27/05/2022 às 08h35min - Atualizada em 27/05/2022 às 08h28min

Para não se habituar ao medo: Reflexão sobre o receio de viver atualmente e a fuga de si mesmo

(CONS)CIÊNCIA & VIDA

(CONS)CIÊNCIA & VIDA

Alberto Carlos Paschoaletto é Professor Universitário, graduado em Ciências Jurídicas e Sociais; pós-graduação em Gestão Empresarial, Psicologia.

Será que estamos em cordas bambas, feito bêbados equilibristas...
 
 PASCHOALETTO[1], Alberto C.
 
Tempos de transição ou evolução natural do Planeta: assim caminha a humanidade!
 
Explicar o pós modernismo através da análise da  influência da filosofia do chamado pensamento Iluminista até o nosso tempo atual.  Primeiro: O tema pós modernismo já não é exatamente uma novidade. Há um consenso entre muitos estudiosos e observadores sociais de que o mundo ocidental está em meio a profundas transformações: DA MODERNIDADE À PÓS-MODERNIDADE: Na realidade tudo indica que estamos passando por um deslocamento sociocultural só comparável as inovações que marcaram a revolução industrial e estamos fazendo a travessia da era moderna para a pós-moderna.
TEMPO DE TRANSIÇÃO - Vivemos de que essas alterações monumentais estão abrangendo todos os aspectos da cultura contemporânea. O termo pós-moderno foi utilizado pela primeira vez em meados da década de 30, para se referir a uma importante transição histórica que estava em andamento. Muitos historiadores fixam o período do nascimento da era moderna no alvorecer do iluminismo, logo após a Guerra dos Trinta Anos, num cenário da Renascença, que emergira a humanidade das trevas para a luz da realidade racional.
Precursor dessa nova perspectiva, Francis Bacon (1561 – 1626) teve a visão de que os homens podiam dominar a natureza se descobrissem seus segredos... assim, o pensamento iluminista elevou o indivíduo ao centro do mundo: ANTROPOCENTRISMO! E, com René Descartes (1596-1650) também conhecido por seu nome latino Renatus Cartesius, fundador da filosofia moderna, sendo considerado um dos pensadores mais importantes e influentes da História do Pensamento Ocidental. Através dele foram lançadas as bases filosóficas da existência do ser pensante, primeira verdade que não podia ser negada pela dúvida, um princípio formulado pela máxima de Agostinho: Cogito ergo sum (Penso, logo sou!); Descartes definiu a natureza humana como substância pensante e a pessoa humana como um sujeito racional e autônomo.
Mais adiante Isaac Newton deu à modernidade um embasamento científico ao propor um mundo físico como uma máquina cujas leis e regularidade podiam ser metodologicamente apreendidas pela mente humana: substância autônoma e racional!
OBS.: Para se aprofundar mais leia esse outro texto: O imperativo do diferente nos constructos identitários – Eis a grande condenação do Ser: Assumir sua Liberdade na relação com o outro. - PORTAL TRIBUNA DO GUAÇU (portaltribunadoguacu.com.br)
 
Por uma questão da POLIS temos a obrigação moral de sermos politizados;
 
Outro aspecto que se destaca nesta pensata é o pensamento contundente e reflexivo de Eduardo Galeano: em seu texto "Para viver sem medo"; esse respeitável e saudoso pensador, falecido em 13 de abril de 2015, que celebrou “o mistério da persistência humana, às vezes inexplicável, de lutar por um mundo que seja a casa de todos e não a casa de poucos – e o inferno da maioria”.
 
Cabe ainda esclarecer ao nobre leitor que o escritor uruguaio Eduardo Galeano, autor de "As Veias Abertas da América Latina", uma referência da literatura comprometida com a esquerda e voz dos marginalizados da região, faleceu naquela segunda-feira, 13 abril, aos 74 anos em Montevidéu. Embora seja eu um estudioso do Liberalismo-social, respeito como fonte segura a lavra de abordagem de Eduardo Germán Maria Hughes Galeano que morreu vítima de um câncer de pulmão.
 
Calma lá, nobre leitor que eu explico: - O que é o liberalismo social? Pois bem, para começo de conversa - Liberalismo-Social, tem sua matriz Liberal clássica e se situa como Centro-direita. Neste caso, por motivos didáticos não considero o centro absoluto do espectro, para que a distinção fique mais clara aos iniciantes, até porque seria desviar das trilhas do nosso objetivo filosófico. Cabe ainda ressaltar, evitando assim uma definição simplista, cabe informar o nobre leitor que para melhor explicar essa ideologia liberal-social pelo seu oposto que é a linha de pensamento do sociais-democratas cuja premissa maior é o apoio a institucionalização do modelo de bem-estar social. Para estes, o Bem-estar social é uma parte fundamental da sociedade, e como uma expressão da responsabilidade democrática da sociedade, é uma responsabilidade do Estado garantir o acesso aos recursos necessários para que tais necessidades básicas sejam satisfeitas.
Para o pensamento liberal-social a premissa maior são os modelos institucionais (governamentais) com desconfiança para lidar com os problemas de distribuição/concentração do capital enquanto os sociais-democratas têm apoiado este modelo institucional como parte do gradual movimento da sociedade em rumo a uma conformação mais justa e igualitária (socialismo).
Os liberais-sociais compreendem o  modelo institucional (Estado, embora mínimo) como um mal necessário para corrigir o excesso de desigualdades causadas pelo sistema capitalista extremamente competitivo e predatório, já os sociais-democratas veem este modelo institucional como parte integral do desenvolvimento da sociedade, e assim, numa postura democrática o Estado seria a peça principal na promoção do bem-estar social.
OBS.: Para se aprofundar mais leia esse outro texto: A busca de si mesmo no caminho estético da Prosperidade: Existem sistema de sinais? - PORTAL TRIBUNA DO GUAÇU (portaltribunadoguacu.com.br)
 
