09/07/2021 às 17h12min - Atualizada em 09/07/2021 às 17h10min

​Por que somos tão apegados?

Isa Oliveira

     Já estamos vivendo há quase um ano e meio a realidade do coronavírus, tanto tempo que nem podemos chamar de nova realidade. No início, quando a cidade de Wuhan, na China, espantou o mundo com o severo isolamento a que submeteu os seus moradores, ficamos apreensivos e com medo. Não demorou para que nossos temores tomassem corpo e, um país após outro, o  vírus foi se espalhando para todas as partes do mundo e, como era de se esperar, chegou também aqui, na nossa pátria verde-amarela. E, de lá para cá, já presenciamos de tudo: mortes, tristeza, desespero, desemprego, fome, fake news, mega enriquecimento de alguns, extremo empobrecimento de muitos, mentiras, brigas e, o mais triste, corrupção até num fato tão elementar como a compra de vacinas, o que mostra que “Brasil acima de tudo e Deus acima de todos”, foi só um slogan sacrílego para inglês ver.
     Bem, mas não quero me ater às questões políticas. Já fiz o meu mea culpa pelo fato de – como milhões de brasileiros – também ter me deixado enganar pela sedução de um governo sério, centrado, com foco no bem. Qualquer coisa que eu pense ou diga sobre isso não vai alterar a realidade dos fatos, e não tenho mais saúde ou paciência para entrar em polêmicas e discussões vãs. Já comentei aqui que não voto desde 1989, é uma opção que fiz e que não mudarei, mas, isso não me impediu de simpatizar com um determinado projeto e de, com minhas palavras, influenciar outras pessoas a votarem no candidato que tem se mostrado o pior presidente que este país já teve. Não posso mudar isso, infelizmente. O que está feito, está feito.
     Mas, voltemos à pandemia. Quando as primeiras imagens chocantes da calamidade, como as de uma igreja cheia de caixões na Itália ou de corpos insepultos, deixados pelas ruas de Guayaquil, no Equador, chegaram até nós, quando começamos a experimentar o isolamento – embora muito pífio e diferente de Wuhan e de outras partes do mundo, boicotado pelo próprio chefe da nação, perdão, prometi que não falaria dele – bem, quando tudo isso foi acontecendo, ficamos perdidos, assustados, sem direção. Lembro que, numa conversa telefônica com o meu filho, eu lhe disse que acreditava que aquela situação iria mudar as pessoas, melhorá-las. Ele, que é um homem sábio, me disse: “Sinto desapontá-la, mãe, mas isso não vai acontecer. As pessoas que são boas, continuarão boas e as que são más, continuarão más e até pior.” Me choquei com as palavras dele, mas, guardei-as em meu coração.
     Muitas coisas mudaram, muitas pessoas adoeceram e sararam e muitas partiram, inopinadamente; algumas tão jovens, outras tão cheias de vida, que deu a impressão de terem morrido na véspera, na antevéspera ou muito antes do que deveriam morrer. Ontem, vendo uma notícia sobre os preparativos do carnaval para o ano que vem, mesmo diante de um futuro tão incerto, me lembrei  das palavras do meu filho e concluí que, de um modo geral, o foco das pessoas não mudou, suas preocupações, seus desejos e suas preferências, mesmo flertando diariamente com a morte, não se modificaram e muita gente não vê a hora de tudo isso passar para as coisas voltarem a ser como antes, embora seja claro e notório que, depois de uma ferida tão grande no corpo da humanidade, nada será como antes.
    Ontem, preparei um jantar simples, mas especial, decorei a mesa com esmero, abri um bom vinho e coloquei música francesa para agradar meus dois convidados, que moram na casa da frente, no mesmo quintal, portanto, não são visitas, mas pessoas de meu convívio diário. Foi uma noite memorável. A sopa de cebola gratinada ficou deliciosa, o vinho, embora barato, era de excelente qualidade, a convivência foi agradável e todos fomos dormir felizes. Hoje, enquanto tomava meu café da manhã, recebi uma das pessoas que participou dessa gostosa ceia e perdemos 45 preciosos minutos de nosso sagrado tempo numa áspera e desagradável conversa sobre herança. Então tive o mote para este artigo: Por que nos apegamos tanto às coisas materiais? Por que nem a Covid conseguiu mudar isso? Por que ver pessoas conhecidas, e até familiares, morrendo em curto espaço de tempo, não muda isso?
    A realidade da vida é que todos estamos aqui de passagem, chegamos indefesos e nus e, da mesma forma partiremos, com nosso corpo arrumado num caixão em cujo espaço exíguo não cabe nada além dele e algumas flores. Por que então, nos desgastamos tanto por coisas que deixaremos, por coisas que, para onde vamos, não temos como levar? E por que machucamos tanto as pessoas por essas coisas que, em verdade, não nos pertencem, são da vida, do mundo, da matéria?
     O desapego é uma das coisas que mais tento trabalhar em mim. Não tenho montanhas de sapatos, infinidade de roupas, não tenho joias – nem mesmo a tão sonhada aliança de ouro do casamento, que outras prioridades nunca nos permitiram comprar –, mas, isso não significa que eu não tenha apegos; sim eu os tenho. Um deles é a casa onde moro, uma construção que acompanhei “tijolo por tijolo num desenho frágil”, um lugar onde amo estar e, mesmo tendo ficado fora por algum tempo, para ele retornei e só espero sair daqui deitada, no momento da última e definitiva viagem. Preferia que não fosse assim, preferia não gostar tanto daqui, não ter apego a cada canto, a cada parede, a cada detalhe, isso, com certeza, me pouparia vários dissabores. Gostaria de ser desprendida o suficiente para morar num motorhome e andar por aí, numa casa móvel, sem criar raízes, um dia aqui, outro ali. Bem, com dez cachorros, isso fica um tanto difícil, mas, como eu, eles não serão eternos, então, quem sabe um dia eu consiga chegar a esse nível de desprendimento.
 O que me entristece é que, sendo seres espirituais revestidos de um corpo material e passageiro, nos ocupemos tanto daquilo pelo que temos sentimento de posse e façamos disso o lastro que nos segura. Ah, que bom seria se pudéssemos e soubéssemos viver como os pássaros, usufruir do necessário, abrir as asas e simplesmente voar...
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PALAVRA DE MULHER

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Isa Oliveira é formada em Letras pela USP e autora dos livros “Elogio à loucura” e “O chapéu de Alberto”.

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