23/07/2021 às 11h19min - Atualizada em 23/07/2021 às 11h10min

Viés de consciência ética: O devir dos juízos estéticos e da vergonha na cara.

A essência do conhecimento é a Sabedoria. (Vasilis Ververidis/123RF)
PASCHOALETTO[1], Alberto C.

     Nobre leitor: O homem é um animal racional e foi assim que aprendemos desde primórdios do primário, mas encontrar indícios de bons exemplos que apoiem esta afirmação é como procurar agulha em palheiro, embora as notícias dos jornais, os corredores das escolas, das faculdades e até mesmo nos núcleos familiares é difícil constatar essa racionalidade. Pois bem, o objetivo deste texto é abordar a singularidade do pensamento de Félix Guattari ao que ele denomina "paradigma estético". Também conhecido como paradigma da estética ética ou de uma estética política, este paradigma pretende ser uma proposição, neste texto, não como uma proposta, mas para levantar a questão por um viés ético que abrange os mais diversos campos práticos das relações mediadas pela razão, ou que pelo menos deveria ser, objetivada e eficaz na solução de conflitos em suas mais diversas dimensões. Isto posto, demanda primeiramente analisar o que é estética, o que é arte e quem é o artista desse paradigma guattariano, incluindo ainda quais são os motivos, o cenário e as condições do problema que levou Guattari em formular esse paradigma, da arte à ética, para estabelecer uma nova forma de pensamento político, não partidário, mas em sua clássica definição da Polis grega do qual o pensamento objetivado pela ótica ética sempre mediadora de situações onde falta a noção mínima de subjetivação estética, ou seja uma ancora lançada em mares revoltos por uma falta de sensibilidade ao belo, pois sem essa, a ancoragem na subjetivação em aspectos puramente objetivados pela razão as pessoas cada vez mais buscam justificar suas loucuras envaidecidas de egos “embriagados” e inflados por uma falta de compostura estética que se expressa popularmente pelo jargão “vergonha na cara”.
    Primeiramente, vejamos aspectos de ordem semântica, extraído da Wikipédia: “Devir (do latim devenire, chegar) é um conceito filosófico que significa as mudanças pelas quais passam as coisas. O conceito de "se tornar" nasceu no leste da Grécia antiga pelo filósofo Heráclito de Éfeso que no século VI a.C., disse que nada neste mundo é permanente, exceto a mudança e a transformação. Sua teoria está em oposição com a de Parmênides, outro filósofo grego que acreditava que as mudanças ônticas ou os "tornar-se" que percebemos com nossos sentidos é algo enganoso, que há pura perfeição e eternidade por trás da natureza, e que esta é a verdade suprema. Na filosofia, a palavra "tornar-se" diz a respeito de um conceito ontológico específico que não deve ser confundido com a filosofia do processo, esta última indicando uma doutrina metafísica da teologia”. Resumindo a questão introdutória, podemos entender o devir como fluxo permanente e ininterrupto, atuante como uma lei universal que dissolve, cria e transforma todas as realidades existentes e que se materializa no vir a ser, tornar-se ou transformar-se.
    Já na questão do rizoma, vejamos o seguinte: é um modelo descritivo ou epistemológico na teoria filosófica de Gilles Deleuze e Félix Guattari que é uma espécie de pensamento imagético, que se opõe à forma tradicional de pensar e compreender a partir da perspectiva arborizada, organizada e concentrada em volta de si mesmo e das raízes. Levando em consideração a complexidade e o processo inerentes à vida, a imagem do pensamento rizomal proposta pelos autores possibilita uma compreensão mais ampla e fragmentada da vida, próximo a noção de rizoma que em botânica foi estudada como a estrutura de algumas plantas cujos brotos podem ramificar-se em qualquer ponto, assim como engrossar e transformar-se em um bulbo ou tubérculo; o rizoma da botânica, que tanto pode funcionar como raiz, talo ou ramo, independente de sua localização na figura da planta, servindo para exemplificar um sistema epistemológico onde não há raízes - ou seja, proposições ou afirmações mais fundamentais do que outras - que se ramifiquem segundo