 
Toda orquestra tem seu Spalla que dá apoio ao regente
 
Spalla significa "ombro" em italiano que é um termo usado para o primeiro violino da orquestra. Em italiano chama-se violino di Spalla. Em uma orquestra, fica posicionado na primeira fila à esquerda do maestro. Ele é o último instrumentista a subir no palco antes do Maestro e responsável pela afinação da orquestra. Também realiza performances solo e atua como regente de apoio, passando as decisões do maestro para outros músicos e o Spalla é o violino que sustenta o maestro. Até meados do século XIX, as apresentações eram muitas vezes conduzidas por Spalla, que usava um arco para marcar o tempo da música.
 
Do ponto de vista filosófico e na perspectiva da teoria geral de sistemas (também conhecida pela sigla T.G.S.) fruto dos trabalhos do biólogo austríaco Ludwig von Bertalanffy, publicados entre 1950 e 1968 que se entrelaçada com a teoria da complexidade e suas implicações das partes que formam o todo (incluindo todos os ecossistemas) que são as bases do denominado pensamento complexo de Edgar Morin e que vê o mundo como um todo indissociável e propõe uma abordagem multidisciplinar e multirreferenciada para a construção do conhecimento, e para isso o enfrentamento das alienações da sociedade consumista e narcisista com seus constructos identitários desenvolvidos no consumo desenfreado.
 
Liberalismo-social uma análise mais profunda deste conceito
 
O Liberalismo Social é uma filosofia política que ressalta a cooperação recíproca por meio de instituições liberais, em oposição à utilização da força para resolver as controvérsias políticas. O liberalismo se distingue pelo seu princípio de abertura e tolerância em vários níveis. De acordo com essa doutrina, o interesse geral requer o respeito pelo livre-arbítrio cívico, econômico e da consciência dos cidadãos. Seus principais valores são:
 
Individualidade - foco no indivíduo, ou melhor, na visão atomizada do indivíduo como único onde ele é um ente em si possuidor de direitos naturais como propriedade e autodeterminação. Sendo assim, o indivíduo vivendo entre outros indivíduos possui seus desejos, pensamentos e sonhos particulares que podem ou não estar em conjunção com outros indivíduos o que pode uni-los através de sociedades sejam elas civis ou político partidários porém sem retirar deles sua individualidade; Liberdade/Autonomia - A liberdade política, econômica e social dos indivíduos é um valor absoluto para os liberais-sociais, não havendo motivo que venha a tolher ou diminuir a liberdade nas três esferas. A liberdade para participar das instituições e processos políticos deve ser assegurada a todos independente de seu pensamento político onde a liberdade econômica aplica-se a possibilidade, ou não, dos indivíduos sós ou em associações empreenderem, sem muitos entraves e com a liberdade de mercado necessária para o exercício de sua atividade; A liberdade social - aplica-se na possibilidade, ou não, dos indivíduos se unirem em associações civis como família, clubes, confrarias, movimentos sociais e ao mesmo tempo terem liberdade para afirmar ou reafirmar seu caráter individual ou de grupo de forma livre e democrática. (“Social Democracia x Liberalismo Social | by Lucas Pereira | Medium”) Ponto-chave que destaco como imperativo que justifica minha linha aqui defendida é a autodeterminação do indivíduo que nesse caso aplica-se a cada ação individual, sendo sua consciência seu limite, porém para que não haja um estado de violência entre os indivíduos autodeterminados é necessário que existam convenções de comportamento que minimamente regulem os limites da ação individual para evitar danos a pessoas, ou ao patrimônio de outro indivíduo; Justiça: - compreendida acima de tudo como a aplicação real da ideia do Império da Lei que prescinde da ideia de Igualdade perante a lei para todos os indivíduos. Um outro âmbito da justiça é a diminuição das desigualdades iniciais entre os indivíduos no que se refere a saúde e educação, essas devem compor o que denominamos de Mínimo do Estado, sendo essas duas condições necessárias e suficientes para igualar em possibilidades os indivíduos para que eles possam competir no mercado econômico, na sociedade e na política.
 
Assim, no pensamento Liberal-Social o Estado é o ente que deve promover, regular e sustentar esta justiça para que os desvios causados por problemas políticos, sociais e econômicos sejam desfeitos em prol da autorrealização do indivíduo e da maximização de suas potencialidades.
 
