18/07/2021 às 16h53min - Atualizada em 18/07/2021 às 16h52min

Profissão: herói, mas pode chamar de professor...

    Nos primeiros meses da pandemia, em meio a uma longa quarentena e a incerteza de como ficariam as coisas, como seria a evolução da Covid, vendo o aumento crescente do número de pessoas contaminadas e de mortes, como muitos, parei para reavaliar a minha vida, rever os meus conceitos. Não digo que o resultado tenha sido uma mudança de rota, porque sou feliz com a vida que tenho, com as escolhas que fiz e com o resultado delas, mas, posso dizer que decidi retomar alguns sonhos que foram se perdendo no tempo e no desenrolar da vida real.
    Um desses sonhos, que chegou a ganhar ares de projeto, mas acabou engavetado, era o de ser professora. Depois de muita estrada percorrida, eu tive o privilégio de passar na Fuvest e entrar na USP aos 40 anos. Fui cursar Letras, acreditando que isso me ajudaria a me aperfeiçoar como escritora. Me enganei. Escrever não se aprende na faculdade. Lá se aprende regras, gramática, morfologia, sintaxe, filologia, linguística e se estuda, exaustivamente, o que outros escreveram. Mas, se a faculdade não me burilou a escrita, pelo menos me preparou para a docência.
    Porém, e sempre há um porém, eu era funcionária de uma estatal e o meu contrato de trabalho não permitia o acúmulo de funções, então, engavetei o projeto. O bacharelado em Letras da USP tem a duração de cinco anos e mais dois anos para a Licenciatura, que pode ser feita concomitante, a partir do terceiro ano. Como eu estudava e trabalhava, não consegui ter tempo livre para concluir as duas formações de uma vez, e continuei a Licenciatura depois de graduada. Foram seis anos e alguns meses. Considerando que entrei com 40 anos, já estava perto dos 50 e o cansaço me dominou. Faltavam apenas duas disciplinas quando uma estafa me levou a trancar a matrícula, que assim permaneceu até o Coronavírus abrir o cadeado da gaveta. Decidi voltar.
    O processo foi complicado, já tinha passado o período regulamentar, tive de entrar com um recurso e muita burocracia que não vem ao caso aqui, mas, finalmente, consegui retornar. As duas disciplinas se tornaram três, porque agora é obrigatório o curso de LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais), um desafio e tanto para mim. Bem, um semestre já foi e, das três disciplinas, duas já foram cursadas. Numa delas, Psicologia da Educação, eu precisei fazer um estágio e foi uma experiência formidável. O estágio foi bem simples: entrevistas com professores e o tema que escolhi abordar foi o ensino remoto.
    Quem já fez estágio sabe que nenhum aluno morre de amores por essa atividade e eu já beiro os 60 anos, então, é ainda mais chato, um mal necessário, poderia dizer. No entanto, quando comecei a organizar as coisas, contatar escolas, preencher a documentação exigida pela Diretoria de Ensino, formular as perguntas, não imaginei que a experiência seria tão extraordinariamente rica.  
    A escola que escolhi foi a Francisco Antônio Gonçalves, a FAG. Como não sou natural de Mogi Guaçu, conheço poucas coisas aqui. Minha primeira escolha foi a escola Waldomiro Calmazini, por uma questão de logística, pois ela fica a dois quarteirões da minha casa, mas, infelizmente, não fui aceita pela direção, essas coisas acontecem... Minha segunda opção foi a FAG, por uma razão romântica: meu marido estudou lá quando criança. Foi a melhor escolha que eu poderia ter feito. Essa escola é especial, ela tem um nível impressionante de organização e de comprometimento com os alunos, a equipe e os familiares e, sem dúvida, dar aula nessa escola deve ser muito bom.
    Entrevistei duas professoras de Língua Portuguesa,  Simone Zancopé, que leciona na FAG há 15 anos, e Rita de Cássia Zuliani, que faz parte da equipe há dois anos. Minha comunicação com a professora Simone foi apenas virtual, porém riquíssima. A professora Rita, eu entrevistei pessoalmente, e pude ver, em seus gestos e em sua fala, a exaustão pelo grande desafio das aulas remotas e em seus olhos o brilho inigualável da missão cumprida, da etapa superada, do desafio vencido. Essas duas professoras, que se reinventaram, aprenderam o novo, começaram do zero, se aventuraram num universo desconhecido e desafiador, não representam apenas a FAG, mas todos os seres humanos que exercem o ofício de herói, também conhecido pelo nome de professor.
    Quantos professores, de um extremo a outro deste país, conseguiram tirar nota máxima nessa difícil prova que os levou, de um dia para o outro, da sala de aula para a tela do computador e do celular? Quantos professores, além de dominar a disciplina que lecionam, tiveram de aprender outra forma de ensinar, trocando o giz pelo mouse, a lousa pelo teclado, os livros pelas mídias digitais? Eles aceitaram o desafio, estiveram presentes, firmes, determinados, com medo sim, inseguros sim, tensos, preocupados, muitas vezes sem equipamentos e sem o necessário apoio do governo, trabalhando, gratuitamente, muitas horas além de sua jornada, senhores de sua responsabilidade, da importância do que fazem e do que representam. Não puderam mais ir para a escola, no entanto, não abandonaram os seus alunos, não descuidaram do ensino, da educação, da solidariedade e, sobretudo, protegeram, incentivaram e ajudaram as crianças e os jovens a também superarem as suas dificuldades e as suas limitações.
    Como me disse a professora Rita, os estudantes de hoje são da geração do computador, da internet, mas isso não faz deles hábeis no domínio das ferramentas necessárias ao ensino remoto. Jogar, conversar no WhatsApp, assistir a vídeos no Youtube e pesquisar no Google não garante o necessário domínio dessa nova modalidade e, mais uma vez, os professores estavam lá, aprendendo para ensinar, porque o ensino é isso, um aprendizado constante.
Ainda vivemos sob o domínio da incerteza, não sabemos se seremos os próximos a serem colhidos pela Covid-19, e cada dia de vida representa uma vitória. Eu não desejo a morte, mas não a temo, sinto-me preparada para partir, no entanto, o contato com essas duas professoras, os seus relatos das dificuldades, da superação, da coragem de continuar, seja nas salas de aula ou remotamente, o amor que elas demonstram ter por aquilo que fazem, me fez desejar ter ainda um bom tempo pela frente para tentar me tornar um deles, para poder experimentar a inigualável sensação de, em meio a um mar revolto, cumprir o mágico papel de ser um farol a iluminar.
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PALAVRA DE MULHER

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Isa Oliveira é formada em Letras pela USP e autora dos livros “Elogio à loucura” e “O chapéu de Alberto”.

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