05/06/2021 às 20h21min - Atualizada em 05/06/2021 às 20h20min

Foi um rio que passou em minha vida...

Rio Mogi Guaçu (Foto Henrique Campos)
Caixa de texto: Rio Mogi Guaçu, foto Henrique Campos

Caixa de texto: Rio Mogi Guaçu, foto Henrique Campos

Numa agradável manhã de outono, andando pelas ruas do centro de Mogi Guaçu, passei sobre uma das bonitas pontes da cidade e me detive por alguns minutos, encostada na grade de proteção, perdendo meus olhos na contemplação do rio. Faz pouco mais de cinco anos que moro aqui, porém, esse rio, eu já o conheço há muito tempo. Lembro que era ainda bem menina quando ele me fascinou pela primeira vez. Ao passar de ônibus sobre uma ponte entre as cidades de Barrinha e Jaboticabal, eu perguntei para a minha mãe: “Por que a água anda?” e ela, com a sua paciência e sabedoria cabocla, me explicou o que era um rio, que ali, dentro dele, viviam peixes e outras criaturas e que, enquanto caminhava, ele ia levando tudo de ruim para bem longe. Como poeta iletrada que era, ela me disse, romanticamente, que o rio levava embora todas as nossas mágoas, que as lágrimas de todas as pessoas que choram se juntam às águas do rio e partem para bem longe. Não poderia haver uma descrição melhor para uma criança e lamentei que em Monte Alto, onde morávamos, não tivesse um rio para levar embora tudo de ruim e todas as lágrimas, sobretudo as de minha mãe.
Infelizmente, nunca consegui ver o rio de perto, apenas pela janelinha do ônibus, mas, meu encanto por ele foi tão grande que ele resolveu colher também as minhas lágrimas para, junto com suas águas caudalosas, levá-las para bem longe. Porém, como eu saí de um monte alto e fui morar no alto de um monte, em Atibaia, o rio não teve jeito de fazer um desvio para lá chegar, então, mandou que um dos filhos da cidade que leva seu nome fosse me buscar e eu, que nem sabia que tinha uma cidade com o nome de Mogi Guaçu, me vi mudando para cá e podendo apreciar bem de pertinho o meu velho amigo rio, com suas lindas pontes inglesas e a abundante vegetação que enfeita as suas margens.
Parada ali, naquela ensolarada manhã, recostada na grade vermelha da ponte, olhando meu riozão imponente passar, lembrei-me da música do Paulinho da Viola que diz: “Foi um rio que passou em minha vida e meu coração se deixou levar.”. Pensei na minha mãe, que hoje está num lugar onde não precisa mais de rios, pois todas as suas lágrimas secaram. Uma alegria bem morninha tomou conta do meu coração e pensei que, nesses últimos anos, só derramei lágrimas quando da partida de meus idosos e queridos cachorrinhos Gaspar, Flor, Brigite, Godzila, Belinha, Chumbinho e Nabuco, porque é natural que a morte nos faça chorar, no entanto, nunca mais chorei de tristeza ou solidão. Vivi em muitos lugares, experimentei as mais diversas emoções, mas, aqui, bem perto do rio que povoou o imaginário de minha infância, foi que eu descobri o sabor da felicidade verdadeira. Foi um rio que passou em minha vida e meu coração se deixou levar...
Não me senti constrangida e nem tive medo de me acharem biruta por estar ali parada, olhando para as águas avermelhadas do rio, porque ele é tão lindo que é comum as pessoas pararem sobre as pontes para admirá-lo e tem até um restaurante, todo de vidro, no qual a gente pode comer olhando para o rio e apreciando o voo das muitas espécies de pássaros que se aninham nas árvores das margens ou das garças que vêm pescar. O que é bonito tem de ser olhado e admirado mesmo, ainda mais um rio que a gente ama desde menininha e que só depois de velha pode tocar!
Pensei numa frase de Bertolt Brecht que estampava uma camiseta de meus velhos tempos de revolucionária: “Se diz violento o rio que tudo arrasta, mas não se dizem violentas as margens que o oprimem.”. Embora a frase seja muito bonita, como muitas outras coisas que Brecht escreveu, ela não é exata, porque as margens não oprimem o rio, elas apenas o contornam e o delineiam, dando-lhe a segurança dos barrancos para que ele possa fluir na direção destinada. Às vezes, o fluxo da água é muito grande e ele avança para além das margens, mas logo retorna e retoma seu curso, porque tem um destino e uma missão. Que nossa vida possa ser assim, fluída e certa como as águas de um rio, pois, como essas águas, tudo passa, inclusive nós; que não percamos, portanto, nosso rumo, nossa fluidez, nossa direção. Assim como as águas do rio, caminhar para frente é a nossa missão.
 
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PALAVRA DE MULHER

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Isa Oliveira é formada em Letras pela USP e autora dos livros “Elogio à loucura” e “O chapéu de Alberto”.

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