03/06/2021 às 20h32min - Atualizada em 03/06/2021 às 20h17min

A cigarra e as três ecologias da vida e morte “Severina”: Transformação, resignação e ressignificação

Ilustração da versão em quadrinhos de Morte e Vida Severina (Divulgação)
PASCHOALETTO, Alberto C.      

Nobre leitor de CONSCIÊNCIA & VIDA: A ideia aqui neste texto de hoje é associar o pensamento de Rubem Alves em que “A alma é uma cigarra. Há na vida um momento em que uma voz nos diz que chegou a hora de uma grande metamorfose; é preciso abandonar o que sempre fomos para nos tornarmos outra coisa: “Cigarra! Morre e transforma-te! Saia da escuridão da terra. Voa pelo espaço vazio!” com a obra de João Cabral de Melo Neto, Morte e Vida severina, que é, acima de tudo, uma ode ao pessimismo, aos dramas humanos e à indiscutível capacidade de adaptação dos retirantes nordestinos as intempéries da vida que morre um pouco a cada dia e choca pelo realismo demonstrado na universalidade da condição miserável do retirante, desbancando a identidade pessoal e junto a isso o pensamento de Félix Guattari sobre as três ecologias. Se de um lado, a morte representa um olhar otimista sobre a transformação, ela ganha um contorno em vários tons de cinza na resignação, pois em Morte e vida severina João Cabral poetizou a trajetória de Severino que saiu do sertão nordestino em direção ao litoral em busca de melhores condições de vida.
O meu nome é Severino, como não tenho outro de pia. Como há muitos Severinos, que é santo de romaria, deram então de me chamar Severino de Maria como há muitos Severinos com mães chamadas Maria, fiquei sendo o da Maria do finado Zacarias.
— Antes de sair de casa aprendi a ladainha das vilas que vou passar na minha longa descida. Sei que há muitas vilas grandes, cidades que elas são ditas sei que há simples arruados, sei que há vilas pequeninas, todas formando um rosário cujas contas fossem vilas, de que a estrada fosse a linha. Devo rezar tal rosário até o mar onde termina, saltando de conta em conta, passando de vila em vila.
No caminho, Severino conheceu outras pessoas do Nordeste que, como ele, passaram por todo tipo de dificuldades. Acreditam que a terra é seca e as pessoas são tratadas de forma injusta. Portanto, ele descreveu o funeral de um homem que foi assassinado a pedido do proprietário. Ele testemunhou muitas mortes e, aos poucos, percebeu que ninguém está livre para ser o que pretende ser como persistência da vida como a única forma de superar a morte. Nesse poema, Severino pensa em suicídio pulando no rio Capibaribe que banha o estado brasileiro de Pernambuco. Se mas é contido pelo carpinteiro José, que conta o nascimento de seu filho:
— Severino, retirante, deixe agora que lhe diga: eu não sei bem a resposta da pergunta que fazia, se não vale mais saltar fora da ponte e da vida nem conheço essa resposta, se quer mesmo que lhe diga é difícil defender, só com palavras, a vida, ainda mais quando ela é esta que vê, severina, mas se responder não pude à pergunta que fazia, ela, a vida, a respondeu com sua presença viva.
Por sua vez, a transformação que ganhou contornos em múltiplas tonalidades de cinza na  resignação do ser diante da pobreza e exclusão agora ganha um grito que clama por ressignificação, que é o encontro destes de Rubem Alves e João Cabral com os três tipos de ecologia de Félix Guattari, e se apresentam como um contínuo processo complexo de uma filosofia horizontalizada e ecologicamente reconhecida por analisar a relação do sujeito com o meio envolvente, incluindo aspectos sociais, ambientais e subjetivos, na tentativa de compreender o indivíduo por meio da sua realidade. Objetivamente, trata-se de um avanço no modelo de ambientalismo dualista do mundo cultural e do mundo natural, pois além do aspecto social, passa a incorporar a subjetividade humana nas discussões ambientais. Nessa perspectiva, a sustentabilidade ou equilíbrio ambiental vai depender das práticas humanas e estilos de vida consistentes com a base cultural e que impacta no comportamento individual ou o comportamento coletivo quando passa a fazer sentido uma concepção holística de Homem: bio-psico-social-espiritual e que para Guattari, em sua crítica sobre as questões mundiais socioambientais navegam pelos polos do planeta e além de enfocar a distribuição desigual de capital que continua a alimentar o estado de pobreza que se erguem como novas potências industriais e centros de hiper exploração. As práxis ecológicas evocadas por Guattari são definidas como:
  1. Ecologia subjetiva ou mental; Ressignificar a relação do sujeito como um conjunto complexo das partes: corpo, psique (inconsciência/e consciência) espiritual.
  2. Ecologia social; trabalhar nas relações humanas, a partir da primeira ecologia (homo sapiens) reconstruindo-as em todos os níveis do homo socius para resultar num individuo de autonomia e articulador de ações de convivência em favor do bem comum;
  3. Ecologia do meio ambiente, onde tudo é possível de acontecer, quanto às (r)evoluções flexíveis e quanto às piores catástrofes ambientais; “cada vez mais, os desequilíbrios naturais dependerão das intervenções humanas” (citação da p. 52 do livro), principalmente quanto à regulação das relações entre o oxigênio, o ozônio e o gás carbônico.