dicotomias estritas. Da Argumentação: Arrisco dizer que desde outrora a mídia brasileira utilizada pela indústria de massificação e alienação cultural e do consumo são totalmente cruéis com as crianças e estas vão influenciar seus pais e seus irmãos mais velhos e aí que a coisa pega. A resolução do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente considera abusivo a publicidade voltada para a criança e vejamos alguns péssimos exemplos do mercado publicitário e que têm travado uma briga acirrada com a nossa sociedade. Embora existe resolução que diz que toda a publicidade deve ser dirigida aos adultos mas vejamos alguns exemplos clássicos: O celular Beat Mix, da Samsung, vinha com as princesas da Disney e esta mensagem apelativa: “Agora todo mundo na escola vai te chamar de princesa”; Não basta ser errado, tem que ser bizarro: “Um menino tentando hipnotizar sua mãe dizendo: O Lucas precisa de todas as roupas e tênis de Renner”; Eu tenho, você não tem: “comercial antigo de tesouras para crianças com a turma da Disney”; Não esquece da minha Caloi “comercial antigo ensinando o filho a vencer o pai pelo cansaço ao encher o saco do velho para conseguir a bicicleta”.... perverso, não? Mas vejamos, que neste mundo do capitalismo B, onde estão juntos o joio e trigo, e quanto mais pesado for o nível do fardo de quem manipula informações e também joga com técnicas de manipulação coletiva maior será a insignificância dessas almas, pobres rotas alteradas da essência pela qual todo homem nasce, e, tudo para ganhar terreno, gradualmente, na questão central desse artigo: Sinal de Alerta – Estamos, cada vez mais vivendo uma falência da crítica e do pensamento livre e esclarecido e somando a isso em épocas de pandemia da Covid-19 pode ser crítico do ponto de vista filosófico. Arrisco dizer que estamos quase chegando ao ponto em que, por elogiar a racionalidade, uma pessoa é entendida como antiquada, como se, para seu infortúnio tivesse sobrevivido a uma era superada e ultrapassada. Tudo é espetáculo, até mesmo as igrejas estão espetacularizando e comercializando a fé. Enfim, para mim, tudo isto é deprimente, mas hoje em dia a aflição e a angustia é uma emoção inútil, evitada a qualquer custo. Rapidamente queremos afastar de nossas consciências das mazelas e perversidades de uma sociedade consumista e hedonista, como se fossemos livrar o peso de nossas consciências pelo esgotamento do nosso planeta frente ao consumismo espetacularizado. Nesse sentido, continuamos a explorar o mais fraco. Do ponto de vista filosófico na necessidade de evitar essas angustias, somos assim como fulanos (não citarei nomes, pois nem preciso fazê-lo), de que embora a insanidade daqueles que tiveram a chance de mostrar suas índoles, em posse do poder, e, isso é uma constante em todas as épocas, e, ainda bem que a humanidade sobreviveu a esses infortúnios promovidos pelos espetaculares sinais de distorção entre o ético e estético de alguns senhores, descompassados. Os excessos do nosso próprio tempo tornam-se mais toleráveis quando examinados contra o pano de fundo das loucuras do passado, onde os gladiadores proporcionavam prazer imediato à população que buscava na prática hedonista, espaço para extravasar suas angustias. Talvez o resultado deste esforço nos ajude a perspectivar o nosso próprio tempo, a vê-lo como não muito pior do que outras eras, em que os nossos antepassados viveram sem sucumbir à catástrofe: Estamos, sim, percorrendo em contramão com a história, enfim, retrocedendo por uma mesma estrada (espaço) dos nossos antepassados. O senso estético da vergonha na cara, no paradigma estético é a força que movimenta ações de enfrentamento da ostentação através do poder mediado pela ética puramente racional que concedem ao indivíduo possuidor, tutela legal, proporcionalmente ao tamanho da distorção desses valores sem qualquer senso de beleza. Aliás, são muitos exemplos que de longe não tem mais nada a ver com o simbolismo de um espírito cívico e patriótico. Do meu ponto de vista a nação brasileira é formada pelo trabalhador, pelo professor, enfim por brasileiros que acordam cedo e vão para mais um dia de trabalho, e, sofrem nas longas filas dos ônibus e dos bancos, mas que enfim praticam a cidadania no seu dia a dia. Cabe aqui ressaltar que somos um povo sofrido, mas alegre por sua natureza da própria árvore genealógica de outrora. Por favor, não deixem a verdadeira e autêntica ginga do futebol brasileiro morrer, a ginga da várzea, do domingo com cheiro de macarrão com frango assado que meus pais faziam enquanto o “Desafio ao Galo” entrava nas manhãs de minha casa.
