02/05/2021 às 18h55min - Atualizada em 02/05/2021 às 18h50min

​Idas e vindas...

“Eu cheguei em frente ao portão, meu cachorro me sorriu latindo. Minhas malas coloquei no chão. Eu voltei! (Roberto Carlos)

Entre idas e vindas, eu voltei e, cantando com o Rei, “voltei, agora pra ficar, porque aqui, aqui é o meu lugar”. Só não posso dizer, como ele, que “tudo estava igual como era antes, quase nada se modificou.”, porque nada está como era antes, quase tudo se modificou. Tivemos lockdown, aumento no número de pessoas contaminadas e, infelizmente, muitas baixas.

Como aconteceu com o sujeito da música, meus cachorros também me sorriram latindo, mas, não do portão, e sim de dentro do carro, porque eles são dez e, trazer essa galera, mesmo em duas viagens, foi uma tarefa pra lá de exaustiva! Mas, no fim, deu tudo certo, eles sorriram, eu sorri, só não sorriu o gatinho da minha sogra, novo habitante do nosso quintal, que se mudou para cá na minha ausência.

Quando me mudei apenas de casa e de bairro, achei que seria temporário, mas, quando me mudei de cidade, acreditei ser definitivo, uma mudança sem volta. Ah, como nos enganamos com nossos próprios planos! Embora seja algo difícil ao nosso orgulho admitir, não somos senhores dos nossos destinos, rascunhamos de um jeito e a vida passa a limpo de outro...

Primeiro, me mudei para uma chácara em meio às montanhas de Mairiporã. Um frio para matar qualquer guaçuano de hipotermia! Quando a gente muda para um lugar novo, é normal os vizinhos virem fazer uma visitinha, oferecer um bolo, um quitute ou, ao menos, a solidariedade. Para onde me mudei, não foi diferente disso. Fazia muito pouco tempo que eu estava lá quando minhas vizinhas começaram a me visitar. Não me levaram bolo nem quitute, muito provavelmente porque não tinham mãos. E nem pernas. Vieram rastejando e foram se esgueirando quintal adentro, carregando apenas, por trás do sorriso e olhar matreiro, uma generosa dose de peçonha escondida por trás das presas salientes.

Uma dessas vizinhas, mais tímida, escafedeu-se antes que eu tivesse oportunidade de esboçar qualquer reação. A outra, mais confiada, talvez por já ser frequentadora assídua do lugar, se mostrou mais à vontade, espichada na grama, com seu metro e meio de comprimento, numa bela manhã de sol. Infelizmente, precisei matar aminha vizinha! Claro, me senti muito mal ao encontrá-la, e muito pior depois, afinal, matar serpentes é um crime ambiental e, embora não seja política, sou uma cidadã ficha limpa!

Mas, independentemente de ser crime ou não, eu fiquei mesmo foi com muito dó da bichinha. Montanhas e cobras são duas coisas que se coadunam, a invasora ali era eu, não ela. Então, para evitar que algum amigo ou familiar da dona cobra viesse procurar por ela ou tomar satisfações comigo, preferi me mudar, voltando para a civilização. Tinha sapos também, mas, como sou muito bem-casada, não arrisquei beijar nenhum deles para ver se virava príncipe.

Aluguei uma bonita casa na cidade, de uma cor azul-marinho que não deve existir outra da mesma cor no mundo. Um azul feio por bosta, como costuma-se dizer aqui no Guaçu, mas que, por ser tão diferente, dava à casa um ar exótico e, como ela ficava bem no alto, era vista de longe e se tornou uma referência: a rua da casa azul (para quem não conhece, Mairiporã é 90% constituída de morros e a expressão ladeira íngreme, lá, é lugar comum!).

Estava amando morar lá. Tinha verde suficiente para alegrar os meus olhos, porém, fora do meu quintal. Está certo que fui visitada por uma aranha ou outra e até mesmo por um tímido  escorpião (também falecido, não por meu enxadão, como a cobra, mas, por meu chinelo havaiana pau-pra-toda-obra), mas, embora não totalmente descartada, a possibilidade de cobras se aventurarem quintal adentro era mais remota. Porém...

Porém, uma casona bonita, azul da cor do infinito, com um morador que saía toda segunda de madrugada e só voltava na sexta à noite (meu marido continuou trabalhando aqui e, como trabalha na área de Educação, findo o home office integral, teve de retomar as funções presenciais) e uma moradora de cabelo branco que mal dava as caras na rua, acabou chamando a atenção de outros bichos peçonhentos, daqueles que carregam a peçonha nas balas de um revólver... E, numa calma madrugada, indivíduos habilidosos arrombaram a fechadura do portão de entrada e a portinha do relógio de luz, certamente com a intenção do conhecido golpe de cortar a energia e entrar na casa para roubar.  Só não contavam que, além da moradora de cabelos brancos e dois pacatos jabutis, na casa moravam também dez cachorros, que fizeram barulho suficiente para os ladrões estarem correndo até agora.

Assim, entre sapos, aranhas, escorpiões, cobras e ladrões, compreendi que a vida estava reescrevendo o meu enredo e que não me restava alternativa senão voltar. Ah, tinha também o fator saudade. Não me aventurei a casar aos 50 anos de idade para ficar morando sozinha numa cidade e o marido na outra. Isso a gente até pode fazer quando tem 20 anos e a vida toda pela frente, mas, aos 50, vivendo uma linda história de amor, a gente quer mais é aconchego, afinal, não estamos chegando no mundo, mas, sim, partindo dele. O tempo já não é nosso aliado e, cada instante de felicidade que perdemos, não tem volta, não tem bis.

Então, voltei. Parei em frente ao portão e, como na música, aqui também tinha braços abertos, mas, o desejo do abraço ainda precisou ficar contido, porque essa foi uma das coisas mais sagradas que o coronavírus nos tirou. Atravessei o quintal, passando pela casa do sogro e da sogra que, infelizmente, não pude abraçar, e cheguei na casa que tanto amo, que construí com tanto esmero.

Assim como o rapaz da música, “fui abrindo a porta devagar, mas deixei a luz entrar primeiro. Todo o meu passado iluminei, e entrei.” Meu retrato não estava na parede, mas, muitos sonhos e lembranças permaneciam pendurados ali, como a perguntar por onde andei e, cansada, com a roupa cheia de pelos, cheirando a baba e xixi de cachorro, respondi: “Onde andei não deu para ficar, porque aqui, aqui é o meu lugar. Eu voltei pras coisas que eu deixei. Eu voltei”

E daqui, agora só saio deitada e coberta de flores! Mas, espero que isso demore um bocadinho ainda, porque tudo aqui, neste lugar que aprendi a amar, é bom demais e não tenho nenhuma pressa em partir. Vou ficar.
 



 



 
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PALAVRA DE MULHER

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Isa Oliveira é formada em Letras pela USP e autora dos livros “Elogio à loucura” e “O chapéu de Alberto”.

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