20/06/2021 às 08h23min - Atualizada em 20/06/2021 às 08h21min

​DEUS OUVE TODAS AS NOSSAS ORAÇÕES?

    Há pessoas que rezam todos os dias, há pessoas que rezam apenas nos momentos de desespero e necessidades, outras que rezam quando lembram, quando dá, e outras ainda que não rezam nunca. Religião é uma coisa complexa e, embora devesse levar a todos para a mesma direção, comporta mais divergências que convergências. Até uma simples questão de palavras faz com que os fiéis divirjam, afinal, católicos rezam, evangélicos oram e espíritas fazem prece.      Diferentes formas de se referir à mesma ação, falar com Deus. A questão é: Deus ouve todas as nossas orações? Sinceramente, espero que não.
    Pode até parecer estranho, mas, pensem comigo, tem coisas que pedimos insistentemente a Deus e, quando as obtemos, descobrimos serem algo que mais nos prejudica do que nos ajuda. Ou, então, mudamos de ideia depois de fazer o pedido e, sejamos sinceros, mudamos muito de ideia – e com muita rapidez! Façam uma experiência, anotem os pedidos feitos durante um período de tempo e revejam a lista  um ano depois, é surpreendente como questões que pareciam de vida ou  morte se tornam completamente inadequadas e desnecessárias em pouco tempo. Claro, tem coisas que são verdadeiramente importantes e a possibilidade de receber ajuda a respeito delas nos dá forças para continuarmos e superarmos os maiores desafios, mas, se Deus nos desse tudo o que lhe pedimos, nossa vida poderia ser um desastre total.
    Rezar é importante, a própria Bíblia prescreve a oração e destaca, sobretudo, a importância de rezarmos uns pelos outros. Mas, até que ponto vai o poder de nossas orações? Conseguimos, rezando, mudar os acontecimentos e alterar o nosso destino? O caso da Covid é um bom exemplo para refletirmos sobre isso. A pandemia foi um acontecimento que exacerbou o sentimento religioso de muita gente e levou as pessoas a rezarem mais. Porém, como muitos, você já pode ter se perguntado se há algum critério que determine quem vai ser contaminado e quem não vai, quem vai vencer o Coronavírus e quem vai ser vencido por ele. Muitas pessoas piedosas e tementes a Deus foram contaminadas e, entre elas, muitas foram colhidas pela morte, ao passo que muitos ateus, zombadores da fé e pessoas sem religião sequer foram contaminados.
     É muito comum a pergunta “Onde está Deus?”, diante de pessoas que se preservavam, faziam a quarentena direitinho, não saíam de casa, usavam máscara se necessitassem ter contato com alguém, lavavam tudo o que vinha do supermercado e, mesmo assim, por um breve contato com algum portador assintomático, foram contaminadas e acabaram morrendo, como foi o caso da atriz Nicete Bruno e de muitos anônimos, mortos sem que ficássemos sabendo.
    Ao mesmo tempo, pessoas que saem por aí sem máscara, seguindo o desrespeitoso instinto negacionista do presidente da República, continuam imunes, assim como os jovens desvairados que não podem ficar um fim de semana sequer sem participar de uma festa clandestina e continuam saudáveis. Em casos assim, que peso e eficácia tem o poder insistente da oração? E, vejam bem, não falo como uma pessoa ateia ou do tipo que só recorre a Deus em casos extremos. Pelo contrário, eu sou uma mulher de oração e minha primeira ação de cada dia é sempre feita de joelhos. Apenas tento dar voz a tantos que fazem esse tipo de pergunta.
    Não consigo imaginar o que seria do mundo se não houvesse tantas pessoas que rezam, porque sem a fé, a esperança e a confiança trazidas pela oração, seríamos pessoas piores, caminhando a esmo, sem rumo e sem direção num mundo árido demais para a sobrevivência da espécie. Eu jamais afirmaria que Deus não nos ouve, mas, da mesma forma, não posso afirmar que ele ouve e atende todas as nossas orações, e é bom que seja assim, porque existe um direcionamento perfeito que rege o mundo e não seria dessa forma se tudo o que pedíssemos nos fosse dado. E, mesmo que Deus não nos ouça, é bom acreditarmos que ouve, para não nos sentirmos sozinhos e desamparados quando tudo ao redor parece caos, injustiça e desagregação.
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PALAVRA DE MULHER

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Isa Oliveira é formada em Letras pela USP e autora dos livros “Elogio à loucura” e “O chapéu de Alberto”.

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