29/05/2021 às 12h38min - Atualizada em 29/05/2021 às 12h35min

Aos cristãos cachaceiros e de pouca oração

Isa Oliveira
“Muita cachaça e pouca oração”, brinca papa Francisco sobre situação dos brasileiros (Foto: Divulgação)
     Esta semana, um padre brasileiro que estuda em Roma, teve a oportunidade de se encontrar com o papa Francisco e, ao pedir para que o sumo pontífice rezasse pelos brasileiros, ouviu como resposta que “os brasileiros não têm salvação, muita cachaça e pouca oração.”. O padre postou o vídeo com a fala do papa, que viralizou e, logo começaram a surgir os memes confirmando a suposta tendência brasileira para a bebida e para a aceitação de qualquer coisa.
     Vejamos. Apenas 1% dos brasileiros se declaram ateus e 10% se dizem sem religião (o que não significa que não rezem, pois rezar não é atributo exclusivo de quem pratica uma religião). Dos 89% restantes, menos de 5% são de religiões não cristãs. Sobram, portanto, 84% de cristãos, sendo 50% católicos. Tão ocupado em se mostrar simpático, respeitoso e aberto a outras religiões pelo mundo afora, num aceno ecumênico com o propósito de aumentar a sua popularidade, o papa talvez tenha perdido de vista que o padre que lhe pedia uma bênção é originário da maior nação católica do mundo. Algo que, ao menos como antigo vizinho, ele deveria saber.
     Eu sou cristã católica e me levanto cedo todos os dias para fazer as minhas orações. Posso até apreciar o sabor de uma boa cachaça e não dispenso uma taça de vinho em ocasiões especiais, mas isso não quer dizer que eu ande por aí com um corotinho debaixo do braço e nem que precise me tornar membro do AA.
     Talvez o papa também não saiba que, desde o início da pandemia,  há milhares de brasileiros que realizam encontros virtuais todos os dias, às quatro horas da manhã, para rezar o rosário. Eu disse quatro horas e disse todos os dias. E há milhares de outros que não conseguem acordar tão cedo, mas que não deixam de rezar o rosário em outras horas do dia. E muitos que não rezam o rosário, não dormem sem terem rezado o terço. Pessoas que estão sofrendo por não poderem ir à missa devido às restrições impostas pela quarentena, mas que fizeram de suas casas os seus altares, os seus templos, o seu local de oração.
     Mesmo com o seu discurso ecumênico, o papa pode não ter prestado atenção que o Brasil é o segundo maior país cristão do planeta, com 180,7 milhões de fiéis, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. E, se os cristãos divergem em alguns pontos doutrinários, em uma coisa são unânimes: a oração. Em nosso país, segundo o papa, “regado a cachaça”, há muita gente que, além de não beber, lê a Bíblia e medita a palavra de Deus diariamente.
    Foram feitos muitos memes e piadas em cima da fala engraçadinha do papa, alguns até acharam fofa e descontraída a sua maneira de se referir aos brasileiros. Não, meus amigos, não tem nenhuma graça nisso! A questão é muito séria e esse é um tipo de brincadeira que não se faz. Ninguém tem o direito de generalizar um povo tão grosseiramente, sobretudo, alguém que representa a principal religião do mundo. Além de ser o líder religioso de maior destaque entre as nações, o papa é também um chefe de Estado e as suas palavras desrespeitosas ferem frontalmente as regras da diplomacia.
    Muitos estrangeiros enxergam o Brasil como o país da vagabundagem, futebol e carnaval e acreditam que só o que temos é a devastada floresta amazônica, as praias do Rio de Janeiro, favelas, mulatas e marginais. Nós já sofremos o suficiente com esse estereótipo e com uma política que contribui para piorar a nossa imagem lá fora, não precisamos da ajuda de um papa para reforçar isso!
     Precisamos considerar que não foi apenas aos católicos que o papa ofendeu, mas também aos demais cristãos brasileiros e, se ele não respeita os adeptos da religião que lidera, deveria respeitar ao menos os membros de outras religiões. Há muita gente que leva a religião a sério neste país,  e eu, sinceramente, senti vergonha diante de tantos homens e mulheres fiéis, dignos e honrados, católicos ou não, que foram chamados de cristãos omissos e de beberrões.
    Um papa que se ajoelha e beija os pés de líderes muçulmanos deveria, no mínimo, respeitar e levar a sério os seus próprios irmãos de fé. Esse papa que hoje faz piadinha idiota com um povo de boa índole que contribui para manter o Vaticano em pé é o mesmo papa que há cerca de dois anos foi filmado dando um forte tapa na mão de uma fiel que tentou tocar nele. É também o mesmo papa que, apesar de rir e levar tudo no bom humor e brincadeira, tem autorizado intervenções em ordens sérias, que zelam pelos valores da Igreja e que talvez rezem demais, na opinião dele e dos interventores que nomeou.
    Como diz a boa filosofia, política, futebol e religião são coisas que não se discutem, mas, embora minhas palavras não venham a ter grande alcance e repercussão, eu não poderia me calar diante desse fato e nem deixar de me indignar com um bando de gente rindo da piadinha tosca do Sr. Bergoglio e nenhuma autoridade eclesiástica vindo em defesa de seus fiéis. Infelizmente, nós temos dois papas e nenhum dos dois nos representam. Um por estar afastado, após uma renúncia cujo real motivo só sabem ele e Deus, e o outro, por mais simpático e amistoso que pareça, até agora ninguém entendeu ao certo ao que veio e aonde pretende chegar. Que Deus tenha compaixão de nós!
 
 



                    
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Isa Oliveira é formada em Letras pela USP e autora dos livros “Elogio à loucura” e “O chapéu de Alberto”.

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