Pois então, prosseguindo com nossa provocação filosófica: FILOSOFIA PARA QUE SERVE? Para Deleuze e Guattari a filosofia acorda o indivíduo da pobreza intelectual para entristecer o indivíduo frente a realidade da vida. Uma filosofia que não entristece a nenhuma pessoa e não contesta ninguém, não é uma filosofia. A filosofia serve para inutilizar a burrice, faz da tolice algo de vergonhoso ou até mesmo criminoso. A filosofia não tem outra proficuidade a não ser a imediata reação frente a uma ação: apontar a submissão do pensamento sob uma das formas dessas suas formas: Negligência, Imprudência e Imperícia, senão vejamos o que segue. Negligência é o ato praticado sem a falta de um cuidado que deveria ser tomado antes da conduta, ou seja, é a falta de uma conduta proporcional a ação atenção, quando deixamos de praticar algo que deveríamos fazer.  Imprudência: falta de cuidado; de precaução ou a falta de um pensamento crítico e esclarecido que resulta na omissão ou inobservância do dever fazer algo frente a um fenômeno; Imperícia é quando o ato é praticado sem o conhecimento técnico necessário, ou seja, a pessoa não o discernimento e as qualificações técnicas necessárias para determinada conduta. Regressando ao nosso propósito filosófico desse texto, sugiro ao leitor que neste ponto responda no silencio de sua própria consciência a seguinte provocação para cada brasileiro, que se diz Homem de Bem:  Nas mais de 468 mil mortes, acumuladas, pelo COVID-19; no Brasil, todos os dias, 32 crianças e adolescentes morrem assassinados; O Brasil registra um caso de feminicídio a cada 7 horas; O Brasil alcançou a estatística de 10,6% totalmente vacinadas (primeira e segunda dose): Bom, nobre leitor, chegou o momento da verdade, como um lembrete para quando pensares na questão levantada para que serve a Filosofia, pois então caríssimo leitor, a filosofia serve como a balança do seu próprio julgamento, do qual dará conta um dia, seja perante a lei dos homens ou da lei do Universo: O que você tem feito de concreto para que represente a mudança que você mesmo quer para o mundo? Como pessoa, sua ação e conduta perante o mundo é: Escapismo (práticas hedonistas) ou Enfrentamento (assumir a dignidade de agir com ações concretas. E aí meu nobre leitor, como fica se é que terminou de ler nosso texto, afinal, leitura filosófica não é como leitura de jornal, responda-me se for lúcido e capaz, pois do contrário você não passa de mais um grão de farinha do mesmo saco que tanto fala ou critica. Pronto, aí está a resposta para quem perguntar sobre a Importância da Filosofia.
Para fecharmos nosso texto em conclusão, compartilho a visita que eu tive de um anjo que me disse em resposta ao texto: Boa tarde professor! Eita! Ficou muito boa essa associação dos dois autores e a simbologia da morte nas duas obras. A morte como renascimento ou a morte como solução para as intempéries (pular da ponte da vida) ao mesmo tempo que uma nova esperança surge. Morte X vida ou Morte E vida. Fiquei bem reflexiva quando falou da ecosofia, ainda mais no nosso contexto. Pensando que, o mundo está doente e isso reflete mau funcionamento de muitos aspectos das massas e ainda me fez refletir sobre a situação do Severino em seu meio. Morte e Vida trazem trechos falando da vida que sobrevive da morte (pessoas que usam a morte como fonte de renda pois era a única alternativa), a capacidade de adaptação dos seres (e não apenas humana) que nos força a encontrar meios para sobreviver ao mesmo tempo que não buscamos formas (aqui, só humanas) de conviver ou curar o meio que deixamos doente. Não tenho nada para acrescentar, apenas a reflexões que seu texto me trouxe. Pertinente e acredito que muito ainda pode ser dito no que diz respeito a interação humano e meio, simbologia da morte e vida como renascimento e transformação.
Isto posto, cabe ao leitor cabe a você analisar esse texto a luz da sua consciência para concluir qual é o sentido da tua vida, principalmente quando se orienta para a filosofia como opção de enfrentamento ao invés de válvulas escapistas: Qual será a juízo que Deus fará de você meu caro?
Pensemos, todos, nisso!

Alberto Carlos Paschoaletto
Coluna: (CONS)CIÊNCIA & VIDA
                                                                      Caminho Livre pelo Pensar Filosófico.
                                                                          Jornal Tribuna do Guaçu
 
 
REFERÊNCIAS
https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/13/30/a-ecosofia-e-as-trecircs-ecologias-de-fecirclix-guattari-na-formaccedilatildeo-do-sujeito-ecoloacutegico
https://www.todamateria.com.br/morte-e-vida-severina/
https://www.pensador.com/frase/MTkwOTQyOQ/#:~:text=Rubem%20Alves%3A%20A%20alma%20%C3%A9%20uma%20cigarra.&text=vida%20um...-,A%20alma%20%C3%A9%20uma%20cigarra.,Morre%20e%20transforma%2Dte!
https://www.redalyc.org/jatsRepo/5766/576660980016/html/index.html
 
 
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Alberto Carlos Paschoaletto é Professor Universitário, graduado em Ciências Jurídicas e Sociais; pós-graduação em Gestão Empresarial, Psicologia.

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