12/06/2021 às 10h36min - Atualizada em 12/06/2021 às 10h31min

SOB A LUZ DO SEU OLHAR

    Este é o 112º artigo que escrevo para a Tribuna. Em muitos desses artigos, talvez na maioria deles, eu escrevo alguma coisa que se refere à minha própria vida, a acontecimentos que eu experimento ou à minha visão de mundo. Por que faço isso? Vou usar uma expressão muito em voga: este é o meu lugar de fala. É o que eu conheço e, partindo desse ponto, posso usar a minha Palavra de Mulher para tratar sobre qualquer assunto. Assim,  através de minhas próprias experiências, conceitos, dúvidas,  conhecimentos, certezas e incertezas, mesmo que pareça que eu fale de mim, na verdade, falo sobre tudo. Na semana passada, por exemplo, falando de um passeio pelo centro da cidade, parei sobre uma de nossas belíssimas pontes, viajei até a minha infância e, entre esses dois tempos – passado e presente – construí uma ponte de palavras para falar do rio Mogi Guaçu, ele sim foi o meu grande personagem.
    Contando minhas aventuras e desventuras, nesses 112 encontros que tive com vocês, meus caros leitores, já falei de medo, coragem, sucesso, fracasso, dúvida, fé, indignação, bichos, plantas, mudanças, sonhos, esperanças, afetividade, amizade, abandono, saúde, doença, vida, morte. Enfim, ao longo dos anos que ocupo este espaço, partindo de mim, falei sobre muitos de vocês, agradando, desagradando, desafiando, surpreendendo, errando, acertando. Hoje, não farei diferente, porque hoje falarei do amor e só posso falar do amor que sinto por alguém e do amor que sinto desse alguém por mim, então, eu peço licença para, neste Dia dos Namorados, homenagear o meu grande amor.
    A foto que escolhi para ilustrar este artigo, sem dúvida, é uma foto que qualquer noiva descartaria ao escolher as fotos para o seu álbum de casamento: ela está sem foco, a noiva de olhos fechados e com uma expressão que não a favorece. No entanto, ao ver as fotos do meu casamento, eu não apenas não a descartei, como é uma das fotos que eu mais gosto e mereceu até ir para um porta-retrato. Não importa se estou de olhos fechados, com expressão que não me favorece, o que importa para mim é o olhar do noivo, pois, foi esse olhar que me conquistou e continua me conquistando todos os dias.
   Esse olhar reflete um homem apaixonado, que não vê apenas a parte externa da mulher para a qual dirige seus olhos. Essa foto é o retrato perfeito do noivo, hoje marido e eterno namorado. É um olhar de quem diz: “Eu vejo você!” e completa: “Eu vejo você como ninguém mais vê!” Eu nem sei quantos foram os momentos em que eu estava brava, irritada, triste, desanimada, decepcionada, cansada, com a autoestima arranhada e fui salva por esse mesmo olhar. Um olhar que tem luz , uma luz que vai além, muito além do que os olhos comuns podem ver...
   Henrique Campos, meu amor, é fotógrafo, por esse motivo, tem um olhar diferenciado e consegue captar nuances que passam despercebidas para outras pessoas. Tem o mágico dom de enxergar os detalhes, o contraste entre sombra e luz, o traço de cor numa paisagem cinza. Ele tem um olhar que transforma, que transporta, que resgata, que ouve, que compreende, que ressignifica, que enternece, que acalenta. Um olhar que ama. E, para mim, é um privilégio sem tamanho ser olhada cotidianamente por esse olhar tão especial e único.
    O olhar desse homem é tão cheio de compreensão, de perdão, de misericórdia, de ternura, de carinho, que faz tudo o que toca se tornar diferente. Realmente é um olhar que ouve e um olhar que fala, que acalma, que completa. Um olhar que ama. Eu nunca me achei bonita e esse é um ponto que, de fato, não me preocupa,  no entanto, nos momentos mais inusitados, o dono desse olhar conseguiu captar, com a lente de sua câmera, poses, risos, expressões que traduziram completamente a minha essência. Fotos fabulosas, eu diria, porque nimbadas pela luz do seu olhar.
    E, claro, isso não acontece apenas com as fotos que ele tira de mim, todos que já tiveram a oportunidade de serem fotografados por ele sabem do que falo, mas, aqui, o mais importante não é destacar o seu talento profissional, o seu talento como fotógrafo, mas sim o que ele tem de melhor, o seu maior dom, que é o dom de amar e de compreender aqueles que ama. Eu nunca encontrei isso em ninguém, e me derreto ao ver a maneira como ele encontra solução para casos que parecem insolúveis, como ele consegue convencer as pessoas a esquecerem e recomeçarem, mesmo depois dos maiores fiascos ou tragédias, como ele transforma lágrimas em pérolas e risos em diamantes eternos, como ele apaga incêndios e realinha rotas.
    Sim, até hoje, ele olha para essa noiva de cabeça baixa e olhos fechados com essa mesma ternura, com esse mesmo encanto, com essa mesma admiração, com esse mesmo amor, mesmo que ela esteja desarrumada, desarvorada, desmantelada, cansada, desiludida e consegue trazê-la de volta para uma realidade mágica, porque é assim, completamente feita de magia, a nossa vida real. E hoje, meu amor, em mais um Dia dos Namorados, essa noiva, que muitas vezes resvala para a sombra e se perde na obscuridade de si mesma só lamenta uma coisa: ter demorado 50 anos para encontrar a luz do seu olhar! Te amo!
 
 
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PALAVRA DE MULHER

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Isa Oliveira é formada em Letras pela USP e autora dos livros “Elogio à loucura” e “O chapéu de Alberto”.

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