     Cabe também ressaltar que em meio a volatidade do mundo atual a cultura também padece disforme sem noção de pertencimento. Onde estão os baluartes da ancestralidade cultural de nossa cidade? O que estamos ensinando sobre a própria história como base de constructos identitários autênticos e verdadeiros e sem as máscaras sociais de uma criança que não tem sequer as referências culturais do local onde vive? Quando jovens até meados dos anos noventa nossos relacionamentos se desenvolveram de maneira criativa e espontânea, mas, com o passar dos anos dois mim em diante a maturidade chegou e bateu à porta de um mundo onde a família, as relações humanas e tudo o que até então era sólido passou a ser liquefeito. Os relacionamentos e a convivência social foram se modelando de acordo com as influências e padrões culturais do meio social desfigurado em que vivemos na dimensão de uma consciência planetária, mas não podemos esquecer que vivemos em nossa cidade, tudo bem que estamos conectados como uma aldeia global, mas continuamos a comprar nossos pães no bairro onde vivemos. Aliás, esse é o chamado Paradoxo do Nosso Tempo, que segundo o texto de autoria do pastor Bob Moorehead, atribuído muitas vezes, de forma errônea, a George Carlin que em 2001 desmentiu ser o seu autor: “Vivemos, na era da informação, acessíveis pelo celular e online na internet, plugados o tempo todo à sociedade do conhecimento, mas, o tempo que teoricamente ganhamos com a tecnologia e a informação, não estão melhorando nossas vidas. Compensamos nossos sonhos não realizados bebendo, fumando e comendo demais. Gastamos nosso dinheiro sem planejamento e sem critério altruísta, consequentemente multiplicamos nossos bens e, proporcionalmente, reduzimos nossos valores. Fazemos do cotidiano da vida uma correria louca e aprendemos a sobreviver, mas não a viver. Através da malhação e da boa alimentação adicionamos anos à nossa vida e não vida aos nossos anos”. Na sociedade informada o conhecimento, como crença verdadeira justificada, eleva o Homem para um plano maior, um plano onde não existem paradigmas, bem como ideias certas ou erradas. A essência do conhecimento é a Sabedoria. Possuir o conhecimento é sentir-se liberto para pensar e repensar práticas e crenças, enfim, um estado da alma que eleva o pensamento do Homem que pensa, para um nível superior, onde, sábio não precisa ostentar seu conhecimento e, nem provar nada a ninguém. Enfim, reconhecer-se como pequeno, perante o grande arquiteto do Universo e da própria história do Homem. Somos uma parte do todo. E, na qualidade de parte, por maior que seja o nosso conhecimento, pertencemos ao todo. Lembre-se de passar o tempo “ganho” com as pessoas que ama, pois elas não estarão por aqui para sempre. Lembre-se de dar um abraço carinhoso num amigo, pois não lhe custa um centavo sequer. Lembre-se de dizer “eu te amo” à sua companheira (o) e seja acessível às pessoas que ama, seja caridoso e tolerante com as pessoas desconhecidas.
     Tudo o que fazemos, atualmente, é compulsivo. Até nas coisas boas exageramos. Veja, por exemplo, a onda e a febre do corpo sarado, através de horas de malhação em academias. Que vazio é esse que estamos procurando dar contorno para criar uma imagem do que somos? Não precisamos provar nada a ninguém, só de uma consciência livre de paradigmas. Afinal, só se ama o próximo partindo do amor próprio. Portanto, amar o próximo como a si mesmo implica em autoestima e autorrealização. Assim, o Homem acaba sendo aquilo que ele próprio concebe. “O ser humano se torna eu pela relação com você. À medida que me torno eu, digo você. Todo viver real é um encontro” (Martin Buber).
 