 
Será que estamos em cordas bambas, feito bêbados equilibristas?
 
Finalmente, nobre leitor, enquanto vivemos o que Zygmunt Balman teorizou como modernidade líquida, disforme e que escorre nas mãos, e caracterizada como o interregno de referencias que deixamos quando a modernidade demonstrou no final da segunda guerra mundial que todas as utopias advindas do ganho de escala da revolução industrial não conseguiram elevar a dignidade humano, quiçá fôssemos menos competitivos e mais colaborativos mas como isso até hoje ainda não foi superado, vivemos ainda como os nossos ancestrais primatas e compensamos todas as mazelas das distopias que cada um vive em razão da perda desses referenciais (interregno) no consumo como uma droga para aliviar períodos ansiodepressivos contumazes. Pois bem, nobre leitor, em considerações finais dessa pensata vamos finalmente refletir sobre o fato de que “fomos treinados para ter medo de tudo e de todos”, segundo Galeano em seu poema que segue:
 
 
Viver sem medo:
 
Se você ama, terá AIDS;
Se fuma, terá câncer;
Se respira, terá contaminação;
Se bebe, terá acidentes;
Se como terá colesterol;
Se fala, terá desemprego;
Se caminha, terá violência;
Se pensa, terá angústia;
Se dúvida, terá loucura;
Se sente, terá solidão
 
Para ter fôlego é preciso ter desalento;
Para se levantar tem que  saber cair;
Para ganhar tem que saber perder.
E temos que saber que assim é a vida,
e que você cai e se levanta muitas vezes.
 
 
Alguns caem e não se levantam nunca mais,
geralmente os mais sensíveis,
os mais fáceis de se machucar,
as pessoas que mais dor sentem ao viver.
Os mais sensíveis são mais vulneráveis.
 
Em contrapartida, esses que se dedicam a atormentar
a humanidade tem vida longuíssima, não morrem nunca.
Porque não têm uma glândula, que na verdade, é bem rara
que chama consciência,
aquela que nos atormenta pelas noites.
 
Acho que o exercício de solidariedade,
quando se prática de verdade, no dia a dia,
é também um exercício de humildade
que ensina você a se reconhecer nos outros
e a reconhecer a grandeza escondida nas coisas pequeninas.
 
O que implica denunciar a falsa grandeza nas coisas ‘grandiosas’.

 
OBS.: Para se aprofundar mais leia esse outro Texto: https://portaltribunadoguacu.com.br/coluna/60/os-contornos-literarios-e-as-significacoes-filosoficas-da-metafisica-ontologica-um-atributo-ao-ser
 
 
Considerações finais e Conclusão
Pode-se articular que um comportamento é virtuoso na medida em que promove a felicidade, e corrompido enquanto provoque aflição. Ou ainda, toda ação que é contrária aos interesses do homem, como um ser em progresso e na busca da felicidade, são injustas. É da referida argumentação que se extrai o fundamento de legitimação do controle social.
 
E, para finalizarmos nosso texto resta elucidar o projeto de modernidade formulado pelos filósofos do iluminismo que consiste num desenvolvimento implacável das ciências objetivas, com bases universalistas de moralidade e libertação dos potenciais cognitivos através da organização racional da condição de vida e das relações sociais. Embora os componentes do iluminismo se apresentaram numa expectativa extravagante, trazendo luz ao período anterior das trevas, propondo uma compreensão do ser e do mundo, o progresso moral, a justiça nas instituições sociais e uma nova forma de interpretar a felicidade humana: - mas, isso será assunto para um outro texto.
 
Pensemos, todos, nisso!
 
 
REFERÊNCIAS
 
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Tradução: Plínio Dentzien. Rio de Janeiro, Zahar, 2001.
 
PEREIRA, Lucas. Social-Democracia x Liberalismo Social – Diferenças. Artigo disponível em https://medium.com/ Acesso em 22 de maio 22
 
RIBEIRO, Nara Rubia. “É tempo de viver sem medo”, Eduardo Galeano. Portal Geledes. Disponível em https://www.geledes.org.br/e-tempo-de-viver-sem-medo-eduardo-galeano/ Acesso em 21 de maio 22
 
RUDÁ, Ricci. O que é social-liberalismo? Artigo publicado em https://jornalistaslivres.org/o-que-e-social-liberalismo/ Acesso em 22 de maio 22.
 
SOUZA ALVES, Rodrigo Vitorino. Sobre a liberdade: Indivíduo e Sociedade em Stuart Mill. Artigo publicado na Revista CEPPG – Nº 25 – 2/2011 – ISSN 1517-8471 – Páginas 197 a 212. Disponível http://www.portalcatalao.com/ acesso em 21 de maio 22
 
 
 
 

[1] Professor Universitário, com graduação em Ciências Jurídicas e Sociais; pós-graduação em Gestão Empresarial, Psicologia Organizacional e do Trabalho; Mestrando em Desenvolvimento Sustentável e Qualidade de Vida.
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