24/06/2022 às 16h40min - Atualizada em 24/06/2022 às 16h37min

Será que Jesus compraria uma arma?

PALAVRA DE MULHER

PALAVRA DE MULHER

Isa Oliveira é formada em Letras pela USP e autora dos livros “Elogio à loucura” e “O chapéu de Alberto”.

Na Bíblia está escrito que Deus fez o homem à Sua imagem e semelhança, mas às vezes, observando o andar desenfreado da carruagem do mundo, eu me pergunto se não li errado ou se algum tradutor não trocou as palavras, lá nos primórdios, porque é absurdo o número de pessoas que age como se Deus tivesse sido feito à imagem e semelhança do homem.
            E, é óbvio, não se atribui a Deus as qualidades humanas, mas os defeitos, as fraquezas, as imperfeições, como forma de justificar as próprias falhas. Confesso que, nessas horas, chego a ter inveja dos ateus, pelo menos eles são o que são e não têm a quem culpar pelos seus desastres e barbaridades.
            Estamos em ano eleitoral e, diga-se de passagem, uma senhora eleição, pois é provável que nunca, na história deste país, tenham se enfrentado dois candidatos tão opostos como Lula e Bolsonaro. E em período eleitoral é melhor ser surdo, porque se ouve coisas que até mesmo Deus, que não foi feito à nossa imagem e semelhança, se espanta e chega a duvidar.
            Por tudo o que vemos na política, ficamos cada vez mais convencidos de que a maior habilidade de um político é a arte de enganar e nisso, vence o que enganar melhor, uma briga de titãs, porque são todos muito habilidosos e escolados na arte da dissimulação e do convencimento.
E nós, eleitores, figuras mais importantes em cada pleito, visto que é em nossas mãos que está a decisão sobre quem entra e quem sai, somos mais ou menos maleáveis em nos deixar enganar. Isso até se justifica, porque a gente se cansa tanto de, entra ano, sai ano, a mesma lenga-lenga, os mesmos problemas, as mesmas promessas vazias, os mesmos conchavos, o mesmo jogo de interesses e a mesma infame troca de favores. Então, ficamos sonhando que surgirá um que será diferente.
Quando Bolsonaro surgiu das sombras, eu mesma acreditei nele, naquelas falas num local que parecia ser a sua casa, comendo pão com manteiga e tomando café com leite, com uma bandeira do Brasil atrás de si, colada com fita crepe de segunda. Tudo fake, a casa não era dele, era de um apoiador e hoje adversário, o empresário Paulo Marinho. Aquilo fazia parte da sua estratégia de campanha. Eu acreditei na sua aparência de homem de fé e no seu slogan “Brasil acima de tudo e Deus acima de todos!”. Mas, infelizmente, era só um slogan. Forte, convincente, mas, não passou disso, um slogan.
Eu acreditei – e até me condoí – que Bolsonaro não participou dos debates por causa da suposta facada e me atrevi a escrever um artigo perguntando por que ele não, afinal, eu não conhecia a história desse homem (quem conhecia?) e queria respostas para a forte onda de rejeição contra ele. Bem, esse artigo acabou causando uma forte onda de rejeição contra mim, que fui bloqueada por alguns “amigos” e vi a página do meu Face virar rinha de briga de galos entre seguidores de um e de outro, pessoas que até se esqueceram que estavam na “minha sala” e se digladiaram independente de mim, que apenas perguntei, ingenuamente até: Por que ele não? A resposta, ele mesmo deu e reforçou, nestes quatro anos de um governo ao qual ele disse que não se apegaria, que não se candidataria à reeleição. Vocês acreditam que eu acreditei nisso?
Hoje, eu me pergunto, depois de conhecer a inabilidade discursiva do presidente, que desculpa ele vai arrumar para não ir aos debates desta vez. Porque, convenhamos, uma coisa é enfrentar o Haddad, um intelectual comedido, e outra é enfrentar uma raposa como o Lula, a quem Deus, que não foi feito à nossa imagem e semelhança, deu o dom da oratória (embora ele também ande falando umas bobagens por aí, será que isso pega?).
E, veja, não estou defendendo o Lula, já escrevi, aqui mesmo, exaustivamente, sobre a minha decepção com o PT, independente de Moro, de Curitiba, de triplex, de chácara em Atibaia e de condenações. Qualquer um, petista ou bolsonarista, sabe o tanto de armação que rolou nesse angu de caroço. Por mim, nem um e nem outro. O Bolsonaro, pelo que ele é, e o Lula pelo que (quem) ele traz consigo.
Minha consciência tem um pouco de paz por não ter votado no Bolsonaro, mas sei que outras pessoas votaram influenciadas por minhas palavras, até meus sogros, de mais de 70 anos, fizeram isso. Muitos votaram e se arrependeram, e muitos estão satisfeitos com o governo e votarão novamente. Cada um com seu cada um. Eu lamento muito que entre os dois extremos, não tenhamos uma terceira via que nos tire dessa briga de foice, mas, no fim, talvez até seria injusto, afinal, se trata de uma grande revanche e a maioria espera por isso, independente de pender à esquerda ou à direita.
Ah, só pra constar, eu não votei em Bolsonaro e em ninguém, já falei aqui sobre a minha opção de não votar, um direito que me assiste, embora eu tenha de dar justificativa para a Justiça Eleitoral.
Agora, o que não dá é aceitar que o presidente católico/evangélico (ou seja, nem uma coisa nem outra) abra a sua boca para defender o armamento da população, com a qual certamente ele pretende contar num embate contra o Judiciário para mantê-lo milagrosamente no poder, caso o Lula ganhe, e acredito que ganhará, e diga que Jesus Cristo “não comprou uma pistola porque não tinha naquela época”.
Uma fala estúpida como esta só mostra o quão distante esse homem está da religião, da fé e do mundo cristão, o qual ele usa e abusa segundo os seus interesses. Talvez por isso tenha descartado tão rápido o pastor Magno Malta, que lhe deu total apoio em 2018 e fez a oração que emocionou parte da nação no momento da vitória.
Creio que alguém deva lembrar ao presidente as palavras de Jesus: “Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; mas qualquer que matar será réu de juízo. Eu, porém, vos digo que qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo; e qualquer que disser a seu irmão: Raca, será réu do Grande Conselho; e qualquer que lhe disser: Louco, será réu do fogo do inferno.” (Mt 5, 21-22).
            Não, Jesus não compraria uma pistola, nem mesmo para atirar em quem diz tais atrocidades, nem mesmo se esse tiro fosse ajudar o candidato à reeleição a não comparecer aos debates mais uma vez, porque os seus ensinamentos são muito elevados e só os pode absorver por completo quem conservar a pureza de uma criança, e não está no meio político tal criatura. Que Jesus tenha compaixão de nós, mais armados, mais violentos, mais agressivos, mais perdidos e mais infelizes do que nunca. Que Ele nos ajude a nos lembrarmos que, embora não pareça, fomos feitos à Sua imagem e semelhança.
 
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