    Pois bem, nobre leitor: Como disse o poeta luso existencialista Fernando Pessoa: “Não se acostume com o que não o faz feliz, revolte-se quando julgar necessário. Alague seu coração de esperanças, mas não deixe que ele se afogue nelas. Se achar que precisa voltar, volte! Se perceber que precisa seguir, siga! Se estiver tudo errado, comece novamente. Se estiver tudo certo, continue. Se sentir saudades, mate-a. Se perder um amor, não se perca! Se achá-lo, segure-o! "Circunda-te de rosas, ama, bebe e cala. O mais é nada".  E, para filosofar: De longe Aristóteles, foi, tanto quanto humildemente sei o primeiro homem a declarar explicitamente que o ser humano é um animal, mamífero, bípede, dotado de mãos prenseis e com um cérebro volumoso e racional.  O seu motivo para defender tal ponto de vista não causa agora grande impressão; não era senão o fato de algumas pessoas serem capazes de fazer somas nas complexas tabelas da copa do mundo. Aristóteles pensava que há três tipos de alma: a alma vegetal, partilhada por todos os seres vivos, plantas ou animais, que se liga apenas a nutrição e ao crescimento; a alma animal, relacionada com a locomoção e partilhada pelo homem com os animais inferiores; finalmente a alma racional, ou intelecto, que é a mente divina, mas na qual os seres humanos participam em maior ou menor grau, na razão direta da sua sabedoria. É em virtude do intelecto que o homem é um animal racional. O intelecto manifesta-se de várias maneiras embora isso seja mais evidente no domínio da aritmética. O sistema numérico grego era bastante mau, o que tornava a tabela de multiplicação bastante difícil, de modo que só as pessoas mais inteligentes conseguiam fazer cálculos complicados. Hoje em dia, contudo, as máquinas de calcular fazem somas melhor do que as pessoas mais inteligentes, e, no entanto, ninguém argumenta que estes instrumentos tão úteis são imortais ou que funcionam por inspiração divina. À medida que a aritmética se foi tornando mais fácil, tornou-se menos respeitada. O resultado disso tudo, em nossa sociedade contemporânea, é que, estamos presos numa lógica perversa do consumo, do sou o que compro e veja lá com quem está falando. Penso, salvo melhor juízo, caro leitor, que como o espírito da época dos gregos já não nos permite exibir as crianças que sabem somar como prova de que o homem é racional e a alma, pelo menos em parte, imortal, procuremos então em outros lugares a felicidade que certamente não está no consumo, longe disso. Onde devemos procurar primeiro? Entre os distintos homens da política nacional, que tão triunfalmente conduziram o Brasil para um brasil em que se encontra atual? Ao nosso poder executivo federal que trouxe a indignação para nosso país e que se socorre no apoio de uma riquíssima indústria de massificação cultural ou eleitoral, sei lá? Daqui pra frente como devemos eleger nossos homens? Serão os homens de letras? Ou os filósofos? Ou quem sabe, relembrar que nossa Terra tem palmeiras, onde cantam os sabiás. Aliás, quero aqui fechar o texto dessa semana com um elogio para brasileiros como Antônio Gonçalves da Silva, mais conhecido como Patativa do Assaré, que foi um poeta, compositor e improvisador brasileiro. Até hoje é considerado um dos mais importantes representantes da cultura popular nordestina e dele cabe registrar com perfeita harmonia o fechamento da máxima que se pretendeu levar: “Eu sou de uma terra que o povo padece; Mas não esmorece e procura vencer. Da terra querida, que a linda cabocla De riso na boca zomba no sofrer; Não nego meu sangue, não nego meu nome; Olho para a fome, pergunto o que há? Eu sou brasileiro, filho do Nordeste, Sou cabra da Peste, sou do Ceará”. Considero, salvo melhor juízo do nobre leitor, que esses senhores estão presos em uma espiral muito negativa de devir malévolo e sombrio, e, estamos vivendo tempos de incertezas por conta da TRANSIÇÃO PLANETÁRIA denominada de novo normal ou como já falamos em texto anterior pelo acrônimo BANI. E aí a pergunta: O que fazer? Pensemos nisso e bora lá vivermos um dia de cada vez em nossa metamorfose ambulante, em vez de ter aquela velha opinião formada sobre tudo!
Abraços fraternais!
 
 

[1] Professor Universitário, com graduação em Ciências Jurídicas e Sociais; pós-graduação em Gestão Empresarial, Psicologia Organizacional e do Trabalho e pós-graduando em Filosofia e Desenvolvimento Interior.
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Alberto Carlos Paschoaletto é Professor Universitário, graduado em Ciências Jurídicas e Sociais; pós-graduação em Gestão Empresarial, Psicologia.

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