografic.
     Limite é aquele ponto além do qual não conseguimos ir, e conhecê-lo, ter consciência dele, é fundamental para nossa sobrevivência. Podemos ser ousados e desafiadores e tentar ultrapassar nossos limites, mas, muitas vezes, fazer isso, mais que um ato de coragem, pode ser um ato da mais pura estupidez. Relatos de tragédias e acidentes motivados por esse tipo de desafio existem aos montes.
     Por outro lado, se supervalorizamos esses limites, podemos nos tornar reféns deles e até mesmo de outras pessoas que, conhecendo-os, se utilizam deles para nos chantagear e tirar proveito. Um bom exemplo disso é a violência crescente contra a mulher, por parte de abusadores que, conhecendo a paixão e a dependência afetiva de suas companheiras, praticam contra elas atos abusivos que vão da violação de seus corpos, escravização  emocional, extorsão patrimonial até violências que, infelizmente, em muitos casos, culminam em assassinato.
     Nosso limite pode ser o medo, a preguiça, os escrúpulos (medo do que os outros vão pensar), condições físicas ou mentais, condições financeiras e tantos outros. A verdade é que cada um tem o seu e o grau de tolerância das pessoas, em situações semelhantes, varia ao infinito. Eu tenho um limite muito claro, que me impede de fazer algumas coisas que eu gostaria ou morar em determinados lugares. O meu limite não tem pernas, enxerga em infravermelho, tem língua bífida, presas afiadas e, venenosas ou não, têm o poder de provocar em mim a sensação de colapso iminente. Não suporto ver cobra nem em fotografia! Imagens de vídeo, nem pensar, só que, infelizmente, já deparei com mais de uma, ao vivo e em cores, tendo, inclusive, de cometer um “serpentecídio” alguns meses atrás.
     Eu amo a natureza e tive a oportunidade de morar em chácaras duas vezes, a última delas, em lugar paradisíaco, mas, a triste realidade de ter que dividir o espaço com esses seres rastejantes, me levou a devolver o imóvel, perder uma boa quantia de dinheiro do depósito de caução e ver morrer o sonho de viver perto do meu filho, cercada de montanha e natureza por todos os lados e, melhor, pertinho da capital. Sei que não iria ver uma cobra por dia, mas, o simples fato de ter visto uma, foi suficiente para me fazer ter pesadelos com elas pelos 15 dias em que tive de permanecer no local até encontrar outra casa para me mudar. Isso está além de mim, é maior que eu.
     E é exatamente aí que está o segredo do limite, algo que está além de nós, que é maior que nós. É admirável um esportista como esse Alex Honnold, que parece ter algo de especial, ou não ter o que é comum à maioria dos mortais, o limite do medo. Outros podem ter tentado e não ter conseguido ou talvez ninguém além dele tenha se arriscado a essa aventura tão peculiar. Mas, seja qual for o nosso limite, é muito ruim nos sentirmos bloqueados por ele, incapazes de realizar coisas que gostaríamos e até mesmo coisas que deveríamos fazer e para as quais nos tornamos completamente impotentes.
     Ao longo da vida, em muitas ocasiões, o  nosso limite é a fé, ou melhor, a vergonha de termos fé, o medo de parecermos ridículos, ultrapassados, fanáticos, inadequados e não pertencentes. Preferimos ser “iguais” e seguir as ondas do momento, que se sucedem, concêntricas e cada vez mais altas, como verdadeiros tsunamis que nos tragam e, quando vemos, já estamos afogados, engolidos por um mar que nem notamos que estava ali.
     A todos nós é imposto o mesmo desafio de Alex Honnold, escalar, sem cordas e equipamentos, a montanha de nossas iniquidades, de nossa arrogância, de nosso orgulho, de nossos vícios, de nossa ignorância. A grande diferença entre essa escalada íngreme e a escalada que ele fez, é que a montanha que precisamos escalar para vencer a nós mesmos tem muito mais que 910 metros e é fustigada por ventos muito mais impetuosos, porém, ao atingir o topo, diferente dele, não precisamos descer. É uma escalada que não tem volta e, no pico, em vez de drones e cinegrafistas, seremos recebidos e celebrados por anjos e por santos, que nos precederam e venceram o tentame.
    É uma pena que estejamos mais dispostos a vencer outras espécies de desafios e até mesmo a escalar assustadoras montanhas de pedra do que a nos abrirmos para a difícil, desafiadora, mas inigualável escalada rumo ao céu, num alpinismo que se chama santidade, do qual muitos hoje riem ou tacham de loucura e pouquíssimos estão dispostos a abraçar. Quais são os seus limites? O que, na verdade, te impede de voar?
 
https://drive.google.com/file/d/1-Wo2IlXzlnCHB9b5py0Zw0QEm98zH5-5/view
Link
PALAVRA DE MULHER

PALAVRA DE MULHER

Isa Oliveira é formada em Letras pela USP e autora dos livros “Elogio à loucura” e “O chapéu de Alberto”.

Relacionadas »
Fale pelo Whatsapp
Atendimento
Precisa de ajuda? fale conosco pelo Whatsapp